Domingo na Marcha (1ª parte) – Passa Palavra

Retirado de Passa Palavra: http://passapalavra.info/?p=41431

22 de Junho de 2011

Os limites das fábricas foram rompidos não para libertarem os trabalhadores do trabalho e da vigilância dos inspetores, mas para incorporar todas as dimensões da vida na mesma lógica da produtividade. Por Passa Palavra

O coletivo Passa Palavra recebeu a seguinte mensagem de Pablo Capilé, do Fora do Eixo:

«Olá,
Gostaria de convidar o coletivo Passa Palavra para um debate público sobre a “Esquerda Fora do Eixo” e a Marcha da Liberdade, que foi tema de artigo do site na semana passada. Acredito que o objetivo de vocês ao escrever a referida reportagem tenha sido o de ampliar o debate, portanto gostaria de dar sequência a essa iniciativa com um debate aberto, público e com transmissão ao vivo, na data que escolherem e no local que escolherem. Estaremos a disposição. Fico no aguardo.
abs!»

Enquanto espaço de debates do campo anticapitalista, não participamos de eventos organizados por entidades do “ativismo empresarial”, já que para nós as classes existem e são bem definidas. Porém, nos preocupamos com o caminho que seguirão daqui para a frente as lutas sociais. Por isso, a continuidade da reflexão – pública e ampla – segue aqui, em forma de uma série de artigos, e não numa atividade a ser protagonizada por aqueles que se colocam como os novos gestores das redes.

O tropicalismo fora do eixo

— Escrever sobre o tropicalismo? Ai! Ai! Mas vamos ser atropelados por este e por aquele exatamente aqui, porque um é o teórico do tropicalismo e o outro é mais tropicalista ainda.

— Mas o tropicalismo não é teoria, é puro blablabla, ele não tem nada a dizer além daquilo que já está dito.

— O tropicalismo foi vazio enquanto movimento político, não teve tempo, só se realizou no plano estético, por isso não deveríamos embarcar nele.

— Mas precisamente por isso devemos embarcar, porque é vazio, é o discurso do presente, a antropofagia do que está aí. Enfim, casa-se perfeitamente com a nova tendência do capital.

— Olhem, eu não entendo nada disso, a minha música é outra.

“Você não está entendendo
Quase nada do que eu digo
Eu quero ir-me embora
Eu quero é dar o fora
E quero que você venha comigo”

— Paciência, venha com a gente que a gente explica, ou não.

marcha-71Quando Gilberto Gil subiu ao palco para disputar a final do III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, no já longínquo ano de 1967, não era apenas o lançamento do grupo “Os Mutantes” que estava acontecendo. “Domingo no Parque”, a música que não saiu vencedora, conseguiu fazer no plano estético-cultural o que não se podia fazer pela política: abrir o país para o mundo. Estava ali um baiano a contar uma história nordestina ao som do que viria ser a mais importante banda de rock do Brasil. O nacionalismo que dominava tanto a esquerda quanto a direita não entendeu bem aquilo e tudo o mais que viria a acontecer em volta de [Gilberto] Gil e de seus companheiros e os isolou.

É verdade que, como fala Caetano Veloso no documentário “Uma noite em 1967”, Gil estava um tanto ou quanto inseguro aquela noite, era algo muito ousado a se fazer e as consequências não estavam claras. Caetano, que também foi finalista neste mesmo festival com a música “Alegria, alegria”, em outra já havia declarado o que pretendia fazer desde lá. “Eu organizo o movimento / Eu oriento o carnaval” era umas das frases mais fortes da música “Tropicália”, de 1968, que daria nome ao que estava acontecendo.

Rejeitados tanto pela esquerda (http://www.youtube.com/watch?v=mCM2MvnMt3c) quanto pela direita, inclusive pelos representantes destes dois lados da cena artística e cultural brasileira, seguiram a mando da Ditadura rumo ao exílio, e os representantes do tropicalismo não conseguiram consolidar o seu movimento, se diluíram naquilo que hoje se chama de MPB, mas não sem antes deixar em toda a música brasileira algo de irreversível. O Brasil estava no mundo e o mundo deveria também estar no Brasil.

Ora, havia outra coisa em comum entre a esquerda e a direita do período da ditadura. Ambos eram, além de nacionalistas, extremamente autoritários. E o tropicalismo, independentemente de ser liberal ou libertário, não caberia em nenhum dos dois extremos. Como no mesmo período havia um movimento cultural ainda mais forte que agradava à esquerda, não se chegou a configurar uma cisão entre a política e a cultura, mas os ressentimentos surgidos daí parece nunca terem sido remediados.

Quarenta anos depois o tropicalismo volta a encontrar-se com a política, mas como a esquerda mudou menos do que a direita — pior, aquela esquerda de lá é o Estado de hoje — não fica difícil adivinhar para qual lado o tropicalismo, ou pelo menos seus símbolos, foram ganhos. Chegou a hora, finalmente, de organizar o movimento?

Como a juventude sempre mudou o mundo

A cada novo ciclo de lutas impulsionado pelos trabalhadores, os capitalistas se colocam diante de um dilema: como aceitar as reivindicações sem perder o poder. Se as classes dominantes não respondem rapidamente à insatisfação geral, então esta transforma-se em revolta e, de revolta em revolta, pode se chegar a uma revolução. Mas se eles aceitam o que é reivindicado em sua totalidade, então as taxas de lucro e o poder das instituições que os sustentam podem ruir, e perde-se tudo da mesma forma.

marcha-61Na maior parte dos momentos críticos da história destes dois últimos séculos o impasse foi resolvido de uma forma que não poderia ser melhor: o capitalismo conseguiu assimilar boa parte das reivindicações dos trabalhadores e ainda por cima elevar as taxas de lucro. Os trabalhadores exigiram o direito de se organizar, e assim foram permitidos partidos e sindicatos que, ao longo do tempo, se transformaram mais em capatazes da força de trabalho do que em instrumentos dos trabalhadores para conduzir as próprias lutas. Exigiram melhores condições de trabalho, direito à educação e ao lazer, previdência e tudo mais e, em troca, se tornaram mais produtivos. Por fim, disseram que pensam, que sentem, que têm desejos e ganharam em troca o direito de se “auto-explorar”. Nem por isso esse processo aconteceu sem tensões e incertezas e houve quem duvidasse que seria impossível assimilar mais uma vez as exigências colocadas em pauta.

Se fizermos as contas, veremos que a juventude de hoje está tão longe de 1968 quanto a de 1968 estava das revoluções da década de 20. Mas esta distância não se mede pela soma dos anos e sim pela forma como cada uma questionou o mundo e o seu passado, decretando o novo. Na década de 20 os trabalhadores, mesmo morando nas cidades, eram em sua grande maioria camponeses, e muitos ainda estavam a trabalhar na atividade agrícola. Em 1968 as formas de se construir as lutas já não poderiam ser as mesmas para uma geração que nasceu e se formou nos grandes centros urbanos e a fábrica era o destino certo da grande maioria. Nos primeiros anos do século XXI nem o campo nem as fábricas existem mais no imaginário da juventude, a forma de se relacionar com o trabalho é outra e é esta outra forma que explica como se dão, ou não se dão, as lutas atuais.

Hoje, vive-se num momento da história no qual a formação para o trabalho acontece desde o nascimento de uma criança. Não se trata somente de inculcar no pequeno ser alguma “ética protestante” que dome o seu espírito para o trabalho dócil ou uma visão fatalista do seu papel no mundo. As coisas vão além e desde cedo, cada brincadeira já é em si um treinamento, uma “formação” ou “capacitação”. Qualquer um espanta-se ao ver uma criança antes de aprender a ler e a escrever operar um computador ou um celular, esses que serão, qualquer que seja a sua profissão, se é que terão uma, os seus principais instrumentos de trabalho.

marcha-8Daí para a frente, a cada inovação tecnológica, novos aprendizados são incorporados à formação dos sujeitos. Os que, por outro lado, não tiveram acesso a esta formação estão automaticamente excluídos do novo mundo do trabalho, vão viver sob as relações de produção mais arcaicas e opressoras, e das forças produtivas mais obsoletas. Reparem na mudança que aconteceu em um século: no início os trabalhadores não precisavam saber nada do seu próprio trabalho, bastava apertar um parafuso, bater o martelo em alguma lâmina ou acionar alavancas. De meados do século passado até o seu final as fábricas e o sistema educacional se encarregaram de preparar os trabalhadores para atividades mais complexas, chegando a explorar a criatividade e as emoções dos mesmos no estágio mais avançado deste processo. Hoje os pais se encarregam desta formação, as mídias, as redes sociais virtuais e, na maior parte do tempo, é o trabalhador que está a se autoeducar, quando não a criar as ferramentas da sua própria exploração. Cada um é um trabalhador desde que nasce, continua sendo-o nas suas horas de lazer e não deixa de ser quando na inatividade.

Uma das características, portanto, desta nova forma do mundo do trabalho já está clara. Os limites das fábricas foram rompidos não para libertarem os trabalhadores dos rígidos turnos de trabalho e da vigilância permanente dos inspetores, mas para incorporar todas as dimensões da vida na mesma lógica da produtividade, desta vez ainda mais intensa. Outras características, entretanto, só começam a ficar nítidas agora, com a emergência das primeiras lutas organizadas por essa nova geração.

O segmento do proletariado que mais produz valor para o capitalismo e, por isso, é a fração mais poderosa em termos de negociação, está dissipado. É esta nova geração de trabalhadores, ainda jovem, que opera as novas tecnologias da produção e está encarregada de manter em pleno funcionamento os centros mais lucrativos do capitalismo moderno. O que produzem, em muitos casos, não está sujeito à lei da gravidade, são produtos intangíveis, mas nem por isso fugiram da lei do valor. Pela infinidade de formas que o trabalho ganhou e pela infinidade de produtos que se cria cotidianamente, além, é claro, da proximidade que mantêm dos gestores do próprio trabalho, a identificação entre eles como pertencentes a um mesmo grupo social, ou uma fração da classe trabalhadora, é prematura, se tivermos uma concepção otimista do processo, ou extremamente difícil, se quisermos ser mais realistas.

marcha-5Entretanto, não é por não se articularem para as lutas, que não se articulam para produzirem seus próprios símbolos e espaços de convivência. Esta articulação não acontece nas praças ou nos refeitórios, mas principalmente pela internet, nas redes sociais e outras ferramentas virtuais. O espaço do encontro físico, “presencial” como se costuma falar nestes meios, para que cada um possa se reconhecer enquanto parte de uma totalidade, ainda não estava dado. É uma geração de trabalhadores que consegue interagir numa velocidade e numa dimensão nunca antes imaginada por nenhum outro movimento do proletariado, mas em compensação têm uma dificuldade nunca antes vista de se organizar, de sistematizar seus anseios e construir uma pauta que movimente todos numa direção comum. A interatividade, portanto, por mais colaborativa que chegue a ser em alguns momentos, não leva a uma organização de classe.

Por último, e talvez o mais fundamental porque o mais contraditório. Desde que a época dos artesãos foi superada para se instituir o trabalhador moderno que não tem nada além da sua força de trabalho, é a primeira vez que os trabalhadores também criam suas próprias ferramentas de trabalho, ou pelo menos modificam profundamente aquelas criadas pelas empresas. Essa adaptação das ferramentas de trabalho, geralmente softwares mas não só, dá aos trabalhadores um profundo conhecimento sobre os processos produtivos. E é esse conhecimento apropriado e ressignificado pelos trabalhadores que permite em alguns espaços criar produtos e serviços sob uma lógica distinta da imposta pelo capitalismo e, em outros tantos, construir até produtos do anticapitalismo.

Permitir que os muros das fábricas fossem rompidos elevou a produtividade e manteve vivo o capitalismo por mais um ciclo, mas ao mesmo tempo deu à questão do controle sobre os trabalhadores o tamanho do planeta.

(Continua aqui)

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