Lulismo fora do eixo – Caros Amigos

Retirado de: Revista Caros Amigos, ano XV, nº 173/2011, p. 8

Por José Arbex Jr.

“Imaginem um liquidificador em que se possa colocar as ramificações da esquerda, com estratégias e lógicas de mercado das agências de publicidade, misturando rock, rap, artes visuais, teatro, um bando de sonhadores e outro de pragmáticos, o artista, o produtor, o empresário e o público. Tudo junto e misturado. O caldo dessa batida é uma nova tecnologia de participação e engajamento que funciona de forma exemplar para a circulação e produção musical, mas que, acima de tudo, é um grande projeto de formação política. O Fora do Eixo cria, portanto, uma geração que se utiliza sem a menor preocupação ideológica de aspectos positivos da organização dos movimentos de esquerda e de ações de marketing típicas dos liberais. E, como disse o teórico da contracultura Cláudio Prado, a construção da geração pós-rancor, que não fica presa a questões filosóficas e mergulha radicalmente na utilização da cultura digital para fazer o que tem que ser feito.”

O fantástico liquidificador das ideologias é assim descrito por Alexandre Youssef, articulista da revista Trip (de onde foi extraído o trecho acima citado, publicado em 12 de maio de 2011), membro do Partido Verde e coordenador do setor de Juventude durante a gestão de Marta Suplicy na prefeitura de São Paulo. Ele tem o mérito indiscutível da franqueza. Não é todo dia que alguém reúne graça e entusiasmo para cantar as virtudes de um “projeto de formação política” que combina, sem qualquer pudor ideológico, métodos organizativos da esquerda com “ações de marketing típicas dos liberais”. Claro: tudo isso é feito sem rancor, sentimento ultrapassado e cultivado pelas pessoas que teimam em se prender a “questões filosóficas” antigas, incapazes de perceber que a cultura digital mudou o mundo. Afinal, não foi o Facebook que provocou a revolução árabe?

Não. Não foi a mais moderna tecnologia que provocou a revolução árabe, mas os mais arcaicos entre os problemas enfrentados pela humanidade: a fome e a pobreza. A imensa maioria dos árabes nunca teve acesso à Internet, ao Facebook e a nada que se pareça com “cultura digital”. Nem teve acesso a mesas fartas e empregos dignos. Seria melan-cômico presenciar o resultado de uma preleção contra o rancor endereçada aos milhões de manifestantes que, colocando em risco as próprias vidas, foram às ruas para derrubar ditadores em algumas das principais capitais árabes. Em contrapartida, os soldados e oficiais da Otan que, historicamente, lançaram e ainda lançam milhares de toneladas de bombas sobre uma população civil indefesa, esses não agem movidos pelo rancor, mas subordinados a frios interesses geopolíticos, e estão perfeitamente integrados à “cultura digital”. Os seus brinquedinhos de guerra são produtos da tecnologia de ponta, e incluem robôs e bombardeiros não pilotados. Tudo muito avançado.

O texto de Youssef não teria a menor importância, se ele não fosse expressão de um processo em curso, no Brasil e em todo o planeta, de cooptação de amplos setores da juventude e da esquerda para políticas de conciliação e abandono da guerra ao capital. Toda essa conversa de “superação do rancor” está a serviço de uma ideologia (embora, obviamente, Youssef afirme o contrário) segundo a qual já não é mais possível falar em luta de classes. Os grandes cenários de embates, agora, são os circuitos culturais, não mais o chão de fábrica, o campo e as praças públicas. Ou melhor: todos servem de palco para a grande guerra simbólica.

E como isso aconteceu? É simples. O capitalismo pós-fordista, desenvolvido no pós-guerra, teria superado a divisão entre trabalho intelectual e manual, para integrar funcionários cada vez mais qualificados a funções que combinam gerência e produção. Além do mais, o vasto acesso ao ensino superior, franqueado às populações de baixa renda, teria mudado radicalmente o perfil da força de trabalho, em particular nos países de capitalismo mais desenvolvido. Essas transformações teriam sido fundamentais para a “culturalização” das classes médias urbanas, para o surgimento da contracultura (incluindo o movimento hippie, entre outros) e de novas demandas, que não se limitam mais a emprego, salário e conquistas sociais. Do ponto de vista dos novos “setores urbanos médios”, nas palavras do ativista Pablo Ortellado, “as demandas são crescentemente ‘pós-materiais’ para usar um jargão sociológico.”

Desgraçadamente, as manifestações de centenas de milhares de jovens e trabalhadores desempregados na Grécia, Portugal, Espanha e, mais recentemente, Itália mostram que as reivindicações são bastante “materiais”. Assim como são “materiais” as demandas de trabalhadores franceses, que não aceitam os contínuos ataques promovidos pelo capital às suas conquistas históricas ou as de alguns setores do movimento sindical estadunidense, que começa a dar crescentes sinais de vida. E mais “materiais” ainda as necessidades de cerca de l bilhão de seres humanos famintos (segundo dados da própria ONU) e outro tanto de subnutridos. Alguém teria que avisá-los de que eles poderiam saciar a própria fome a carência de nutrientes virtualmente. É fantástico o show da vida.

POLÍTICA “PÓS-RANCOR”

Para outros advogados da política “pós-rancor”, o proletariado teria sido substituído pelo “precariado”, uma massa difusa, formada pelos milhões de trabalhadores e jovens que habitam as imensas favelas e bairros da periferia. Tais “multidões” (para usar um conceito proposto pelo italiano Toni Negri, segundo quem não existe mais imperialismo, embora haja império) já não se identificariam como classe, mas como grupos que defendem interesses específicos (gênero, raça, opção sexual, sujeitos de direitos difusos etc.), e que ganham força a partir do momento em que adquirem visibilidade social. Para tanto, podem e devem se valer das novas tecnologias de comunicação e produção de bens simbólicos e culturais. A “antiga” e “superada” luta de classes passaria a ser travada nos circuitos midiáticos, em que mesmo os protestos de rua viram espetáculo e “performance”. A “vanguarda”, agora, seria formada pelos “gestores culturais”, justamente os mais capacitados a articular os esquemas destinados a dar visibilidade a determinados eventos e grupos (e a captação de recursos e patrocínios, obviamente, ganha um papel estratégico e, como tal, regiamente remunerado nesse processo).

No Brasil, especificamente, a política “pós-rancor” ganhou um impulso formidável em 2002, com a campanha do “Lulinha paz e amor”. O sindicalista barbudo foi substituído por um senhor moderado e sorridente, trajando terno e gravata e jurando respeito ao capital, mediante o compromisso firmado pela Carta ao Povo Brasileiro. Com a servil capitulação ideológica petista, a avenida para o “vale tudo” estava escancarada.

No admirável novo mundo do lulismo, tornou-se particularmente emblemática a história do grupo Fora do Eixo (FDE), mencionada por Youssef como um exemplo fulgurante de como se faz política nos novos tempos. O FDE foi criado em 2005, pelo publicitário cuiabano Pablo Santiago Capilé, como um “coletivo de gestores da produção cultural”, inicialmente com polos em Cuiabá, Rio Branco, Uberlândia e Londrina (portanto, fora do eixo tradicional formado por São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília). Com a proposta de revelar novos valores culturais “independentes”, e adotando o modelo organizativo baseado na formação de “coletivos” (núcleos orgânicos sem patrões nem empregados), o FDE conseguiu o apoio do programa Cultura Viva do Ministério da Cultura, durante a gestão de Gilberto Gil e depois sob Jucá Ferreira. Ao mesmo tempo, trabalhou com o patrocínio de empresas e grupos privados vinculados aos circuitos cultural e digital, espelhando-se na experiência de grupos semelhantes, como o Creative Commons estadunidense.

Como resultado, hoje, segundo os dados da própria organização, o FDE é uma próspera empresa de gestão cultural que agrega 57 coletivos em todo o país, com capacidade para realizar 5 mil shows em 112 cidades. Teoricamente, os “gestores” não são assalariados, mas, claro, recebem pelo seu trabalho, o que transforma a participação nos “coletivos” em meio de vida (os “coletivos” adotam moedas próprias e normas internas de distribuição de recursos). A retórica dos “gestores” é, aparentemente, combativa, com alguns vernizes de rebeldia: evoca o estímulo à arte independente, o direito de usar drogas, a luta contra o racismo e todo tipo de discriminação etc etc etc. Seu “público alvo”, portanto, são os milhões que formam o “precariado”. Coerente com tal retórica, o FDE, em contato com outros grupos assemelhados, participa da organização de atos e manifestações, mas tudo devidamente “enquadrado” e delimitado pela conveniência política.

Um exemplo foi a sua atuação na organização da “Marcha da Liberdade”, realizada no dia 28 de maio, em protesto contra a repressão feroz que se abatera sobre a “Marcha da Maconha”, no começo do mês. Capilé, um dos organizadores, agora nega, mas durante a reunião que preparou o ato de 28 de maio mencionou a possibilidade de patrocínio da Coca-Cola à marcha, sem necessariamente ter que expor a marca (a empresa estaria apenas cultivando “boas relações” com os ativistas). A proposta foi vetada pelo coletivo Desentorpecendo a Razão (DAR) e Movimento Passe Livre, segundo relatos divulgados pelo coletivo Passa Palavra. Além disso, o FDE e grupos congêneres posicionaram-se contra a proposta de incluir, como pauta da marcha, a reivindicação de proibir aos policiais o uso de armas de fogo para reprimir manifestações. Não haveria mesmo razão para uma proposta tão rancorosa: liberdade é apenas uma calça velha, azul e desbotada, certo?

A experiência do FDE é o próprio retrato do lulismo: combina a mais pérfida prática reacionária com um discurso aparentemente “libertário”. Suas ações são motivadas por interesses pecuniários próprios, mas apresentadas como se fossem gestos de altruísmo. Na lógica mercantista tão bem apresentada por Yousseff, mesmo as manifestações são transformadas em happenings e oportunidades de bons negócios com patrocinadores interessados em vender uma imagem dinâmica e “progressista”. As “antigas” e “rancorosas” reivindicações dos trabalhadores e jovens pelo acesso real e material ao mundo da cultura e das artes são açambarcadas, administradas e domesticadas por um vasto empreendimento, que envolve fundos públicos, patrocínios de corporações e de empresas privadas e “gestores culturais” que se encarregam de encontrar os artistas e promover os eventos. Finalmente, a técnica da “gestão cultural” é transportada para o ativismo militante e justificada com um discurso “pós-rancoroso”, o mais adequado ao mundo das reivindicações “pós-materiais”. O FDE e congêneres constituem a expressão mista do movimento “cansei”.

Se existe algo de real nas alegações dos “pós-rancorosos”, incluindo os “lulinhas paz e amor”, é a afirmação de que a batalha ideológica travada nos “circuitos culturais” adquiriu importância muito maior e central do que à época de Karl Marx. Isso é óbvio, já que as tecnologias de comunicação experimentaram um desenvolvimento vertiginoso no século 20. E, além disso, a humanidade sofreu as experiências de gênios do mau da comunicação, como é o conhecido caso de Joseph Goebbels, cujas técnicas de propaganda passaram a ser adotadas e aprimoradas por Hollywood e outros centros produtivos da indústria cultural (outro conceito “rancoroso” e ultrapassado, aliás).

Mas nada disso autoriza a afirmação de que o proletariado foi dissolvido no “precariado” e que desapareceu a luta de classes, agora substituída por uma difusa batalha cultural, se tanto. A extração da mais valia continua sendo o “segredo” do capital, e o imperativo do crescimento da taxa de lucro a sua lei compulsória. Isto é, não há reprodução do capital sem a exploração cada vez maior do trabalho humano livre. Mudaram os parâmetros que condicionam a luta de classes, as circunstâncias culturais e ideológicas em que ela se desenvolve, assim como as formas de articulação entre as várias classes exploradas e oprimidas. Mas nenhum “circuito cultural” aboliu as classes, que não podem ser sociologicamente quantificadas (classes não constituem um mero dado estatístico), mas que dão o ar da graça em momentos de crise e de ameaças às conquistas sociais, como demonstram a revolução árabe e a Zona do Euro.

Bastaram duas semanas de mobilizações em Barcelona e Madri para desarticular três décadas de retórica conciliadora de Luiz Zapatero e companhia. Os “precariados” do Oriente Médio, Norte da África e Zona da Euro mostram que não é nos circuitos digitais que se trava a guerra contra o capital, mas nas ruas. Nas barricadas. Estas sim, são as mesmas que se erguiam nos tempos de Marx, assim como é o mesmo rancor que se expressa nas palavras de ordem contra a miséria e os gestores do neoliberalismo.

Nenhum liquidificador abolirá a luta de classes.

José Arbex Jr. é jornalista.

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