[Vídeo] Hitler e o Fora do Eixo

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Lulismo fora do eixo – Caros Amigos

Retirado de: Revista Caros Amigos, ano XV, nº 173/2011, p. 8

Por José Arbex Jr.

“Imaginem um liquidificador em que se possa colocar as ramificações da esquerda, com estratégias e lógicas de mercado das agências de publicidade, misturando rock, rap, artes visuais, teatro, um bando de sonhadores e outro de pragmáticos, o artista, o produtor, o empresário e o público. Tudo junto e misturado. O caldo dessa batida é uma nova tecnologia de participação e engajamento que funciona de forma exemplar para a circulação e produção musical, mas que, acima de tudo, é um grande projeto de formação política. O Fora do Eixo cria, portanto, uma geração que se utiliza sem a menor preocupação ideológica de aspectos positivos da organização dos movimentos de esquerda e de ações de marketing típicas dos liberais. E, como disse o teórico da contracultura Cláudio Prado, a construção da geração pós-rancor, que não fica presa a questões filosóficas e mergulha radicalmente na utilização da cultura digital para fazer o que tem que ser feito.”

O fantástico liquidificador das ideologias é assim descrito por Alexandre Youssef, articulista da revista Trip (de onde foi extraído o trecho acima citado, publicado em 12 de maio de 2011), membro do Partido Verde e coordenador do setor de Juventude durante a gestão de Marta Suplicy na prefeitura de São Paulo. Ele tem o mérito indiscutível da franqueza. Não é todo dia que alguém reúne graça e entusiasmo para cantar as virtudes de um “projeto de formação política” que combina, sem qualquer pudor ideológico, métodos organizativos da esquerda com “ações de marketing típicas dos liberais”. Claro: tudo isso é feito sem rancor, sentimento ultrapassado e cultivado pelas pessoas que teimam em se prender a “questões filosóficas” antigas, incapazes de perceber que a cultura digital mudou o mundo. Afinal, não foi o Facebook que provocou a revolução árabe?

Não. Não foi a mais moderna tecnologia que provocou a revolução árabe, mas os mais arcaicos entre os problemas enfrentados pela humanidade: a fome e a pobreza. A imensa maioria dos árabes nunca teve acesso à Internet, ao Facebook e a nada que se pareça com “cultura digital”. Nem teve acesso a mesas fartas e empregos dignos. Seria melan-cômico presenciar o resultado de uma preleção contra o rancor endereçada aos milhões de manifestantes que, colocando em risco as próprias vidas, foram às ruas para derrubar ditadores em algumas das principais capitais árabes. Em contrapartida, os soldados e oficiais da Otan que, historicamente, lançaram e ainda lançam milhares de toneladas de bombas sobre uma população civil indefesa, esses não agem movidos pelo rancor, mas subordinados a frios interesses geopolíticos, e estão perfeitamente integrados à “cultura digital”. Os seus brinquedinhos de guerra são produtos da tecnologia de ponta, e incluem robôs e bombardeiros não pilotados. Tudo muito avançado.

O texto de Youssef não teria a menor importância, se ele não fosse expressão de um processo em curso, no Brasil e em todo o planeta, de cooptação de amplos setores da juventude e da esquerda para políticas de conciliação e abandono da guerra ao capital. Toda essa conversa de “superação do rancor” está a serviço de uma ideologia (embora, obviamente, Youssef afirme o contrário) segundo a qual já não é mais possível falar em luta de classes. Os grandes cenários de embates, agora, são os circuitos culturais, não mais o chão de fábrica, o campo e as praças públicas. Ou melhor: todos servem de palco para a grande guerra simbólica.

E como isso aconteceu? É simples. O capitalismo pós-fordista, desenvolvido no pós-guerra, teria superado a divisão entre trabalho intelectual e manual, para integrar funcionários cada vez mais qualificados a funções que combinam gerência e produção. Além do mais, o vasto acesso ao ensino superior, franqueado às populações de baixa renda, teria mudado radicalmente o perfil da força de trabalho, em particular nos países de capitalismo mais desenvolvido. Essas transformações teriam sido fundamentais para a “culturalização” das classes médias urbanas, para o surgimento da contracultura (incluindo o movimento hippie, entre outros) e de novas demandas, que não se limitam mais a emprego, salário e conquistas sociais. Do ponto de vista dos novos “setores urbanos médios”, nas palavras do ativista Pablo Ortellado, “as demandas são crescentemente ‘pós-materiais’ para usar um jargão sociológico.”

Desgraçadamente, as manifestações de centenas de milhares de jovens e trabalhadores desempregados na Grécia, Portugal, Espanha e, mais recentemente, Itália mostram que as reivindicações são bastante “materiais”. Assim como são “materiais” as demandas de trabalhadores franceses, que não aceitam os contínuos ataques promovidos pelo capital às suas conquistas históricas ou as de alguns setores do movimento sindical estadunidense, que começa a dar crescentes sinais de vida. E mais “materiais” ainda as necessidades de cerca de l bilhão de seres humanos famintos (segundo dados da própria ONU) e outro tanto de subnutridos. Alguém teria que avisá-los de que eles poderiam saciar a própria fome a carência de nutrientes virtualmente. É fantástico o show da vida.

POLÍTICA “PÓS-RANCOR”

Para outros advogados da política “pós-rancor”, o proletariado teria sido substituído pelo “precariado”, uma massa difusa, formada pelos milhões de trabalhadores e jovens que habitam as imensas favelas e bairros da periferia. Tais “multidões” (para usar um conceito proposto pelo italiano Toni Negri, segundo quem não existe mais imperialismo, embora haja império) já não se identificariam como classe, mas como grupos que defendem interesses específicos (gênero, raça, opção sexual, sujeitos de direitos difusos etc.), e que ganham força a partir do momento em que adquirem visibilidade social. Para tanto, podem e devem se valer das novas tecnologias de comunicação e produção de bens simbólicos e culturais. A “antiga” e “superada” luta de classes passaria a ser travada nos circuitos midiáticos, em que mesmo os protestos de rua viram espetáculo e “performance”. A “vanguarda”, agora, seria formada pelos “gestores culturais”, justamente os mais capacitados a articular os esquemas destinados a dar visibilidade a determinados eventos e grupos (e a captação de recursos e patrocínios, obviamente, ganha um papel estratégico e, como tal, regiamente remunerado nesse processo).

No Brasil, especificamente, a política “pós-rancor” ganhou um impulso formidável em 2002, com a campanha do “Lulinha paz e amor”. O sindicalista barbudo foi substituído por um senhor moderado e sorridente, trajando terno e gravata e jurando respeito ao capital, mediante o compromisso firmado pela Carta ao Povo Brasileiro. Com a servil capitulação ideológica petista, a avenida para o “vale tudo” estava escancarada.

No admirável novo mundo do lulismo, tornou-se particularmente emblemática a história do grupo Fora do Eixo (FDE), mencionada por Youssef como um exemplo fulgurante de como se faz política nos novos tempos. O FDE foi criado em 2005, pelo publicitário cuiabano Pablo Santiago Capilé, como um “coletivo de gestores da produção cultural”, inicialmente com polos em Cuiabá, Rio Branco, Uberlândia e Londrina (portanto, fora do eixo tradicional formado por São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília). Com a proposta de revelar novos valores culturais “independentes”, e adotando o modelo organizativo baseado na formação de “coletivos” (núcleos orgânicos sem patrões nem empregados), o FDE conseguiu o apoio do programa Cultura Viva do Ministério da Cultura, durante a gestão de Gilberto Gil e depois sob Jucá Ferreira. Ao mesmo tempo, trabalhou com o patrocínio de empresas e grupos privados vinculados aos circuitos cultural e digital, espelhando-se na experiência de grupos semelhantes, como o Creative Commons estadunidense.

Como resultado, hoje, segundo os dados da própria organização, o FDE é uma próspera empresa de gestão cultural que agrega 57 coletivos em todo o país, com capacidade para realizar 5 mil shows em 112 cidades. Teoricamente, os “gestores” não são assalariados, mas, claro, recebem pelo seu trabalho, o que transforma a participação nos “coletivos” em meio de vida (os “coletivos” adotam moedas próprias e normas internas de distribuição de recursos). A retórica dos “gestores” é, aparentemente, combativa, com alguns vernizes de rebeldia: evoca o estímulo à arte independente, o direito de usar drogas, a luta contra o racismo e todo tipo de discriminação etc etc etc. Seu “público alvo”, portanto, são os milhões que formam o “precariado”. Coerente com tal retórica, o FDE, em contato com outros grupos assemelhados, participa da organização de atos e manifestações, mas tudo devidamente “enquadrado” e delimitado pela conveniência política.

Um exemplo foi a sua atuação na organização da “Marcha da Liberdade”, realizada no dia 28 de maio, em protesto contra a repressão feroz que se abatera sobre a “Marcha da Maconha”, no começo do mês. Capilé, um dos organizadores, agora nega, mas durante a reunião que preparou o ato de 28 de maio mencionou a possibilidade de patrocínio da Coca-Cola à marcha, sem necessariamente ter que expor a marca (a empresa estaria apenas cultivando “boas relações” com os ativistas). A proposta foi vetada pelo coletivo Desentorpecendo a Razão (DAR) e Movimento Passe Livre, segundo relatos divulgados pelo coletivo Passa Palavra. Além disso, o FDE e grupos congêneres posicionaram-se contra a proposta de incluir, como pauta da marcha, a reivindicação de proibir aos policiais o uso de armas de fogo para reprimir manifestações. Não haveria mesmo razão para uma proposta tão rancorosa: liberdade é apenas uma calça velha, azul e desbotada, certo?

A experiência do FDE é o próprio retrato do lulismo: combina a mais pérfida prática reacionária com um discurso aparentemente “libertário”. Suas ações são motivadas por interesses pecuniários próprios, mas apresentadas como se fossem gestos de altruísmo. Na lógica mercantista tão bem apresentada por Yousseff, mesmo as manifestações são transformadas em happenings e oportunidades de bons negócios com patrocinadores interessados em vender uma imagem dinâmica e “progressista”. As “antigas” e “rancorosas” reivindicações dos trabalhadores e jovens pelo acesso real e material ao mundo da cultura e das artes são açambarcadas, administradas e domesticadas por um vasto empreendimento, que envolve fundos públicos, patrocínios de corporações e de empresas privadas e “gestores culturais” que se encarregam de encontrar os artistas e promover os eventos. Finalmente, a técnica da “gestão cultural” é transportada para o ativismo militante e justificada com um discurso “pós-rancoroso”, o mais adequado ao mundo das reivindicações “pós-materiais”. O FDE e congêneres constituem a expressão mista do movimento “cansei”.

Se existe algo de real nas alegações dos “pós-rancorosos”, incluindo os “lulinhas paz e amor”, é a afirmação de que a batalha ideológica travada nos “circuitos culturais” adquiriu importância muito maior e central do que à época de Karl Marx. Isso é óbvio, já que as tecnologias de comunicação experimentaram um desenvolvimento vertiginoso no século 20. E, além disso, a humanidade sofreu as experiências de gênios do mau da comunicação, como é o conhecido caso de Joseph Goebbels, cujas técnicas de propaganda passaram a ser adotadas e aprimoradas por Hollywood e outros centros produtivos da indústria cultural (outro conceito “rancoroso” e ultrapassado, aliás).

Mas nada disso autoriza a afirmação de que o proletariado foi dissolvido no “precariado” e que desapareceu a luta de classes, agora substituída por uma difusa batalha cultural, se tanto. A extração da mais valia continua sendo o “segredo” do capital, e o imperativo do crescimento da taxa de lucro a sua lei compulsória. Isto é, não há reprodução do capital sem a exploração cada vez maior do trabalho humano livre. Mudaram os parâmetros que condicionam a luta de classes, as circunstâncias culturais e ideológicas em que ela se desenvolve, assim como as formas de articulação entre as várias classes exploradas e oprimidas. Mas nenhum “circuito cultural” aboliu as classes, que não podem ser sociologicamente quantificadas (classes não constituem um mero dado estatístico), mas que dão o ar da graça em momentos de crise e de ameaças às conquistas sociais, como demonstram a revolução árabe e a Zona do Euro.

Bastaram duas semanas de mobilizações em Barcelona e Madri para desarticular três décadas de retórica conciliadora de Luiz Zapatero e companhia. Os “precariados” do Oriente Médio, Norte da África e Zona da Euro mostram que não é nos circuitos digitais que se trava a guerra contra o capital, mas nas ruas. Nas barricadas. Estas sim, são as mesmas que se erguiam nos tempos de Marx, assim como é o mesmo rancor que se expressa nas palavras de ordem contra a miséria e os gestores do neoliberalismo.

Nenhum liquidificador abolirá a luta de classes.

José Arbex Jr. é jornalista.

Domingo na Marcha (5ª parte)

Retirado de http://passapalavra.info/?p=42544

15 de Julho de 2011

O trabalho na área cultural é estruturalmente instável e, por esta razão, o trabalhador é forçado a aceitar e não rejeitar projetos e condições de trabalho que profissionalmente não o satisfazem. Por Passa Palavra

Apertando os pontos da cadeia produtiva

Durante a gestão de Gilberto Gil e Juca Ferreira, no Ministério da Cultura, iniciou-se a fomentação de uma cadeia produtiva de uma indústria cultural nacional através do Programa Cultura Viva. Se num primeiro momento nos debruçamos no discurso oficial, nesta parte analisamos dados da pesquisa “Cultura Viva – avaliação do programa arte, educação e cidadania” (2009), realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).

mapapontosUma pequena nota metodológica. A pesquisa foi feita numa parceria com a Fundação Joaquim Nabuco (FUNDAJ), que fez a pesquisa de campo com 229 pontos nas regiões Norte e no Nordeste, enquanto o IPEA entrevistou 297 pontos nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. No total, o universo da pesquisa de campo foi de 526 pontos, que possuíam diferentes níveis: 457 pontos de cultura, 36 pontões conveniados ao Ministério da Cultura, 33 pontos de cultura ligados à rede municipal ou estadual.

Em 2009, o Ministério da Cultura apoiou 2.517 pontos e capacitou 7.407 agentes culturais, totalizando o gasto de R$ 119,6 milhões [1]. Segundo a pesquisa, os pontos foram precedidos anteriormente por associações (55%), grupos artísticos (14%), atividades comunitárias (8%) e por pessoas (5%). Os órgãos públicos também aparecem e representam 2,8% dos pontos. As atividades dos pontos de cultura destacam-se nas áreas de música (68%), manifestações populares (61%), audiovisual (58%), teatro (54%), literatura (52%) e artesanato (48%).

Sobre a origem dessas instituições, 28% delas foram criadas entre 1930 e 1980, 35% na década de 1990 e, nos anos 2000, 37%. A situação dos imóveis onde funcionam os pontos revela que 25% são alugados, 20% têm donos, 22% são cedidos por órgão público, 8% resultam de parceria com ONGs, 7% são espaços de instituição de educação básica, 7% são instituições de classe (sindicatos), 4% são cedidos por pessoas físicas e 3% são associados a instituições privadas.

As condições da instalação do ponto foram avaliadas pelo IPEA com a necessidade de “dotar os espaços de recursos com nível de qualidade aceitável em termos genéricos, a partir de padrões mínimos discutidos. Não se trata de ‘burocratizar’ o programa, e sim de criar parâmetros que permitam estabelecer dispêndios aceitáveis em termos de investimentos.”

O programa também foi responsável em iniciar as atividades e na fomentação de novas iniciativas culturais. Levando em conta o universo da pesquisa, em São Paulo, 15 pontos (23%) não realizavam atividades antes do Cultura Viva, em Minas Gerais, 21%, e no Rio de Janeiro, 15%.

A idade média dos coordenadores dos pontos ultrapassa os 40 anos, sendo apenas 21% jovens, e 76% possuem curso superior ou superior incompleto; apenas 17% possuem ensino médio. Ainda sobre a formação destes gestores culturais, 74% disseram ter capacitação na área. No entanto, essa formação incluía desde encontros e reuniões até mestrados. É interessante notar que 89% dos coordenadores ou gestores dos pontos moram no próprio local, sendo esta uma forma de abater o aluguel das contas pessoais.

Os pontos possuem em média 10 trabalhadores, sendo 60% remunerados e 40% voluntários. Na maioria dos pontos (85%) utiliza-se trabalho temporário de terceiros, como o de educadores em 55% dos pontos, serviços de contabilidade em 35%, suporte técnico em 33%, serviços gerais em 22%, consultoria jurídica em 19%, assessoria de imprensa (comunicação e divulgação) em 19% e apoio psicopedagógico em 11%.

O público atendido diretamente pelas atividades dos Pontos de Cultura foi de 124 mil pessoas, sendo 70% de público local. Indiretamente, o público atingido sobe para 1,2 milhão de pessoas. Para os coordenadores, grande parte do público encontrava-se em condição de vulnerabilidade social.

pontos-de-culturaNa dimensão econômica, os pontos dependem do recurso do Ministério da Cultura e, segundo a pesquisa, nenhum deles acessou crédito ou empréstimos de instituições financeiras. Mais da metade dos pontos afirmou que obtinha receitas com venda de artesanato, o resto vendia DVDs ou obtinha receitas através de apresentações musicais. E quando os pontos se articulam com outras instituições, 43% deles tornam-se parceiros de instituições privadas. Segundo o IPEA, isso “reflete suas possibilidades de adquirir autonomia em relação aos recursos de fundo perdido, advindos do ministério”. Diante dos atrasos nos repasses de recursos – apontado como a principal reclamação pela maioria dos coordenadores –, além da dificuldade no pagamento das despesas, os pontos atrasam suas atividades e o público evade, prejudicando a manutenção da programação [2]. Uma crítica recorrente dos coordenadores é à burocracia e nos atrasos do repasse dos pagamentos.

Em síntese, o programa Cultura Viva, determinado pelas ações e formulações da gestão do Ministério da Cultura de Gil e Juca Ferreira, estimulou a criação de uma cadeia produtiva a partir de agentes culturais previamente existentes, injetando recursos para “oxigenar” a produção cultural local. É a transformação do tecido cultural em chão de fábrica, sendo fundamental nesta fase inicial a utilização de subsídios. Segundo a pesquisa do IPEA trata-se de explorar e aprofundar “a capacidade de geração de renda pela própria atividade desenvolvida nos pontos de cultura, mediante remuneração da atividade realizada ou comercialização dos produtos e produções culturais”. Consolida-se e adota-se o discurso de incentivar a busca por outras fontes de recursos como, por exemplo, os novos modelos de negócios, representando assim a transformação da lógica das associações culturais em empresas culturais [3].

Por outro lado, a precariedade do trabalho nesta rede é vista em vários aspectos como a formação difusa dos agentes culturais, a mudança de prazos no repasse dos recursos, a subcontratação de oficineiros, os contratos temporários, a terceirização dos serviços, a ausência de direitos trabalhistas e a utilização de voluntários para cobrir as atividades. Trata-se de um programa de estímulo ao trabalho cultural; uma política pública de cultura que transformou diferentes agentes culturais em profissionais precários, sendo assim um programa de prospecção e profissionalização de iniciativas culturais. A precarização está ainda presente no discurso quando se aplica o termo de “sevirismo”, isto é, da população periférica estar acostumada a “se virar”, sendo esta mentalidade acolhida não como uma denúncia, mas como uma política de Estado.

A quantidade de atendidos e beneficiários no Cultura Viva deve-se à repartição dos recursos. Fez-se muito com pouco. É semelhante à mágica operada pelo Programa Bolsa Família, no qual, com um custo que jamais ultrapassou 1% do PIB, se atingiu 12,7 milhões de beneficiários.

Empreendedores culturais, o ativista dos negócios & o novo espírito do capitalismo

No Brasil e no mundo, nas últimas duas décadas o capitalismo, em sua versão neoliberal, impactou todas as esferas da vida social e, atualmente, passou a prospectar nichos exploráveis economicamente. No âmbito da política cultural testemunha-se essa herança através dos mecanismos de renúncia fiscal – como a Lei Rouanet [4] –, mas também na produção cultural esse percurso é trilhado dentro da “economia criativa”, enquanto uma tendência de um novo modelo de gestão do trabalho, na qual os empreendedores – sejam eles culturais, criativos ou sociais –, passam a ser elementos fundamentais para o crescimento econômico. Um impacto tardio do neoliberalismo, mas com um poder de capilaridade que se coloca diante dos movimentos sociais.

dartistA origem do tipo ideal de “empreendedor cultural” deriva da teorização da indústria cultural para as indústrias criativas. As indústrias criativas abrangem todo o trabalho que desfruta da criatividade, talento ou habilidade individual, o qual se vincula com a propriedade intelectual. Essa indústria é composta pela publicidade, marketing, design, moda, audiovisual, programação, games, etc. Incluem-se assim setores produtivos emergentes. Diversos autores e políticos superestimam a capacidade dessa indústria de serviços da cultura colocando-a como substituta da “indústria pesada”. Trata-se de uma adaptação do discurso de prosperidade econômica tendo em vista a realidade, a qual revela um processo de desindustrialização das economias centrais, e, assim, o crescimento econômico da “sociedade do conhecimento” e dos seus derivados teóricos (“Era da informação”, “pós-fordismo”, “Sociedade em rede”, etc.) dependeria agora cada vez mais dos serviços.

No Brasil, conforme descrito na 4ª parte desta série, destacamos o esforço do governo nas gestões de Gilberto Gil e Juca Ferreira em modernizar a política pública cultural para prospectar e fomentar as iniciativas de uma indústria criativa com a diferença referente à flexibilização da propriedade intelectual, mas que não chegou a concretizar um caminho dentro dos novos modelos de negócios.

O termo empreendedor, restrito em seu aspecto econômico, como o de agente inovador, foi conceituado pelo economista austríaco Joseph Schumpeter. Em sua teoria econômica, o empreendedor passa a ter a função de romper as crises cíclicas de estagnação econômica através da inovação. Torna-se assim uma peça chave para o desenvolvimento econômico: “A função de um empreendedor consiste em reformar ou revolucionar o sistema de produção” (1983:181), seja através de uma nova mercadoria, abertura de um novo mercado, nova fonte de fornecimento de matérias-primas e bens ou através de um método novo de organização da indústria.

workaholic-ladder3Nesta concepção, ser proprietário de uma empresa não significa necessariamente ser um empreendedor. Nem todo mundo pode ser um empreendedor, observou Schumpeter, mas apenas uma fração da população poderá sê-lo, pois “não consiste, essencialmente, em inventar algo nem em criar de outro modo as condições que a empresa explora. Consiste em obter êxitos” (1983:181). O empreendedor assume então um papel de ator econômico para o desenvolvimento, cujas tarefas exigem certas características como a de ser “valente”, “corajoso”, “independente”, isto é, ser alguém que não teme os riscos. Mas, ao contrário do que possa parecer, “a interpretação econômica da história não significa que os homens atuam, conscientes ou inconscientes, total ou primordialmente, por motivos econômicos. Pelo contrário, um elemento essencial da teoria e uma de suas mais importantes contribuições está na explicação do papel e da influência dos motivos não econômicos e na análise do modo em que a realidade social se reflete nas psiques individuais.”

Para o empreendedor agir, Schumpeter afirma que não é necessário capital acumulado, mas sim crédito: “diferentemente do referido, não pressupõe a existência de resultados acumulados do desenvolvimento anterior, e por isso pode ser considerado como o único disponível dentro de uma lógica estrita. Esse método de obter dinheiro é a criação de poder de compra pelos bancos […]. É sempre uma questão, não de transformar o poder de compra que já existe em propriedade de alguém, mas a criação de novo poder de compra a partir do nada” (Schumpeter, 1911, p. 53).

Na dimensão do ethos, o autor do best-seller O livro negro do empreendedor (2009), Fernando Trías de Bes, afirma que “empreender é uma forma de se enfrentar o mundo, é uma maneira de entender a vida como a que não todo o mundo se sente confortável.”. O empreendedor que acredita estar neste papel para ser livre, isto é, ele próprio determinar as regras do jogo, é um falso empreendedor, pois “O empreendedor poderia tirar qualquer dia livre. Poderia tirar dias de férias de vez em quando. Mas nunca o faz. O fato de saber que poderia fazer já passa certa sensação de controle e domínio sobre a própria vida, mas a verdade é que o verdadeiro empreendedor geralmente chega à conclusão de que no dia lhe faltam horas para trabalhar”. Desta forma, “um dos motivos mais lamentáveis para empreender que se dão com maior frequência é a busca de um equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional”. Assim, o verdadeiro empreendedor não divide sua vida com os negócios, a sua vida é os negócios. Uma visão instrumental que reflete exatamente o homo economicus do pensamento liberal e neoliberal, no qual o sujeito busca maximizar seus benefícios através de opções racionais dentro do mundo convertido em mercado.

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Há também, dentro do imaginário social, o tipo ideal dos empreendedores tecnológicos, os quais frequentemente são retratados como cientistas que investem em experimentos em sua própria garagem e, atualmente, estariam encarnados nos jovens geeks que se transformam nos novos mandarins do capitalismo global, com suas empresas de serviços online. Bastaria basicamente uma excepcional idéia na cabeça e trabalho árduo, mas há quem coloque outros ingredientes na receita para o sucesso: a ideologia da pequena e próspera empresa, gerida pelo empreendedor genial elevado ao patamar máximo da civilização como um herói espartano do reino dos negócios, convertida em modelo a ser seguido. Trata-se exatamente do tipo ideal do empresário schumpeteriano.

A transposição do empreendedorismo para a área cultural é assumida no cenário brasileiro através de um processo orientado pela valorização da cultura em seu aspecto econômico e como parte de “integração cidadã”, em que caberia dar acesso ao mercado de consumo das artes; um processo muito semelhante ao que ocorre com o Programa Bolsa Família e esta integração social pelo consumo. No livro Emprendizajes en cultura (2010), o autor e consultor Jaron Rowan descreve a passagem exata do discurso de subsídio para a cultura como recurso, uma lógica na Espanha que foi sendo paulatinamente implementada por um processo de introdução da economia na cultura, como afirmou a subsecretaria do Ministério da Cultura do país: “Nunca mais cultura versus economia. A partir de agora a cultura de mãos dadas com a economia”. Essa é mesma visão do gestor cultural do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) – Goiás, Décio Coutinho, “[…] a cultura pode trabalhar junto com a economia, agregando valor cultural a um produto não-cultural […]”, mas, na sua opinião, “ainda não há um entendimento dentro do próprio Ministério da Cultura, do governo do Brasil e dos governos estaduais e municipais, da indústria criativa, dos territórios criativos, das cidades criativas, como eixo central de desenvolvimento.”

Para Coutinho, “O empreendedorismo não está ligado só ao lado empresarial, do lucro financeiro, pode ser também social, ligado a ONGs, a empresas, a associações, a cooperativas, a coletivos” e deve ser entendido como “uma atitude de transformação positiva, de comportamento, de ousadia, de criatividade e de inovação. O empreendedorismo cultural é gente trazendo para a cultura esse tipo de atitude”, citando como exemplo “O modelo do Fora do Eixo é uma rede de referência, a Abrafin também […].”, uma vez que “A gente participou da criação da Associação Brasileira de Festivais Independentes (Abrafin). Estive também no dia da fundação do Sistema Fora do Eixo, que hoje é um dos coletivos mais interessantes do país. […] O desafio é conseguir fazer o encontro dessas pessoas, e fazer com que elas se engajem”. Do individual para o coletivo, o empreendedor schumpeteriano adapta-se a uma nova realidade.

Milton Friedman

Hoje, a disputa latente na indústria criativa é de saber se a extração de renda deve ser através da propriedade intelectual ou através das licenças abertas – como a Creative Commons e o open business (novos modelos de negócios). Ainda dentro desta última posição, oscila-se entre a adoção dos novos modelos de negócios pelos oligopólios das transnacionais da cultura e a abertura de portas para o reino dourado da economia social, da constituição de microempresas e trabalhadores autônomos. Neste caso, criar-se-ia um “ecossistema” de microempresas de “produtores independentes”, compostas por poucos trabalhadores, mas que unidas operariam como clusters, isto é, fornecedores de trabalho qualificado e fundamentalmente criativo para o mercado. Uma solução não diferente daquela proposta por Milton Friedman, para quem as pequenas unidades independentes sem acumulação oligopolística implicariam na formação de um livre mercado.

O trabalho na área cultural é estruturalmente instável e, por esta razão, o trabalhador é forçado a aceitar e não rejeitar projetos e condições de trabalho que profissionalmente não o satisfazem; a necessidade econômica muitas vezes não lhe dá outra opção. Neste ponto é que se revela a outra face da moeda, de um lado, a autonomia e uma suposta autogestão e, de outro, a dependência e a auto-exploração.

A disseminação de “coletivos culturais” com “projetos coletivos” que buscam “sustentabilidade” para atuar em “redes” de forma “orgânica” é a peça chave dos mecanismos de estruturação desta cadeia produtiva da economia criativa, mas não só, pois implica uma nova ética, um novo espírito do capitalismo. Para Coutinho, a “horizontalização da dinâmica cultural” traz “pavor” para as empresas tradicionais “fechadas, quadradas, brancas e elitistas”, as quais “tendem a sofrer muito com esse processo”, mas que “Com o tempo, elas não resistem. Ou mudam, ou mudam.”

A maior parte dos empreendedores culturais não o é por optar pela receita da ideologia liberal, mas sim por um resultado da reestruturação produtiva decorrente das lutas dos anos 60 e 70. Uma nova ética que restabelece os vínculos entre trabalhadores e empresa, abalados ao final do fordismo. As empresas passaram a sustentar a participação dos trabalhadores, o modelo toyotista, e, para falar em capital nacional, a Odebrecht mostra esse estímulo em sua dinâmica interna.

precariA horizontalização da produção não implica na autogestão da mesma, pelo contrário, é possível manter uma classe gestorial e dirigente do processo. Ainda que se liquidem as divisões internas, a competição no mercado capitalista irá impor o conflito entre trabalhadores de uma empresa contra outra. Na Bolívia os conflitos entre cooperativas de mineiros financiados por uma e outra empresa não são incomuns.

Neste modelo, a precarização torna-se a regra e o trabalhador é cercado pela incerteza, insegurança e, principalmente, a iminência do desemprego. A flexibilização das relações de trabalho atomiza o trabalhador, o qual passa a ser “empresário de si”, precisando constantemente investir em sua própria formação, colocando assim o capital humano no centro dos recursos da produção. Muitos destes “coletivos”, cujas funções revelam as aptidões e os talentos dos trabalhadores, reinventam um novo espírito do capitalismo, o qual incentiva a entrega total para o trabalho como realização pessoal, de ser feliz – ou pós-rancor – e, principalmente, de ser criativo. Uma época em que a criatividade é um mandamento moral.

Os iludidos e as ilusões

Afinal de contas, como é possível que um número tão grande de pessoas, inteligentes como as pessoas no geral são, se tivesse deixado iludir e mobilizar num enquadramento que tinha como finalidade exclusiva capitalizar a sua mobilização, no sentido literal da palavra — transformá-la em capital. Não se trata aqui de uma questão de idéias ou de linhas políticas com que estejamos ou possamos estar em desacordo. Com quaisquer idéias e quaisquer políticas, as pessoas não gostam de ser tomadas pelo que não são e de serem usadas para outros fins.

jobparceria

Por Arnaldo Branco

Como é possível que pessoas instruídas e experientes citem Foucault e Deleuze e Negri e outros tantos a propósito de um negócio? É certo que os citam a propósito de tudo, mas ainda assim…

É que em geral na vida, tanto na vida privada como na política, nós não somos enganados. Deixamo-nos enganar. O vigarista, o burlão, o mero mentiroso enganam-nos porque dizem algo em que nós queremos acreditar. Neste caso dizem a intelectuais e a profissionais das novas tecnologias eletrônicas:
– que basta a cabeça e já não são necessárias as mãos, quando muito as pontinhas dos dedos no teclado;
– que a realidade supletiva do virtual cobriu a outra a tal ponto que ela já não existe;
– que é possível brincar com o fogo e usar empresas de negócios para fins políticos sem ser usado por elas para finalidades empresariais.

O Fora do Eixo conseguiu capitalizar as Marchas — aquelas que hegemonizou — porque atuou num ambiente envolvido numa espessa teia de ilusões. O Fora do Eixo de pouco ou nada nos importa enquanto empresa singular, e esperamos que neste ponto os leitores já nos tenham compreendido. O problema é que se não for o Fora do Eixo, continuando os iludidos a iludir-se, outra empresa aparecerá para capitalizar e rentabilizar os movimentos.

Foi por termos rompido as ilusões que nos acusaram de tantas coisas, de termos orientações políticas que nenhum de nós partilha, de fazermos o que não fazemos e de não fazermos o que fazemos. Fomos acusados de tudo isto porque quem tem necessidade de ver o seu lado de uma dada maneira precisa também de acreditar que o outro lado é o retrato negativo do seu.

Por Pieter Bruegel, o Velho

Primeiro ficamos perplexos por nos acusarem de coisas que bastaria uma rápida passagem de olhos pelos artigos do site para constatar que são falsas. Mas depois entendemos. Para quê os críticos perderiam tempo com uma vista mínima se já antecipadamente julgavam saber o que nós éramos? Se não somos aquilo que eles mesmos julgam ser, então só podemos ser o inverso! Daí resultou o curioso ambiente de equívocos de que se rodearam os nossos opositores neste debate.

Nós, pelo nosso lado, não deixamos que se apodere de nós a mais nefasta das ilusões — a de que bastam as palavras para dissipar as ilusões dos outros. Quem quer — quer mesmo — deixar-se enganar tem necessidade dos enganos e não pode viver sem eles. Não está nas nossas possibilidades, usando meras palavras, romper aquela necessidade. Para isso é necessário romper o tecido social que torna os enganos imprescindíveis.

Notas

[1] Isso corresponde à utilização de 85,6% do orçamento, sendo o total de R$ 139,6 milhões autorizados. Em comparação entre 2005 e 2009, os recursos aumentaram em 72%.

[2] Por conta dos atrasos nos recursos houve conflito entre os jovens beneficiários de bolsas e gestores dos Pontos de Cultura, uma vez que as bolsas passaram a compor a renda familiar.

[3] Vide o exemplo do Tecnobrega no Pará, apresentado na 3ª parte desta série.

[4] Devido à análise existente a respeito da responsabilidade social e dos impactos da renúncia fiscal, sendo uma discussão que ocorre também internamente no Ministério da Cultura, optamos por analisar o caminho da economia criativa.

Bibliografia

Décio Coutinho, entrevista realizada por Fabio Maleronka Ferron e Sergio Cohn, no dia 14 de junho de 2010, em São Paulo, disponível em Produção Cultural.

IPEA, Cultura Viva – avaliação do programa arte, educação e cidadania, 2009.

ROWAN, Jaron. Emprendizaje en Cultura, Traficantes de Sueños, 2010.

SCHUMPETER, Joseph A. The Theory of Economic Development, Transaction Publishers, Londres, 1974.

SCHUMPETER, Joseph A. (1911). A Teoria do Desenvolvimento Econômico. São Paulo: Abril Cultural, 1982.

SCHUMPETER, Joseph A. Capitalismo, socialismo y democracia. Ediciones Folio, Barcelona, 1983.

TRIAS DE BES, F. O livro negro do empreendedor. Best Seller, São Paulo, 2009.

Domingo na Marcha (4ª parte)

Retirado de http://passapalavra.info/?p=42227

8 de Julho de 2011

Já era chegada a hora de, neste País, se ‘baratear o que é caro’ e ‘encarecer o que é barato’Por Passa Palavra

O negócio da cultura, a cultura como negócio: “A gente precisa entrar nessa também”

Ao ser convidado, durante a gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso, para compor o Ministério da Cultura, Gilberto Gil participou de uma reunião no Palácio da Alvorada para conhecer melhor a proposta. No entanto, descontente com a não negociação de uma exigência ambiental — a nomeação dos super-intendentes do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (IBAMA) –, rejeitou o cargo naquela ocasião. Já se vê pelo ocorrido que a preocupação de Gil com as questões ligadas ao meio ambiente — compartilhada por Juca Ferreira, seu sucessor ministerial — foi central na sua filiação ao Partido Verde, no estado da Bahia [1].

gilberto_gilA vida parlamentar de Gilberto Gil foi influenciada pela revisão política realizada por Mikhail Gorbachev, nos anos 80, “porque se por um lado havia toda uma crítica da esquerda ao capitalismo e às formas perversas de gestão capitalista da sociedade, por outro lado faltava às esquerdas a autocrítica sobre o lado difícil do socialismo real”. Desta forma, a sua ação política passaria por “novas formas de política, formas criativas de política, formas artísticas […]. Fazer política é fazer uma arte.” [2] Destacava-se a importância da autocrítica como um caminho fundamental para a possibilidade de desenvolvimento de uma “gestão criativa”, bem como para o enfraquecimento e desmantelamento de uma estrutura burocrática.

É então, com a chegada de Lula à Presidência da República, que Gil assume — ao contrário da opinião geral dos setores majoritários do Partido dos Trabalhadores (PT) — o Ministério da Cultura e Juca Ferreira assume como secretário-executivo. Se, por um lado, havia o “agente da contracultura”, como se autodefine Claudio Prado, é com a linha de Juca que se insere a proposta de economia criativa no âmbito das políticas públicas e se forma “a consciência de que tínhamos que ser arautos de um novo período, fundadores de um novo processo” [3]. Como motor de desenvolvimento nacional, a economia criativa devia ter a função de produzir valor agregado e transformar o país em produtor de um novo tipo de commodities. A diversidade não seria apenas um valor a ser buscado, mas uma matéria-prima necessária para sustentar essa economia e através do diálogo intercultural poder se realizar uma “democracia racial e cultural”.

As condições materiais passariam por atender não só uma classe econômica, mas por alargar o mercado consumidor interno integrando as classes C, D e E: “A inclusão social e econômica de milhões de brasileiros foi feita não só por solidariedade, mas também porque precisamos de consumidores. […] O mercado brasileiro precisa ter o tamanho da nação brasileira.” [4]

Ainda, para realizar tal transição, é necessário não só aprovar leis como o Plano Nacional de Cultura, da reforma da Lei de Direito Autoral e da modificação na Lei Rouanet, mas forjar um novo empresariado capaz de compreender as dimensões dessa nova economia. Como foi afirmado por Juca e reforçado por seu secretário-executivo (2008-2010), Alfredo Manevy, trata-se de uma política pública similar à dos Estados Unidos na década de 1930 com o New Deal, que incentivou a indústria nacional: “Essa [a economia criativa] é a segunda economia nos EUA desde meados do século passado. É a terceira economia inglesa. Não estamos inventando nada, só precisamos entrar em uma escala de valor agregado que até hoje está em segundo plano. E não nasce de geração espontânea. Nos EUA, foi fruto de uma ação pactuada entre o Estado, os empresários e os criadores. A gente precisa entrar nessa também.” [5]

Neste mesmo sentido fica mais fácil entender a ligação umbilical, desde o primeiro momento, da nova gestão cultural de Gil e Juca com a vanguarda do “open business” no Brasil. No papel que, por exemplo, entre tantas outras figuras, o antropólogo Hermano Vianna, fundador do Instituto Overmundo, passaria a desempenhar desde o momento em que Gil recebe o convite de Lula para assumir o Ministério [6].

jucaferreiraPara Juca, a orientação do Ministério da Cultura era um “projeto [que] não é dirigista, sufocante da iniciativa privada ou a sociedade. Pelo contrário, é empoderamento da sociedade e das empresas culturais, é desenvolvimento do acesso pleno à cultura e da economia da cultura” [7]. Assim, conforme anunciado pelo próprio ex-presidente Lula, o programa “Cultura Viva” foi o “carro-chefe” desta gestão presidencial, o qual foi estruturado em cinco eixos (Pontos de Cultura, Cultura Digital, Agentes Cultura Viva, Griôs – Mestres dos Saberes e Escola Viva), sendo os Pontos de Cultura o principal desse programa.

Na perspectiva da economia criativa, através do Estado, buscou-se a criação e constituição de uma cadeia produtiva independente das companhias transnacionais e dos oligopólios regionais da cultura. Como afirmamos no artigo A esquerda fora do eixo, planejou-se que se consumisse e produzisse a “autêntica” cultura brasileira cortando os antigos intermediadores. Por isso, a descentralização em forma de rede através dos Pontos de Cultura. Trata-se de uma nova forma não só de descentralizar o orçamento — cortando, assim, custos que seriam destinados para obras de infraestrutura como anfiteatros, centros culturais, entre outros e de recursos humanos –, mas também de prospectar as diversas manifestações culturais. Um verdadeiro mapeamento da diversidade cultural — fundamental para o desenvolvimento expansivo dos setores do capitalismo contemporâneo. “Hoje eu vejo campanhas publicitárias falando dessa diversidade cultural, tornou-se algo visível no Brasil, é motivo de orgulho. Isso é uma pequena contribuição que demos.” [8] A diversidade cultural “descoberta” é promovida através de um “Sistema de Propriedade Intelectual mais flexível, mais viável”, pois assim “seremos capazes de aumentar sua credibilidade e sua mais ampla aceitação como uma ferramenta fundamental para promover inovação, criatividade e desenvolvimento.” [9]

culturaviva-logoUm processo também denominado por Gilberto Gil de “do-in antropológico”, por meio do qual seria possível potencializar “as ‘sinergias intermináveis’ que podem acontecer a partir do momento que estes espaços massageados comecem a liberar a energia produtiva reprimida pelo esquecimento social (…) [Afinal] já era chegada a hora de, neste País, se ‘baratear o que é caro’ (subsidiar tecnologia de ponta — e livre — para produção cultural na periferia), e ‘encarecer o que é barato’ (potencializar, dar visibilidade e viabilidade à real cultura brasileira )”. [10]

Desse modo, o programa do Ministério da Cultura inseriu o país em diversos eventos internacionais que discutem a globalização, a cultura e os direitos autorais, tornando-se aí uma referência simbólica mundial. O objetivo é de utilizar a indústria criativa para acelerar o desenvolvimento nacional. Aliás, isso é uma das propostas da UNCTAD – Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento.

No entanto, Juca Ferreira confessa a necessidade da “consciência do empresariado”, dados os limites ideológicos, e ilustra o caso num encontro com Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), quando os empresários presentes zombavam do presidente: “Quando a atenção se voltou para mim, eu disse: ‘Sou doido para fazer uma pergunta. Vocês nunca ganharam tanto dinheiro como no governo Lula e por que existe tanta dificuldade em aceitar?’. Eles foram obrigados a dizer que é o período mais promissor que já viveram e não conseguiram me explicar porque o presidente Lula deu uma contribuição irreversível para o desenvolvimento brasileiro, inclusive beneficiando os mais pobres e as elites.” [11]

Mas, ainda, é necessário que os “agentes econômicos nacionais e a elite brasileira operem o Brasil com grandeza e não apenas como escravo do passado. […] É preciso que a economia da cultura se torne uma economia pungente no Brasil, não só no mercado brasileiro, mas no mercado internacional.” [12]

Outra iniciativa que evidencia a importância da produção cultural para os gestores estatais é a realização, no dia 14 de junho de 2010, do Seminário “Produção de Conteúdo Nacional para Mídias Digitais” — organizado pela Secretaria de Estudos Estratégicos (SAE), órgão diretamente vinculado à Presidência da República. Na abertura desse evento, Samuel Pinheiro Guimarães, Ministro do SAE, explicou aos presentes que o seminário em questão era parte de um dos temas centrais a serem desenvolvidos pelo “Plano Brasil 2022” — responsável por traçar diagnósticos e fixar metas a serem cumpridas pelo conjunto de todos os Ministérios do Estado brasileiro até o ano em que se comemora o Bicentenário de sua Independência.

img_eservicos1Nesse mesmo seminário, vários estudiosos e profissionais da área apresentaram e discutiram uma diversidade de temas e abordagens sobre a indústria cultural brasileira. Dentre as exposições realizadas, a palestra O Espetáculo do Crescimento: a Indústria Cultural como novo motor do desenvolvimento na atual fase do capitalismo mundial, de Marcos Dantas — professor de pós-graduação da Faculdade de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) — é emblemática, como seu próprio título indica, do assunto que estamos a desenvolver nos artigos dessa série. Através de uma interessante discussão teórica, fundamentada por análises empíricas da dimensão da produção cultural de hoje no Brasil, Dantas chama a atenção para as potencialidades da cultura nacional se transformar numa das principais commodities da economia do país em sua fase recente de internacionalização.

Nesse contexto, Marcos Dantas afirma com convicção a seguinte ideia: “A conclusão é uma só: o Brasil precisa tratar a indústria cultural com a mesma visão estratégica como tratou, no passado, a indústria siderúrgica, a petrolífera, a automobilística, a de bens de capital e outras. Apenas querendo ser didático, embora podendo suscitar compreensíveis sorrisos condescendentes, seria o caso de acrescentar o C de cultura após o S de BNDES. O objetivo será fortalecer, nacional e internacionalmente, o poder de barganha dos produtores e programadores brasileiros, logo das marcas culturais brasileiras. Nisso, o Estado tem papel fundamental a cumprir”.

Mas, então, qual seria esse “papel fundamental” que o Estado deve cumprir? Segundo a perspectiva de Marcos Dantas, o Estado deve agir “não como mecenas, mas como legislador (para o quê, tem a Constituição ao seu lado!), estimulador, fomentador, até mesmo ‘cobrador’ de atitudes e práticas industriais da parte dos muitos agentes envolvidos nas cadeias produtivas de cultura em nosso país”.

Os articuladores da cultura

nfmInspirados no festival holandês Next Five Minutes (N5M), coletivos brasileiros organizaram o Festival de Mídia Tática, o qual, realizado em 2003, incorporou diversos coletivos ativistas e “hacktivistas” das novas tecnologias [13]. O evento convidou o fundador da Eletronic Front Foundation (EFF), John Perry Barlow e contou com a presença do acadêmico Richard Barbrook, autor do livro Gift Economy, além do recém-empossado ministro Gilberto Gil. Sentado na plateia e observando o que acontecia ao seu redor, Cláudio Prado, ex-empresário dos Mutantes e dos Novos Baianos, teve a grande oportunidade de reencontrar o seu antigo amigo do movimento cultural tropicalista — justamente o ministro Gil.

Exilados pela ditadura civil-militar que iniciou no Brasil em 1964, o primeiro contato de Claudio Prado com os tropicalistas ocorreu em Londres, no final dos anos 60. Na época, Prado já havia feito bicos, como a experiência de guia turístico de uma empresa “mequetrefe” da Copa do Mundo de Futebol de 1966. Quando visitava o primeiro-secretário da Embaixada brasileira, Rubens Barbosa, ele conheceu Nelson Motta, o qual acompanhou para encontrar Caetano Veloso. Questionado por outros tropicalistas — “quem é esse cara?” –, desconfiou-se num primeiro momento que seria um policial para espionar os exilados. “Foi assim que os conheci”, mas, por intermédio da cena musical, Prado conseguiu estabelecer os laços com os novos no pedaço: “Eu estava começando a descobrir os porões, o underground. Eu já estava lá há algum tempo, fui me relacionando com eles, mas esse mergulho no mundo underground, que depois nos levou a começar a plugar isso nos festivais e descobrir porões onde estavam acontecendo coisas, foi o elo.” Sobre os festivais desta época, para Prado o objetivo e sentido era “de território liberado, o lugar onde você conquistava o direito de ficar pelado, viajar, tomar ácido, fumar, onde não tinha polícia”, isto, pois, era “um autogoverno, a política do êxtase” [14].

De volta a 2003, Cláudio Prado viu neste reencontro uma oportunidade real de realizar no Ministério da Cultura a sua ideia de articular música e tecnologia digital. Após uma tentativa inicial frustrada de obter a lista dos coletivos presentes, ele se viu obrigado a entrar em contato individualmente e convidou ativistas para conversas em sua casa. Seu principal objetivo com essa iniciativa era levantar um conjunto de pautas e iniciar um programa que seria apresentado ao Ministério da Cultura. Isso foi feito enquanto se aguardava a liberação do orçamento pelo governo federal.

marca-brasil-e-mincEnquanto isso, Gilberto Gil realizava um processo de reorganização do Ministério e formulava-se o esboço inicial do que seria uma política pública de cultura. Na visão de Gil essa era uma questão de grande complexidade e que precisava dar conta dos “novos problemas, com as novas tecnologias e a relação dessas novas tecnologias na vida cultural, tecnologias exaustivamente utilizadas pela produção cultural, como é o caso das tecnologias digitais” [15].

Dois meses depois do contato com Gil, Claudio Prado pressionava para o Ministério participar dos eventos relacionados ao Software Livre. Como não delegaram um representante, ele se passou como representante oficial do Ministério da Cultura no evento em Brasília de Software Livre, a Segunda Oficina de Inclusão Digital, em maio de 2003. A situação se repetiu no Fórum Internacional de Software Livre (FISL), e dessa forma começaram a enxergá-lo como alguém do governo, já que era ele quem o representava nos eventos. Sendo reconhecido como porta-voz e “cansado de esperar”, Prado se autonomeou “Coordenador de Políticas Digitais” e fabricou seu próprio cartão com um carimbo do Ministério. Segundo ele, de tanto entrar e sair, as pessoas do Ministério poderiam jurar de pé junto que ele trabalhava lá. Porém, como ele mesmo confirma, isso não é verdade; Claudio diz ter “hackeado” o Estado, isto é, “subverter” a lógica das políticas públicas, alterar por dentro uma “ideia careta”. E, através do jargão da contracultura, Prado falava em “conspirar” dentro do governo.

A ideia de “hackear” o Estado é muito presente dentro do campo político relacionado aos coletivos que circulam nas discussões e eventos da cultura digital. Em debates virtuais e encontros presenciais, foi questionado se isto não seria cooptação ou “domesticação” e, ainda, colocaram como “paradigma” a realização da política do próprio coletivo, autônoma ao Estado — mas não do mercado. Em parte, essa discussão levou a um “racha” interno criando discordâncias e acusações entre coletivos e indivíduos que participaram do Ministério da Cultura e em programas de outros Ministérios, como no de Comunicação.

Por 18 meses, além das reuniões em seu apartamento, Prado formou no Instituto de Matemática e Estatística (IME) da USP o grupo autodenominado “Articuladores” e numa wiki formulou-se de forma colaborativa a “política pública revolucionária” que, segundo ele, contou com a participação de mais de 80 pessoas. Nas reuniões discutiam-se propostas para sair do “gueto” e se tornar a “vanguarda do mundo da web 2.0”.

371758Nesse processo Prado passou a circular nas atividades de coletivos como no Encontro de Rádios Livres, na Unicamp. Assim possibilitou-se a atualização da contracultura hippie com o discurso pós-moderno e “era da informação” — oriundo das teorias midiocêntricas — presente em muitos dos coletivos como Mídia Tática, Rizoma.Net, Mídia Sana e Projeto Metáfora. Prado define-se hoje como um hippie digital, ou não.

O Ministério da Cultura passou a ser analisado por Prado como um “guarda-chuva” das políticas digitais, as quais foram divididas em duas grandes frentes: a primeira, de trazer as discussões das implicações do digital e do direito autoral; a segunda, da apropriação da tecnologia na prática, a qual foi traduzida no projeto dos Pontos de Cultura.

Sobre a flexibilização do direito autoral, Prado afirma que o primeiro mundo não consegue desconstruir essa ideia e isso afeta o desenvolvimento deles. Porém, nos países periféricos, onde a legislação trabalhista e o direito autoral “está longe”, já que a maioria dessas pessoas vive oficialmente desempregada e se sustenta através do trabalho informal e uma vez que nem sequer possui contato com essas ideias do “século XX”, fica muito mais fácil de se assimilar os modelos de novos negócios.

Para Prado, como a população periférica está acostumada a “se virar” para se sustentar, o programa Ponto de Cultura veio reforçar essa capacidade de “se virar”; “eu e o Gil chamamos de sevirismo”. Em documento do Cultura Digital, elabora-se a definição de “sevirismo” como de “articular uma compreensão cultural e política de viabilização de uma nova cidadania digital na qual o acesso democrático ao conhecimento, aos meios de produção e à difusão da criatividade se dá a partir da apropriação de tecnologias que propiciam soluções de economia criativa.” [16]

No final da gestão do ministro Juca Ferreira, e com o fim da Era Lula, como não se tinha certeza do que viria pela frente na gestão Dilma, esse campo que orbitava o ministério passou a se organizar e planejar um “governo paralelo”, capaz de influenciar a próxima gestão principalmente com os projetos dos quais eles são os gerentes e dominadores do discurso, pois são eles próprios que o formulam conceitualmente. Dessa forma, nasce a Casa de Cultura Digital, em São Paulo, denominada por alguns deles como um “bunker”, mas por outros como um espaço de co-work [17] das “empresas 2.0”.

O velho, o novo e o novíssimo

Há o novo e o velho. Há aqueles que, apavorados com o novo, proclamam que não passa de uma miragem. E há aqueles que, deslumbrados com o novo, esquecem que têm raízes. Não se trata aqui de recordar que além da ciberatividade existe o trabalho de mãos e pés e dorso vergado, porque o começo de uma tecnologia coexiste sempre com o fim de outra e pode argumentar-se que o importante é discorrer sobre as linhas de tendência que virão a hegemonizar o futuro. Pois bem, é o que vamos fazer.

Temos então uma atividade informática que surgiu no quadro do capitalismo e não resultou de nenhum movimento exterior a esse quadro, não foi uma nova tecnologia criada por um qualquer cataclismo social que tivesse inventado uma sociedade nova. Mas respondem-nos que por aí mesmo estamos a mostrar o nosso arcaísmo, que esta é uma maneira velha de encarar a questão, uma maneira pré-, e que agora se vive na maneira pós-, que agora já não é a sociedade a criar uma nova tecnologia mas a nova tecnologia a criar uma sociedade. Dizem-nos que enquanto andarmos com as nossas teimosias e participarmos nas lutas sociais estaremos a fazer as coisas no lugar errado, porque é na internet agora que se inventa a toda a hora, a todo o minuto, a sociedade nova e diferente e livre.

Mas argumentos assim deixam-nos imobilizados de espanto ou contorcidos de riso, depende do carácter de cada qual, porque não há nada mais vetusto do que esse tipo de teses. No capitalismo não surgiu até agora uma grande inovação tecnológica que não tivesse sido apresentada por muitos como constituindo a ultrapassagem de todos os constrangimentos sociais. A humanidade iria enfim libertar-se da servidão do trabalho e da exploração graças à eletricidade, graças à agricultura científica, graças à produção de massa, graças à automatização e aos robots. Todas as novas tecnologias, inclusivamente o taylorismo, tiveram os seus poetas líricos e os seus prosadores proféticos. E para que a série se repita agora basta uma coisa — ignorar a história.

Não é outro o motivo por que insistem com tanta persistência que a informática provocou uma ruptura tal que deixa a história sem valor no presente. Só ignorando a história, e com esta indispensável condição, é que alguém pode acreditar que uma tecnologia invente uma sociedade e que este seja um programa nascido agora pela primeira vez. Mas a ideia de que a aplicação da eletricidade aos meios de produção constituía o fundamento de uma sociedade nova e emancipadora foi o programa da tecnocracia nos alvores do século XX, tanto na área do socialismo como nas margens mais progressistas dos governos daquela época. E deu no que deu. O mesmo com o resto.

A felicidade pela tecnologia

A felicidade pela tecnologia

Se evocarmos o stalinismo todos pensam em muito goulag e pouco goulash, mas esquecem a outra face, que neste caso é o verdadeiramente importante. A partir da transição da década de 1920 para a década de 1930, com o lançamento dos Planos Quinquenais e a realização do Socialismo Num Só País, o stalinismo foi uma colossal operação de engenharia baseada no mito de que a novidade técnica haveria de criar uma sociedade nova. Leiam a literatura política e econômica do stalinismo, e quem não tiver paciência para tanto veja o cinema soviético daquela época, e quem não o encontrar procure no Google as imagens de propaganda, e quem tiver um gosto verdadeiramente perverso leia os romances escritos de acordo com as diretivas do Partido — os outros ficaram então na gaveta — e verão que se tratou de uma enorme apologia à novidade técnica e da promessa de que essa técnica abriria as portas de um paraíso povoado por operários musculosos, camponesas robustas e criancinhas bochechudas.

Mas nunca, até hoje, as inovações tecnológicas trouxeram uma novidade social que não consistisse na reestruturação do sistema de exploração. E é para isto mesmo que chamamos a atenção no artigo A esquerda fora do eixo e nesta série de artigos Domingo na Marcha. Resumido ao fundamental, pretendemos mostrar que a informática, assim como possibilitou novos utensílios de luta, abriu igualmente vastos espaços à ação empresarial. É isto que temos dito e que estamos agora a dizer.

Mas há quem aguarde nós chegarmos a este ponto do discurso para nos lançar outro argumento. É que, pretendem, as lutas e os confrontos estão agora ultrapassados. São pré-, e nós vivemos no pós-. A informática dispensaria as lutas, as lutas da velha toupeira e as da cacetada nas ruas, porque permitiria hackear o Estado. Em matéria de hackers, porém, não foi necessária a informática e há um século atrás, como este site recordou, Léo Taxil conseguiu penetrar no mais fechado e secreto dos Estados, o do Vaticano, na mais fechada das instituições, a Igreja Católica. Taxil já morreu, mas o Vaticano e a Igreja de Roma ainda aqui estão. Muito recentemente o WikiLeaks conseguiu penetrar não num Estado mas num grande número deles. Todos nós nos entusiasmamos com este feito, todos nós tentamos, na medida das nossas curtas possibilidades, colaborar na defesa de Assange quando ele foi vítima de uma armadilha policial. Mas o que sucedeu em seguida? Nada.

Não sucedeu nada porque os movimentos de luta contra o capitalismo não estavam e não estão preparados para se aproveitarem de algo com a dimensão do WikiLeaks, como não sucedeu nada há um século atrás porque os movimentos de luta contra a superstição e a opressão moral não estiveram à altura da subversão conseguida individualmente por Léo Taxil. Continuando a resumir-nos ao fundamental, é precisamente para isto que chamamos a atenção no artigo A esquerda fora do eixo e nesta série de artigos Domingo na Marcha. Transformar Marchas — todas ou algumas delas — de mobilizações de luta em espetáculos capitalizáveis por um empresário mostra a realidade subjacente à pretensão de hackear o Estado. Não se trata de um discurso vazio. Muito pior do que isso, trata-se de um discurso perverso.

O primeiro hackeador do Estado

A primeira pessoa que anunciou que tinha hackeado o Estado — com outras palavras, porque os hackers ainda estavam longe de existir — foi Alexandre Millerand, em França, em Junho de 1899, o primeiro socialista a entrar num governo burguês, como então se dizia. O caso criou um enorme escândalo, de um lado e do outro, e durante muito tempo foi esta a linha de clivagem dos socialistas, se podiam ou não participar em governos burgueses. Mas a argumentação com que Millerand e os seus incontáveis imitadores se defenderam é em tudo semelhante à que usam hoje os pretensos hackeadores do Estado, a tese de que por dentro é que se mudam as coisas.

Na realidade, porém, uma vez lá dentro são as pessoas que mudam. Como todos nós bem sabemos ao vermos o percurso de tantos antigos companheiros. Além de não libertar a sociedade, a informática não destrói também os mecanismos do poder.

Mas para quê toda esta discussão? Poderiam os empresários de negócios e os empresários de departamentos acadêmicos alguma vez estar interessados em destruir o fundamento último das relações de exploração? Poderiam os que se sentem embevecidos e atraídos pelas margens do poder político alguma vez estar interessados em destruir o fundamento último das relações de opressão?

(Continua aqui)

NOTAS

[1] Quando regressa do exílio, Juca Ferreira filia-se ao PV, sendo eleito vereador por duas vezes. Além disso, ele dirigiu a Fundação Ondazul, criada pelo Gilberto Gil, sendo conhecido regionalmente pela sua militância no movimento ambientalista.

[2] Gilberto Gil – Entrevista realizada por Produção Cultural no Brasil.

[3] Gilberto Gil – Entrevista realizada por Produção Cultural no Brasil.

[4] Juca Ferreira – Entrevista realizada por Produção Cultural no Brasil.

[5] Juca Ferreira – Entrevista realizada por Produção Cultural no Brasil.

[6] História remontada pela pesquisadora e co-partícipe deste processo, Eliane Costa, em sua dissertação “Com quantos gigabytes se faz uma jangada, um barco que veleje”: o Ministério da Cultura, na gestão Gilberto Gil, diante do cenário das redes e tecnologias digitais”.

[7] Juca Ferreira – Entrevista realizada por Produção Cultural no Brasil.

[8] ibidem.

[9] “Pronunciamento do ministro Gilberto Gil durante o Seminário sobre Economia Criativa organizado pelo Britsh Council”, 06/12/2005. Disponível aqui.

[10] Trecho extraído daqui.

[11] Juca Ferreira – Entrevista realizada por Produção Cultural no Brasil.

[12] ibidem.

[13] Hacktivistas preparam megaevento em SP.

[14] Claudio Prado – Entrevista realizada por Produção Cultural no Brasil.

[15] Gilberto Gil – Entrevista realizada por Produção Cultural no Brasil.

[16] Trecho extraído de “CULTURA DIGITAL 2007-2010 – UM PROGRAMA DO MINC”. Disponível aqui.

[17] A proposta de um espaço físico “colaborativo” é justamente para capturar as externalidades positivas dos envolvidos nessas iniciativas.

Domingo na Marcha (3ª parte)

Retirado de http://passapalavra.info/?p=41866

30 de Junho de 2011

As ideias, de facto, não voltaram a ser perigosas — como se escrevia nos muros de 68 — mas transformaram-se na matéria-prima da nova etapa do capitalismo. Por Passa Palavra

Indústria cultural e os novos modelos de negócios

iniciofonograficoNa dimensão económica, a indústria cultural é composta por companhias transnacionais e oligopólios regionais. Se na década de 1970 as companhias multinacionais impulsionaram a abertura de novos mercados, na década de 1990 foi uma nova organização da indústria que levou avante a disputa. A fragmentação da linha de produção, a terceirização e a segmentação do mercado fizeram com que se alterasse a estrutura interna dessas empresas e efetuou-se um novo processo de fusões. Foi nesse cenário que se constituiu o grupo Big Five, os cinco maiores do ramo da música, ou seja, o oligopólio das EMI, PolyGram, BMG-Ariola, Sony Music e Warner Music, que hegemonizaram o mercado. Em 2007 ocorreu a fusão das maiores gravadoras do país — Sony e BMG — formando a Day 1 Entertainment; entre 2004 e 2007 o seu catálogo de artistas nacionais passou de 52 para 35.

Na cultura, e principalmente na música, o processo de fusão e de concentração do mercado reduziu o casting de artistas no catálogo e acirrou a concorrência. No Brasil essa concentração ocorreu no eixo Rio – São Paulo. Esta situação propiciou um espaço de actuação para o mercado das gravadoras independentes, que deu um grande salto com o aparecimento da Internet e a disseminação das tecnologias digitais (computador, gravador de mídia, câmaras digitais, etc.). A tecnologia abriu, por outro lado, o precedente para compartilhar os bens imateriais numa escala global. No plano económico esta indústria estava em crise. A indústria fonográfica manteve poucos artistas de consumo de massa e apresentou-se como um aparente — e apenas aparente — paradoxo de que, precisamente no momento que mais se ouve música, menos se vende música. Parte da esquerda — de diferentes matizes ideológicas — respirou fundo e pensou que finalmente ocorrera a «desmercantilização da cultura» e que enfim o comunismo estaria imanente no processo económico, na suposta não quantificação do valor de troca e nas redes de livre associação e produção. A grande guinada da economia capitalista para uma economia da dádiva; a «virada digital».

Se o fordismo foi marcado pelo consumo padronizado de massas, no capitalismo actual — diagnosticado como «pós-fordista», «cognitivo», etc. — o consumo é altamente diferenciado e assimétrico; e à lógica da repetição acrescentou-se a lógica da inovação acelerada. Assim, o incentivo à subjectividade, à diferença e à diversidade tornou-se fundamental para o desenvolvimento da produção de mercadorias, fazendo girar a própria roda do capital.

comunismoDecerto, como analisámos na primeira e na segunda parte desta série de artigos, a apropriação capitalista das novas formas de resistência, como a inovação da Rede Indymedia, transformada e devidamente controlada na Web 2.0, não se deu automaticamente. Foi necessária a crise do modelo anterior para que se procurassem na periferia — ou na sua antítese — do modo de produção capitalista os elementos do novo. A produção e a sua forma extramercantil — fomentada e desenvolvida no seio do activismo e dos movimentos sociais — passou a ser vista por empresários schumpeterianos [1] não como uma ferramenta subversiva, mas como uma mina de técnicas inovadoras [2]. Não sendo necessário investir no seu desenvolvimento, o investimento — e consequentemente o seu risco — tem menos valor do que aquele que é feito num ambiente cercado e controlado por especialistas e regulamentos. Não se trata apenas de uma externalidade positiva, mas de uma verdadeira expropriação do trabalho [3].

Os novos modelos de negócios, isto é, o open business, nasceram no Brasil da viagem do centro para a periferia. Quando se falava na ruína do modelo económico viabilizado por uma forma jurídica da indústria cultural, os teóricos procuraram nas margens a sua reinvenção e fizeram dessas realidades periféricas o seu laboratório social. O Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas – Rio de Janeiro (CTS/FGV-RJ), que tem como director o representante do Creative Commons no país, Ronaldo Lemos, bem como Oona Castro, coordenadora-executiva do Instituto Overmundo, têm estudado os novos modelos de negócios na cultura.

Estes novos modelos podem ser resumidos na ausência ou flexibilidade da gestão dos direitos autorais na produção. Assim, as principais características do modelo seriam a «sustentabilidade econômica; a flexibilização dos direitos de propriedade intelectual; a horizontalização da produção, em geral, feita em rede; a ampliação do acesso à cultura; a contribuição da tecnologia para a ampliação desse acesso; e a redução de intermediários entre o artista e o público». [4]

Num exemplo didáctico, no documentário Good Copy, Bad Copy (Dinamarca, 2007), que defende a necessidade da inovação e a flexibilidade dos direitos de autor para incrementar a produção, são apresentadas indústrias culturais que funcionam sem direitos de autor, como Nollywood — a indústria cinematográfica da Nigéria — e, no Brasil, o tecnobrega do Pará.

oil_drill1O movimento de flexibilização dos direitos autorais denominado «cultura livre» tem como idealizador Lawrence Lessig, o advogado inventor do Creative Commons. Lessig é ele próprio um entusiasta do livre mercado e argumenta que, tal como a lei e os acordos internacionais sobre direitos autorais estão concebidos, fica imobilizada a criação e até o livre mercado. O open business é entendido por estes autores como a dimensão económica da cultura livre [5].

O open business procura extrair lucro não apenas da venda de um só produto, mas através de uma rede que permita obter valor e lucro de vários pontos. Segundo os seus ideólogos, quanto maior for o fluxo de informação a passar por uma determinada rede, mais opções de negócios serão possíveis. Por exemplo, quanto maior for o número de utentes [usuários] a copiar as músicas de um artista, tanto melhor, pois surgirão assim novas oportunidades de shows, os quais hão-de ter mais público, aumentando também a procura [demanda] por produtos relacionados.

Para dar continuidade ao processo de acumulação é preciso incorporar o novo, seja ele a crítica, a luta ou a cultura de luta, isto é, a cultura que somente floresceu na ausência de um controlo pelo centro [6]. Da mesma forma que a transnacional Petrobras faz prospecção na profundeza dos oceanos para encontrar o ouro negro, nas periferias e sertões brasileiros ocorre a prospecção da «riqueza nacional» da cultura. Foi esta mesma lógica que orientou as viagens de Lula para «descobrir o povo brasileiro», — numa reinterpretação do movimento modernista — na companhia do geógrafo Aziz Ab’Saber, após perder a eleição em benefício de Fernando Henrique Cardoso. Segue esta mesma lógica o Instituto e site Overmundo, ao contratar 27 jornalistas para «incentivar a produção local» — um em cada estado, além do Distrito Federal — e prospectar a diversidade da cultura brasileira, formando um grande banco de dados da cultura nacional. Não foi por acaso que, em 2006, tal site colaborativo recebeu R$ 2 milhões da própria Petrobras [7]. Se este banco de dados for incorporado pelos oligopólios da indústria cultural, teremos uma produção de mercadorias altamente «customizada» e, por isso, regionalizada e aproveitando-se de uma alta capilaridade no mercado.

Um projecto semelhante começou há pouco a ser implementado por iniciativa de pelo menos um dos jornais televisivos locais da Rede Globo, o SPTV. O projecto Parceiro do SP está a seleccionar 7 duos [duplas] de meninos e meninas das periferias da região metropolitana de São Paulo para produzirem vídeos sobre problemas e boas iniciativas de seus bairros. Depois de passarem por vários processos selectivos e por oficinas de formação, os escolhidos receberão pouco mais de R$1.100,00 por mês. No movimento de maximização dos lucros, a indústria é capaz de saltar da produção de massas para a produção «customizada» sem que esta deixe de ser massificada e, é claro, sem que a indústria deixe de se apropriar do trabalho alheio.

plataforma-com-sol1Ora, este fenômeno tem o seu equivalente óbvio no âmbito da Propaganda e do Marketing, naquilo que é descrito por muitos teóricos desta área (entusiastas ou críticos) como a «caça ao cool» ou «Cool Hunting». Trata-se de uma prospecção explícita, da parte de determinados grupos de pesquisa empresarial – vinculados às empresas ou «parceiros associados» destas grandes companhias que actuam na área da cultura e do entretenimento -, a respeito dos principais mercados, nichos e tendências culturais de cada época. Agem pesquisando à moda antiga, ou cada vez mais na «interacção pró-ativa» (muitas vezes realizada por «fundações culturais» e outras «entidades sem fins lucrativos»), em busca das manifestações comportamentais de grupos ou pessoas que possam ser facilmente convertidas pela mídia em «última novidade cool do momento». E desde há muito tempo que a chamada «contracultura» ou «cultura da rebeldia», principalmente nas atitudes comportamentais de jovens e afins, têm sido um alvo prioritário desses caçadores. Um tipo de prospecção mercadológica que muitas vezes aparece também sob a forma de jornalismo (segmentado) [8].

«Mas, finalmente, do que se trata o cool?» pergunta Isleide Fontenelle num ensaio crítico [9]. «Antes de mais nada, trata-se de uma palavra que não permite uma tradução literal para o português. Cool pode ser algo simplesmente “legal” mas, quando se trata de pensar o cool associado à pesquisa de mercado de tendências culturais, ele representa o “novo legal”, mas um novo que já foi adotado antes por uma minoria, e que pode vir a ser adotado por uma grande maioria. Segundo Grossman (2003), o cool pode ser considerado o recurso natural mais precioso da América: uma substância invisível, impalpável, que pode fazer uma determinada marca de qualquer mercadoria – um tênis, uma calça jeans, um filme de ação – fantasticamente valioso. Ser cool tem a ver com estabelecer tendências, a partir da influência pessoal dentro de uma rede social específica (nicho). […] É assim que funciona o negócio de “caçada ao cool”, segundo Grossman (2003): quando as pessoas cool – um grupo conhecido pelos marqueteiros como consumidores alfa – começam a falar, ou comer, ou fazer compras de um certo modo, as pessoas não cool os seguirão».

gasene-gasoduto-cacimbas-catu-25-3-2010-petrobrasEsta descrição teórica pode ser muito bem exemplificada, na prática, por este vídeo publicitário divulgado pela agência BOX 1824 We all want to be young, agência «caçadora do cool» no Brasil, responsável por uma das últimas campanhas publicitárias do Banco Itaú: «O sonho brasileiro» [10]. Nem sequer é raro depararmos com o próprio capital e os principais capitalistas a autocriticarem-se, a ridicularizarem-se e até a «se rebelarem contra si próprios», no meio de campanhas publicitárias que visam ampliar os seus lucros.

Não deveríamos estranhar, portanto, o facto de Festivais de Cultura, Paradas e até mesmo Marchas com uma origem política mais contestatária serem apenas novos terrenos, aliás bastante férteis, para a prospecção da matéria-prima mais valiosa desses caçadores, com o objectivo de impulsionar a venda de discos, de vídeos, os acessos no twitter, roupas, estilos, bebidas, baladas, artigos diversos de consumo, sonhos, contas bancárias, etc.

Ou seja, aos poucos os empresários incorporam nos seus negócios as antigas técnicas e manifestações de resistência à acumulação capitalista. No âmbito das empresas transnacionais da cultura, os negócios são remodelados com a venda on line, com a divisão da bilheteira [bilheteria] das apresentações e a gestão da carreira (patrocínios e parcerias, merchandising e agendamento de eventos), como sucede, por exemplo, com a Day 1 Entertainment. Por outro lado, não se estabeleceu ainda um modelo de sucesso a ser seguido, e por isso são necessários estudos sobre os novos modelos.

Num discurso pronunciado enquanto membro do governo, o ministro-cantor Gilberto Gil afirmou: «Nesta nova fase da economia mundial, o que está — e estará — cada vez mais no centro das disputas competitivas são idéias, conceitos e valores, e não meramente os produtos tangíveis como tradicionalmente os conhecemos. Diferentemente da economia calcada em objetos concretos sujeitos a retornos estáticos ou declinantes, a “economia das ideias” alimenta-se da criatividade humana e da sua transformação em bens e serviços em constante recriação». [11]

As ideias, de facto, não voltaram a ser perigosas — como se escrevia nos muros de 68 — mas transformaram-se na matéria-prima da nova etapa do capitalismo.

Do centro para a periferia: o Tecnobrega do Pará

aparelhagemEm 2008, Ronaldo Lemos e Oona Castro publicaram o livro Tecnobrega – O Pará reinventando o negócio da música. Ao longo deste estudo, cuja base empírica se deve à Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE – USP), os autores descrevem o circuito económico constituído à margem do oligopólio das companhias transnacionais da cultura.

O tecnobrega surge no norte do país nos anos 2000, com a renovação do ritmo brega aliado à música electrónica. Historicamente, o brega teve a sua primeira expressão nacional na década de 1980 e, posteriormente, ficou regionalizado no norte e nordeste [12]. Disseminado pela periferia de Belém, o ritmo diversificou-se — apesar de o tema das letras se manter fiel à raiz do brega, como a desilusão amorosa — e formou um mercado próprio, composto por shows, aparelhagens e também venda de CDs e DVDs.

Actualmente, o mercado do tecnobrega segue o seguinte ciclo «1) os artistas gravam em estúdios — próprios ou de terceiros; 2) as melhores produções são levadas a reprodutores de larga escala e camelôs [vendedores ambulantes]; 3) ambulantes vendem os CDs a preços compatíveis com a realidade local e os divulgam; 4) DJs tocam nas festas; 5) artistas são contratados para shows; 6) nos shows, CDs e DVDS são gravados e vendidos; 7) bandas, músicas e aparelhagens fazem sucesso e realimentam o ciclo». [13]

296699100_ce938f9191_b1As aparelhagens são os equipamentos para a animação e a sonorização das festas. Elas incluem torres com caixa de som, cabines, computadores, efeitos especiais (laser, «batsinal», gelo seco, etc.), écran [telão], além de outros recursos. Devido à concorrência entre as outras aparelhagens no mercado de shows, os proprietários precisam sempre de comprar novos aparelhos para inovar e acumulam dívidas com acordos comerciais informais — de empréstimos e investimentos — estabelecendo um conflito entre festeiros (os empresários e promotores das festas) e aparelhagens. Os festeiros não têm interesse em investir nas pequenas e médias aparelhagens, pois há «pouco retorno», ou seja, trata-se de um investimento de risco.

Da mesma forma que sucede em qualquer mercado capitalista, para conseguir ingressar no mercado do tecnobrega é necessário apoio e patrocínio. No caso das aparelhagens isto significa uma relação directa de dependência com os festeiros. Sem recursos externos, o dono da aparelhagem precisa de retirar do seu próprio lucro para inovar no negócio: «Todos querem lançar, a cada seis meses, uma aparelhagem nova. Pra isso, vão até os festeiros e pegam [obtêm] dinheiro emprestado a juros. Lançam a aparelhagem, ganham dinheiro e antes de acabarem de pagar, já começam a cair na mesmice de novo, aí já tem que lançar de novo». [14]

Desta maneira, numa perspectiva económica, os festeiros preferem investir nas aparelhagens que lhes darão maiores lucros e menos riscos. «Assim, a tendência é a de se estabelecer um ciclo vicioso em que os empresários investem mais em quem já tem maior prestígio, público e estrutura, contribuindo para a crescente concentração desse mercado». [15]

Contratadas pelas casas de shows, clubes e demais espaços onde ocorrem as festas, as aparelhagens, somadas ao «artista de sucesso», fazem parte da fórmula para atrair o público. As casas nocturnas que possuíam o tradicional sistema de som foram obrigadas a investir na contratação do serviço das aparelhagens.

bregaNesta cadeia produtiva, a inovação é inserida também através das pequenas e médias aparelhagens que procuram tocar músicas ainda não conhecidas. É o mesmo papel desempenhado pelos selos e gravadoras independentes no circuito das majors, o qual dá maior dinamismo ao mercado. Para manter as suas operações, uma pequena aparelhagem pode abrir a festa de uma média e assim por diante, e geralmente fazem-no em troca do cachet [cachê], já que se projetam futuros contratos pelo maior público atingido.

O mercado das aparelhagens compõe-se aproximadamente de 4% de grandes empresas, 47% de médias e 50% de pequenas [16]. O valor médio do capital fixo é, para as grandes, de R$ 81.000,00; para as médias, de R$ 34.129,37; e para as pequenas, de R$ 8.847,37. As grandes aparelhagens predominam nas festas no centro e no interior, já as médias actuam maioritariamente nos bairros e casas de festas locais. Os shows das grandes aparelhagens atraem um público médio entre três mil e cinco mil pessoas, mas com o lançamento ou gravação de um DVD pode chegar-se a oito mil. As pequenas aparelhagens têm um público de quinhentas a duas mil pessoas.

A concorrência entre os velhos empresários e os iniciantes é bastante comum e, como muitos negócios ocorrem na informalidade, há quem fale nas práticas típicas de cartéis e dumping: «quando uma festa boa dá lucro grande, o cara [tipo] mais que dobra o capital dele. Em um dia. Festa de aparelhagem, quando dá lucro, dá lucro. […] Ainda tem os esquemas dos festeiros antigos… O festeiro novo junta o dinheirinho dele, junta dez mil para fazer uma festa, e faz. O que acontece? O festeiro antigo coloca a melhor aparelhagem perto dele, cerveja mais barata, cerca o cara de todas as formas. O cara perde os dez mil dele. Não tem mais onde arranjar dinheiro. E tem que sair do negócio». [17]

Para o festeiro novo trata-se de um negócio arriscado, pois além de um capital inicial calculado em R$ 22 mil — o que é considerado um investimento alto neste mercado — é possível que a festa não dê o lucro esperado. E, como disse um entrevistado, «Se o cara não tem respaldo, a melhor coisa que ele faz é não entrar em festa. Porque, senão, vai dançar». [18]

296682363_b022b1a923_bSem direitos de autor e com as tecnologias digitais, um DJ conta a mudança na indústria: «a gente distribui as músicas para as aparelhagens. Quer dizer, ela tocou nas aparelhagens, estourou. Aí as pessoas começam a ligar para a rádio pedindo. A rádio é que vai correr atrás da música que está estourada nas aparelhagens. Quer dizer, inverteu o papel. Antigamente, era a rádio que fazia a sua música subir. Hoje em dia, não. De uns sete anos pra cá, as aparelhagens foram ocupando esse espaço. Então, as músicas que estão pegando bem nas aparelhagens, o pessoal já liga para a rádio pedindo. Aí, eles são obrigados a tocar». [19]

Através do acesso à tecnologia, o artista no início de carreira produz a sua composição e, caso ela «estoure», isto é, faça sucesso, ele montará a banda completa, eliminando assim a necessidade de um colectivo por afinidade, seja pessoal ou de orientação política. O colectivo passa a não ter outra razão que não a do mercado. É preciso vender, «estourar», para se constituir a banda.

Mas a tecnologia também traz novos conflitos, como entre os artistas e os DJs: «Agora tudo mudou. O artista tá escondido, enterrado, o cantor solo. O artista agora é o DJ da aparelhagem. É DJ Dinho, é DJ Gilmar, é DJ Anderson, é DJ do não sei o que mais lá. Agora até as mulheres são DJs. Eles são os artistas. Eles monopolizaram o negócio. O mundo é deles. A culpa é dos próprios cantores e compositores». [20]

Os agentes do mercado do tecnobrega não vivem só de uma actividade. Segundo uma pesquisa, 71% dos cantores das bandas consolidadas têm outro trabalho, 90% dos donos de aparelhagem têm outro emprego e 33% dos vendedores de rua têm outro emprego [21]. Para além das apresentações e dos shows, os cantores e compositores de Belém criam jingles e vinhetas para campanhas publicitárias — eleitorais e comerciais — para serem tocadas nas aparelhagens.

Há também as «encomendas» de música feitas pelas aparelhagens aos artistas. Quando um jingle faz sucesso no público, as aparelhagens procuram a banda para gravar mais músicas, sem cobrança do direito autoral, o que permite ao artista fazer mais apresentações. Os cantores que são também compositores possuem uma renda mensal superior aos que se limitam a cantar (renda média: R$ 1.813,00; e só shows: R$ 1.050,00) [22]. Assim, a participação e a permanência no mercado dependem da produção desse artista.

296691274_823e512c91_bApesar dos cachets [cachês] recebidos, os donos das aparelhagens frequentemente vivem em casas da periferia da capital do tecnobrega, pois é preciso pagar as dívidas que estão constantemente a contrair para manter a lógica de inovação nas festas. Para os artistas, a sobrevivência depende dos shows realizados principalmente no interior do estado, dado o baixo custo da aparelhagem.

Na opinião dos autores, Lemos e Castro, o tecnobrega é um mercado eficiente do ponto de vista locacional, devido ao seu impacto na dinâmica económica local e a obstáculos de entrada menores do que aqueles que existem na indústria fonográfica, e a associação entre o ritmo e a tecnologia é em grande parte controlada por DJs e aparelhagens.

O organismo económico do Cubo Mágico e do Fora do Eixo

«Somos a pratica. Somos o Exprimento[sic]. Somos a rede. Somos cooperativa de trabalho. Somos escravos de nossa causa, e racionalmente apaixonados» – Pablo Capilé, 2004 [23]

A experiência precursora do Fora do Eixo foi o Cubo Mágico, em Cuiabá, no Mato Grosso. O nascimento desta empresa — porque é de uma empresa que se trata — e o seu rápido desenvolvimento graças ao aproveitamento de todas as actividades periféricas é descrito em detalhe numa entrevista para a colectânea Produção Cultural no Brasil [24]. Durante um encontro do movimento estudantil, o ECOS (Encontro de Comunicação Social), que reuniu os centros académicos daquela área, o fundador, Pablo Capilé, avaliou que os estudantes estavam «viciados naquele movimento estudantil, e viúvos da década de 1980» [25], e por isso organizaram fora da universidade o festival Calango. Com esta movimentação, mostravam acreditar na necessidade e na capacidade de influenciar as majors para determinar os rumos da música. Mas após a participação de Tadeu Valério, da Parodoxo Music, compreenderam que seria necessário um trabalho permanente para fomentar um movimento cultural local. Surgiu desta forma o colectivo Cubo Mágico, e todas as suas acções passaram a ostentar a marca «Cubo»: Espaço Cubo, Cubo Card, Cubo Eventos, Estúdio Cubo, Cubo Comunicação, etc. O modelo estava dado. Aproveitam a periferia do que fazem para criar novas ramificações da empresa, e assim sucessivamente.

fdeEmpenhados na construção do colectivo, viam então a universidade e o movimento estudantil «como uma plataforma de difusão» [26] e, dadas as características da cidade, ingressaram no ramo da música para «construir um mercado e, concomitante a essa construção, debater a política pública» [27] com os participantes. Em 2003 já tinham estruturado um estúdio de ensaio e de gravação, uma assessoria de imprensa e um «coletivo de eventos», mas «[…] as pessoas não estavam muito dispostas a discutir política pública: elas não conseguiam enxergar que aquilo ali era realmente um mercado, porque não eram remuneradas» [28].

Perante a estruturação do Cubo Mágico e a sua aquisição de activos económicos, começou a haver protestos e efervescência na cidade devido ao facto de os artistas não serem remunerados. A este respeito, Capilé argumenta que as pessoas não eram remuneradas porque «a gente ainda estava trabalhando com a troca solidária» [29]. Aparentemente, a Economia Solidária é considerada como um manancial de trabalho gratuito e criam então uma forma de dinheiro — o Cubo Card —, destinado a circular internamente e que é emitido em troca dos serviços prestados pelos músicos e por outras pessoas também.

Na medida em que, nesse âmbito, não era usado o dinheiro corrente e em que o Cubo Mágico tinha o exclusivo da emissão de Cubo Cards, ele assumia o privilégio de um banco emissor num Estado: criação de meios de pagamento sem ter de pagar para isso, limitando-se a receber. Aquele sistema monetário fechado une-se então ao sistema circundante através da procura [demanda], quando as pessoas começaram a usar o Cubo Card para comprar cerveja, por exemplo [30]. Por outro lado, o sistema une-se ao exterior através da oferta: quando os possuidores de Cubo Cards exigem serviços que o Cubo Mágico não tem capacidade de prestar, ele recorre então a parceiros privados. Isto significa que pessoas do exterior passam a prestar serviços dentro do círculo, ou aliás do cubo.

cabecacuboO sistema monetário do Cubo Card cumpre ainda outra função, que é a de vincular as pessoas àquele espaço. Se alguém é detentor de Cubo Cards recebidos como pagamento de serviços que prestou, tem duas alternativas: ou os aplica dentro daquele espaço ou perde todo o valor representado pelos Cubo Cards, que não são reconhecidos nem aceites na sociedade exterior. Assim, o Cubo Card serve para prender as pessoas a um espaço e as fazer ganhar e gastar dentro dele — o que em ponto minúsculo é exactamente o mesmo que sucede na relação entre o Banco Central e o Estado-Nação. Não se trata apenas de uma empresa, mas de uma estrutura de poder.

Com esta dinâmica, Capilé decide expandir-se e ligar-se a outras redes de festivais. Em 2005 surgem a Associação Brasileira de Festivais Independentes (Abrafin) [31] e o Circuito Fora do Eixo. «Era uma forma de tentarmos visualizar como aquela moeda complementar poderia interferir no comportamento dos agentes produtivos» [32]. O uso da internet teve aqui a sua origem, para acelerar a interligação dos festivais e dos negócios.

Os artistas podem protestar [33] contra a falta de condições para ingressar nos festivais e contra a falta de subsídios e de cachet [cachê], mas entretanto para Capilé «[…] os festivais são zonas autônomas temporárias […]» [34]. Além de empresa e de aparelho de poder, é também um mecanismo produtor de discurso ideológico. O que internamente eles chamam de «tecnologia social» é a conversão da linguagem musical – isto é, dos serviços – em modelo de todas as linguagens e a aplicação deste modelo a qualquer esfera de actividade. Trata-se da noção de que todos os serviços obedecem a um modelo gerencial comum.

Actualmente o Circuito Fora do Eixo possui uma rede com 6 moedas complementares (Cubo Card, Goma Card, Marcianos, Lumoeda, Palafita Card e Patativa), 10 tabelas de serviços e 72 Pontos Fora do Eixo. Além das moedas, há os recursos públicos captados mediante editais do governo federal e dos governos estaduais e municipais – como os 6 festivais captados em parceria com a Abrafin pelo Programa Petrobras Cultural 2011 [35]. Como diz o actual presidente da Abrafin, Talles Lopes: «o Fora do Eixo é um processo de formação de gestores não apenas para a Abrafin, mas para qualquer associação ou entidade que tenha um fim público e não privado, e esta ocupação de espaço vem acontecendo em diferentes campos. Hoje diversos quadros que passaram pelo processo de formação do Fora do Eixo ocupam espaço no poder público e em outras associações». [36]

juniorcubeDo acesso ao crédito financiado pela própria organização, o Cubo Mágico conseguiu estruturar todos os serviços e activos necessários para a produção musical, mas é através da reprodução deste modelo económico que o Fora do Eixo estimula a criação dos Pontos Fora do Eixo, expandindo-se em rede no estilo de «open franchising» ou franquia social. Para pertencer ao Circuito Fora do Eixo é preciso não só obedecer a um regulamento interno e aderir a uma carta de princípios, mas também integrar o Fundo Nacional do Fora do Eixo. A sua actuação nas políticas públicas tem como objectivo ampliar e sustentar este modelo de negócios, que coloca nos carris [trilhos] da iniciativa privada a produção cultural.

Mas as afinidades e semelhanças com o Estado capitalista não se limitam à circulação da moeda, ao controlo do mercado, à estrutura de poder e ao discurso ideológico. O Circuito Fora do Eixo realizou a sua primeira «Parceira Público-Privada»: «Em 2010 foi estruturado o Toque no Brasil, primeira parceria público-privada do Circuito Fora do Eixo. Essa estrutura permite diferentes formas de captação e interação com o mercado. O site está atuando com uma área comercial para captação de clientes (tantos produtores quanto bandas) e de parcerias intitucionais [sic]» [37]. Esta foi a primeira iniciativa de captação de recursos privados pelo Núcleo de Negócios do Circuito.

Ainda segundo o mesmo relatório, o «TNB [Toque No Brasil] vem se organizando juridicamente num sistema híbrido privado, adotando as naturezas jurídicas com e sem fins lucrativos entre uma Associação e uma Empresa Social. O esquema permite a ampliação da captação de recursos para a rede.»

Afinal, e colocando tudo em termos simples, o sistema montado por Capilé converteu-o num promotor de eventos que ele não paga. Na avaliação de Anderson Foca, organizador do festival DoSol e integrante do Circuito Fora do Eixo, «Banda não tem que “ganhar” cachê [cachet] como se isso fosse um prêmio dado por serem “artistas”. Deve sim conquista-lo por mérito e por lastro (cada um vale o quanto leva)» [38]. Este mito meritocrático de origem liberal tem como função encobrir um processo em que o Circuito Fora do Eixo usa o artista em eventos que não paga, mas estes eventos permitem ao artista rentabilizar a sua imagem e ser pago depois por quem quiser comprar a sua prestação de artista já conhecido. Trata-se de uma espécie de crédito lançado sobre o futuro, só que quem pagará os juros e o principal deste crédito não é o Fora do Eixo, mas os empresários que aparecerem mais tarde para adquirir a mercadoria entretanto promovida.

A grande descoberta desta empresa é o valor económico de um espectáculo que, para ela, é gratuito — não o paga, mas apropria-se da imagem criada e rentabiliza-a. Se o capital é uma relação social mediada por coisas, o que a empresa de Capilé faz é criar a relação social em torno de algo que já existia e que até esse momento escapara ao mercado e à dinâmica da rentabilização.

5869853337_14cbf2f874_b1O mesmo poderá suceder agora às Marchas da Liberdade, com a tentativa do Fora do Eixo de as inserir no seu circuito empresarial. Se isto se verificar, as marchas correrão o risco de servir apenas para promoção e valorização, acelerando a acumulação de um capital que não é simbólico nem virtual, mas muitíssimo real. Uma «plataforma de difusão» é como Capilé e o Fora do Eixo vêem a sua actuação dentro dessa mobilização, destinada a encaminhar para o PCult [39] novas conexões de agentes que até então eram «estranhos».

Parece-nos que já nos alongámos bastante sobre o mundo destes negócios. Mas teremos dito o suficiente? Será que teremos mais coisas a acrescentar sobre os aspectos económicos e políticos do Fora do Eixo?

(Continua aqui)

NOTAS

[1] «o impulso fundamental que põe e mantém em funcionamento a máquina capitalista procede dos novos bens de consumo, dos novos métodos de produção ou transporte, dos novos mercados e das novas formas de organização industrial criadas pela empresa capitalista». Schumpeter, Joseph, Capitalismo, Socialismo e Democracia (trad. Ruy Jungmann), Rio de Janeiro: Fundo de Cultura S.A, 1961, pág. 105.

[2] Uma tecnologia de cópia e distribuição em larga escala não é por si só sinónimo de socialismo. Veja-se, por exemplo, a imprensa de Gutemberg. É necessário transformar as relações sociais de produção.

[3] Acresce o facto de alguns destes colaboradores técnicos do movimento antiglobalização terem um duplo papel social, quer vendendo a sua força de trabalho quer usando o seu activismo técnico para melhorar o desempenho das empresas. Em comunidades tradicionais é comum o roubo da propriedade intelectual por laboratórios e pela indústria farmacêutica.

[4] Lemos, Ronaldo e Castro, Oona. Tecnobrega: o Pará reinventando o negócio da música, Rio de Janeiro: Aeroplano, 2008 (Tramas Urbanas; 21).

[5] Que fique claro. Há aqueles que entendem que a «cultura livre» deve ser livre de exploração. Mas, ao mesmo tempo, não se formou um campo de luta anticapitalista que divirja do discurso e da prática hegemónica que aqui analisamos, isto é, que proponha escapar ao afunilamento empresarial deste discurso. Tal aliança tática amarrou ativistas a empresários e impediu até agora que se avançasse no combate às novas formas de exploração. As manifestações recentes demonstraram que combater a velha exploração ignorando o novo é fortalecer a ascensão da nova classe gestorial — quer na disseminação e hegemonia do discurso quer no plano prático, com o fortalecimento do capital simbólico contra a elite arcaica.

[6] Só foram possíveis e criadas pela lógica da acumulação do capital, através da exclusão não só territorial de acesso a cidade, como também através da negação dos bens culturais, dos direitos sociais e, principalmente, da distribuição de renda. Somente com a marginalização puderam surgir esses novos fenómenos culturais. E, no momento de crise, procuram extrair proveito dela e pôr em circulação os seus bens culturais.

[7] A aproximação da Petrobras relativamente a iniciativas e movimentos das diferentes ramificações ideológicas — e até das esquerdistas, como a Via Campesina — deve-se a uma guinada através do marketing social para, em primeiro lugar, ocultar o seu papel imperialista enquanto companhia transnacional — não faltam movimentos sociais na América do Sul para denunciar a «pilhagem» de recursos naturais — e, em segundo lugar, como «compensação social» para os desastres ambientais. E ainda sem falar no despedimento [demissão] de sindicalistas após a derrota da greve durante o governo de Fernando Henrique Cardoso.

[8] Como parece ser o caso deste artigo recente sobre o Circuito Fora do Eixo na Revista Trip: “Ministério da Cultura”.

[9] Leia mais em «Caçadores do Cool» .

[10] Esta outra campanha recente do mesmo Banco Itaú é também exemplar desse marketing. Marco Luque em Ed O Nerd: meus milhõezinhos.

[11] Gilberto Gil, «Mensagem de Saudação do ministro Gilberto Gil no lançamento do Fórum de Investidores Privados em Cultura», 23 de Abril de 2007.

[12] Recentemente a versão electrónica do brega voltou à parada nacional com a banda Calipso, sem nenhuma major por trás.

[13] Lemos, Ronaldo e Castro, Oona. Tecnobrega: o Pará reinventando o negócio da música, Rio de Janeiro: Aeroplano, 2008 (Tramas Urbanas; 22).

[14] Id., ibidem, pág. 109.

[15] Id., ibidem, pág. 72.

[16] Id., ibidem, pág. 72.

[17] Id., ibidem, pág. 107.

[18] Id., ibidem, pág. 107.

[19] Id., ibidem, pág. 53.

[20] Id., ibidem, págs. 83-84.

[21] Id., ibidem, pág. 44.

[22] Id., ibidem, pág. 92.

[23] Espaço Cubo: “Não usa o nome da minha empresa”.

[24] «Pablo Capilé – Articulador do Circuito Fora do Eixo» – entrevista realizada por Sergio Cohn, maio de 2010, Produção Cultural no Brasil – disponível online.

[25] ibidem

[26] ibidem

[27] ibidem

[28] ibidem

[29] ibidem

[30] «no final de 2003, quando eu vi a galera toda em vez usar seus cards para ensaiar, gravar, ter assessoria de comunicação, estava usando para tomar cerveja». «Pablo Capilé – Articulador do Circuito Fora do Eixo» – entrevista realizada por Sergio Cohn, maio de 2010, Produção Cultural no Brasil.

[31] O presidente eleito da Abrafin, Talles Lopes está oficialmente afastado das atividades do Fora do Eixo, mas segue os seus princípios e modelo de gestão.

[32] «Pablo Capilé – Articulador do Circuito Fora do Eixo» – entrevista realizada por Sergio Cohn, maio de 2010, Produção Cultural no Brasil.

[33] Vejamos a opinião de Fernando Catatau, guitarrista da banda Cidadão, que, de facto instigado, bate de frente com a organização: «Acho esses festivais e a entidade que os organiza [Abrafin] uma máfia. São sempre as mesmas bandas e toda vez que nos chamam é pra fazer show quase de graça. Não tenho mais idade pra desvalorizar a minha música. Até brincamos entre a gente que vamos fazer a Abramim — Associação Brasileira dos Músicos Independentes». Ver entrevista na revista Rolling Stones aqui e a matéria sobre os festivais.

[34] «Pablo Capilé – Articulador do Circuito Fora do Eixo» – entrevista realizada por Sergio Cohn, maio de 2010, Produção Cultural no Brasil.

[35] «Diário Oficial FdE»: «Do total de 10 festivais aprovados no Brasil no Programa Petrobrás Cultural, 6 estão na Abrafin e no Fora do Eixo. São eles Quebramar (AP), DoSol (RN), Goiania Noise (GO), Se Rasgum (PA), Varadouro (AC) e o Festival Contato (SP) – organizado pela UFSCAR e sede do Congresso Fora do Eixo 2011».

[36] Talles Lopes em entrevista para o blog Rock em Geral.

[37] Diário Oficial FdE – Compacto. Tec Fundo FDE 2010. Disponível no site Diário Oficial FdE.

[38] Esse trecho é a resposta de Anderson Foca nos comentários deste site.

[39] O Partido da Cultura, o PCult foi criado durante a época da gestão de Juca Ferreira no Ministério da Cultura – assim fica corrigido o lapso no artigo «A esquerda fora do eixo» -, com o objectivo de associar e eleger deputados de diferentes partidos sob a plataforma de «apoio à cultura» para destinar verbas para o «sector cultural». Cria-se assim uma base para aprovação de emendas orçamentárias do interesse do grupo.

Sair dos eixos à esquerda (1) – Quadrado dos Loucos

Tenho acompanhado o debate iniciado pelo coletivo Passa Palavra com o artigo A esquerda fora do eixo. Desde a sua publicação, em 17 de junho, repercutiu em cerca de uma dezena de bons textos pela blogosfera. Há tempos não suscitava uma discussão tão aberta e provocativa, ao redor de um tema candente para a esquerda. Ponto para o Passa Palavra. Discute-se algo crucial: como organizar-se politicamente, como mobilizar-se de modo expansivo, como fazer a luta de maneira coordenada, potente e eficaz?

Neste artigo, que pretendo o primeiro de uma série, proponho-me a pensar ao contrário. Em close reading, repassar e problematizar os principais textos produzidos sobre o assunto.

Começo com o artigo inaugural e, no próximo, passo à réplica de Ivana Bentes, publicada no portal Trezentos.

I. A esquerda fora do eixo“, Passa Palavra, 17/06/2011

É pertinente a preocupação crítica com a burocratização e aparelhamento dos movimentos, que assim vão distanciando-se das forças sociais vivas, caindo numa lógica autofágica e, no limite, reinscrita no sistema de controle e exploração capitalistas. Acertada a preocupação crítica também ante os riscos de cooptação de movimentos sociais/ONGs/coletivos, quando o ativismo se aproxima demais, amiúde aliando-se às empresas e ao estado. Ao dissociar meios e fins, o velho dilema tática x estratégia geralmente encobre a domesticação, engessamento e eventual pacificação do movimento. No âmbito da organização do trabalho, costuma ser fatal. Disso já se sabe desde o exame por sociólogos marxistas do sindicalismo de modelo japonês, toiotista. Seduzidos pelo ideal de desenvolvimento e inovação tecnológica, tais sindicatos promoviam a ideologia da empresa, o esforço conjunto de chefes e operários, um modo de vida conciliado para o bem de todos. O sindicato acabava fortalecendo a divisão social do trabalho, em vez de denunciá-la e combatê-la. Esse modelo de organização se difundiu e está presente na maioria das empresas hoje (com muita incidência nas multinacionais), e se reflete na expectativa, num sistema de cobranças e gratificações, em que toda a vida do funcionário — como se veste, onde mora, o que consome, como se comporta, como se relaciona — deve estar, em última análise, subsumida à imagem coletiva da empresa. A moral da empresa (a “carreira”) se estabelece como dimensão principal do indivíduo.

De modo geral, compartilho com o artigo a percepção que a emergência de nova composição política nas lutas não deve afastar uma autocrítica quase jesuítica. Com muita razão, toda nova forma de organizar e resistir está exposta ao capitalismo. O modo de produção dominante e global não cessa de identificar essas novidades e passará a tentar reapropriar-se das dinâmicas. Se os novos grupos político-culturais se esforçam em constituir espaços alternativos à indústria hegemônica, ao mercado dominante e ao emprego formal subordinado; não devemos ser ingênuos, tudo isso também se torna alvo preferencial para a investida capitalista. Nessa linha, o Passa Palavra dá um recado útil: não sejam tão otimistas com o novo, não alimentem a ilusão que estão na crista da onda da história — como se a luta de classes tivesse terminado na ilha dos bem aventurados pós-modernos.  Isso não existe. A luta por autonomia, por libertação do trabalho e pelo trabalho, continua inclusive por dentro da cultura livre, das redes produtivas e das marchas das liberdades. Se o trabalho imaterial e cultural se coloca no centro da economia política, tanto mais será o palco das disputas.

O que se deve ressalvar ao Passa Palavra, contudo, é que reconhecer a ambiguidade dos movimentos 2.0 não pode significar desqualificá-los, nas linhas ou entrelinhas, como genéricos, vagos, vendidos, desviantes. Incomoda naquele artigo o apelo à tradição da “esquerda em geral”, o que me parece um argumento de autoridade. Aborrece a insinuação que tais lutas, talvez por contarem com “setores da classe-média”, estariam desviando-se da linha justa. Em um ou outro ponto, fica parecendo que os autores trazem um marxímetro à mão, — ou então inventaram um novo teste de tornassol, que, sem maiores análises, revela quem é de esquerda e quem de direita. O mundo real é mais complexo e acontece em cores. É preciso diferenciar rancor de rabugice.

Existem, — e é indisputável, — esquerda e direita, — porém jamais sem ambiguidades, vaivéns, contradições, contágios, pontos de fuga, estabilizações e rupturas. Perceber as contradições e aproveitá-las no sentido da libertação — eis aí uma boa tarefa crítica, logo, tarefa de militante, que é o portador do método “científico”. Marx dixit. Sou da opinião que a esquerda só pode ser potente — isto é, perseverar esquerda — quando reconhece a sua heterogeneidade. Quando admite a diferença em seu seio: a possibilidade de lutar por muitas pautas, sem perder de vista as opressões, explorações e expropriações do capitalismo. Multiplicar as lutas sem cair na cacofonia, e orquestrar-se como polifonia.

Portanto, por serem tão produtivas, tão inovadoras, tão vivas, por produzirem e circularem tanto valor, exatamente por essas redes político-culturais autônomas (ou semi-autônomas) darem tão certo, que as empresas engordam o olho e mostram as suas garras sobre os novos terrenos da produção e do trabalho vivo. Se não valessem nada, ninguém iria querer. O capitalismo sabe bem que o mundo se tornou 2.0, então não pode a esquerda ficar pra trás, muito menos renunciar ao campo. É por isso que a indústria cultural e a aristocracia “artística”, aliás, tomaram de assalto o ministério da cultura no governo Dilma, para ir contra essas dinâmicas de libertação. Pois de tão produtivas e autônomas, os ameaçam. Isso não afasta o fato que o capitalismo veio depois, num segundo momento, pra se apropriar das novas lutas e novos movimentos, para torcer o sentido à direita, para cooptar a organização e reconfigurar a composição técnica do trabalho. E daí as lutas, as marchas, as disputas teórico-práticas, tudo isso que resiste. Porque nunca houve pureza, nem se diz isso, nem ninguém proclamou sovietes e internet!. Ao redor das novas redes produtivas e da revolução 2.0, existe e continuará existindo antagonismo, noutras palavras, luta de classe: trabalho x capital, esquerda x direita, liberdade produtiva x comando, expropriação e controle social. O caso, então, em vez de considerar a batalha perdida de antemão, só pode ser mesmo resistir: o que também significa autocrítica, esquiva, reinvenção, reconstituição.

Se o Fora do Eixo, bem como todos esses movimentos de composição nova, — e se pode incluir aí, guardadas as particularidades, Túnis e Tahir no norte da África e o 15-M na Europa, — se eles terminarem capturados pelo capitalismo, terá sido a gente, a esquerda, que os perdemos, quero dizer, nós teremos perdido. Mas não perdemos, porque a luta continua com eles, através deles e neles.

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Próxima resenha, em breve: A esquerda nos eixos e o novo ativismo, Ivana Bentes, 22/06/2011

Domingo na Marcha (2ª parte)

Retirado de http://passapalavra.info/?p=41710

26 de Junho de 2011

A “geração 2.0″ não nos é estranha; é quando tiram dela o “rancor” que ela se transforma em estranha mercadoria. Por Passa Palavra

Pelo fato de reivindicarmos a herança de séculos de lutas e a criticarmos com liberdade, já fomos acusados de tudo. Certa esquerda tradicional, com as mesmas palavras-de-ordem do século XX, diz que não devemos puxar certos debates, que não podemos tratar de certos assuntos em público – exatamente os assuntos que dizem respeito às formas de dominação sobre aqueles à custa de quem constroem seu capital político. Por isto não nos espanta que críticas semelhantes nos sejam dirigidas não pelos jovens em luta, pelos jovens da rua, mas por aqueles que, tendo sido um dia jovens que localizaram muito rápido o caminho das pedras do poder político e econômico, e incapazes de refletir criticamente sobre aquilo que faz deles mesmos diferentes desta esquerda tradicional, ocupam nas lutas o mesmo lugar daqueles dinossauros, daqueles limitados a quem tanto criticam. Temos medo do novo e somos teoricamente limitados, é o que nos dizem. E isto que nos dizem, nos é dito tendo como base exatamente a mesma herança que reivindicamos – embora a vejamos de lugares diferentes, por sinal diametralmente opostos. Para sair desta geleia geral, é preciso que nos expliquemos, mais uma vez.

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Contracultura pode parecer coisa nova, mas é velha como andar para a frente – tal como sua cooptação. O romantismo do final do século XVIII e início do século XIX; o dandismo dos primeiros anos do século XIX e a boemia do final deste século; os dadaístas e toda a “geração perdida” no início do século XX; os beats no final da década de 1940; no início da década de 1960, os opostos mods/rockers (Inglaterra), blousons noirs/blousons dorées (França), dijkers/pleiners (Holanda) e beatniks; todos são movimentos contraculturais. Alguns deles, mais especificamente, são movimentos contra o capitalismo, contra alguns de seus aspectos, mas que, em geral, tomam o caráter de movimentos arcaizantes, cultores de aspectos mitificados de um passado pré-capitalista deslocados de sua História. O dandismo, por exemplo: contemporâneo dos primeiros passos da industrialização, foi a apropriação estética por parte de jovens burgueses da Inglaterra e da França da vestimenta, dos trejeitos e do modo de vida dos aristocratas do Ancien Régime; mesmo as simpatias do lucidíssimo Oscar Wilde com o socialismo não foram outra coisa além de passos necessários para a constituição do Individualismo (com “I” maiúsculo). Os beats e beatniks cultuavam  não apenas o improvisado e o onírico, mas também o místico e o oculto, e alguns se tornaram verdadeiros reacionários; ao contrário do budista praticante Allen Ginsberg e de William Burroughs, imersos – cada qual a seu modo – em todo movimento cultural (e contracultural) posterior aos beats, o genial Jack Kerouac – depois de anos sentado no sofá da casa da mãe vendo programas de auditório na TV, barrigudo, alcoólatra e reacionário, afastado de seus companheiros de geração beat e odiando cada cabeludo que via pela frente – diria ser, em certo momento, “um estranho e solitário católico louco e místico” que não conhecia “nenhum hippie” pois “eles pensam que sou um motorista de caminhão”.
Roube este livro

Nenhum destes assemelha-se, de qualquer maneira, ao que vem a ser a geração que, a partir dos anos 1960, questionou radical e diretamente o modo de vida da sociedade fordista, em quase todos os domínios da vida social. Esta contracultura não se esquivou de certos confrontos e de certas alianças. Tomemos o exemplo de Abbie Hoffman. Não obstante a teatralidade e ludicidade típicas de sua política na fase do Youth International Party, publicou em 1971 Steal this book; além da incitação direta (“Roube este livro”), a obra continha conselhos sobre como plantar maconha, viver numa comunidade alternativa, roubar comida, furtar lojas, afanar cartões de crédito, fazer bombas e conseguir armas. Os ativistas da contracultura da época eram ao mesmo tempo teóricos, agitadores culturais e construtores de barricadas – como Rudi Dutschke, Alain Geismar e Dany Cohn-Bendit bem o demonstram. E sabiam muito bem que suas lutas estavam umbilicalmente ligadas não apenas às lutas de minorias, mas principalmente àquelas da mais ampla maioria. Não se tratava apenas, como analisaram certos pós-estruturalistas, de lutas travadas por grupos minoritários de trabalhadores, de mulheres, de expressões sexuais, de grupos étnicos etc., que não compartilhavam dos modos de expressão e dos valores da maioria e organizaram-se para fazer valer seus modos de expressão e valores e, a partir daí, colocar questões que alcançassem e interferissem nos modos de expressão e valores da maioria; tratava-se, sim, das lutas destas minorias, mais visíveis, e também das lutas invisíveis da mais ampla maioria pela transformação radical da sociedade – ou seja, de lutas revolucionárias, no mais forte sentido da expressão.

"O direito burguês é a vaselina..."

Não por acaso o Maio de 1968 na França tomou as proporções que tomou. Não houve apenas um Maio de 1968, mas um Maio-Junho de 1968, a maior greve geral da história da França, em cujo apoio os estudantes radicais se concentraram, deixando a Sorbonne aos situacionistas (e seus telegramas inócuos) e partindo para a periferia operária do norte de Paris onde, ao lado dos grevistas, se bateram com os policiais e contra os burocratas sindicais. Só depois começou a se falar do Maio, para apagar a memória do Maio-Junho. Mais radicais ainda foram os trabalhadores chineses durante a Revolução Cultural, que sequer precisaram destes agitadores para perceber a enorme contradição entre o projeto dos burocratas do Partido Comunista, de promover apenas uma renovação nos quadros da burocracia, e seu projeto de uma China construída a partir de uma federação de comunas nos moldes da Comuna de Paris, com dirigentes livremente eleitos e revogáveis. Vale o mesmo para os trabalhadores de Praga, para os estudantes mortos no Massacre de Tlatelolco, para os estudantes e trabalhadores italianos que ocuparam fábricas em 1969 e passaram toda a década seguinte em luta… Não é esta, por exemplo, a história do mesmo Cesare Battisti por cuja libertação tantos – entre os quais nos contamos desde o início – se bateram?

Jane Alpert procurada pelo FBI: o rancor na geração 68

Esta geração, embora contasse também com inegáveis elementos arcaizantes, foi a responsável pela mais profunda crítica prática à tecnocracia – influência tanto de seu próprio modo de vida quanto das leituras dos comunistas de conselhos, dos anarquistas, dos frankfurtianos, de marxistas críticos como aqueles agrupados na revista Socialisme ou Barbarie, dos primeiros representantes da new left etc. Foi também, infelizmente, a primeira cujos mais visíveis representantes converteram-se muito rapidamente em candidatos ao status quo, a fazer parte desta mesma tecnocracia que tanto criticaram. Dany Cohn-Bendit, ele próprio tornado parlamentar europeu décadas depois, fez em 1988 o balanço desta geração em Nous l’avons taint aimée, la révolution: Jerry Rubin transformado em executivo yuppie; Bobby Seale, ex-Pantera Negra, transformado em cozinheiro filantropo; Roel van Duyn e Rob Stolk, ex-Provos e ex-kabouters, transformados em políticos “verdes”; isto enquanto gente como Jane Alpert, Hans-Joachim Klein e tantos outros era obrigada a esconder-se como cães escorraçados por haverem lutado de armas em punho e bombas à mão contra o “sistema” – do contrário, seriam presos até sabe-se lá quando. Salvou-se Rudi, assassinado aos poucos.

Deleuze, Sartre e Foucault em conferência do Groupe dInformation sur les Prisons (GIP) de 1972

É a esta geração que se vinculam alguns de nós. Os muros das fábricas não caíram de velhos, não. Se ruíram, foi porque a luta dos trabalhadores, em especial de sua geração mais jovem, demonstrou na prática os limites da sociedade fordista, numa ponta, e da superexploração nos países do assim chamado “Terceiro Mundo”, de outro. Estes jovens trabalhadores mostraram também os limites de toda luta que não fosse internacionalizada, que não contasse com apoio e solidariedade ativos por toda a parte. Sabemos de onde viemos e não andamos por aí a esquecer nossa história – que, afinal, é a de nossas próprias vidas – em nome da mais recente moda intelectual. Para aqueles do PassaPalavra que estavam em Paris nos meses da agitação revolucionária – e podemos dizer “aqueles” no plural – Foucault, Deleuze, Guattari e tantos outros pós-estruturalistas não são representantes dos meses de Maio-Junho de 1968, mas representantes do fim destes meses: isto era tão evidente para todos que se alguém na altura pretendesse o contrário só receberia gargalhadas em troca. Esses teóricos geraram-se e proliferaram nas ruínas de uma sociedade possível que os radicais de pouco antes haviam pretendido construir, e serviram para erguer um biombo que escondesse a possibilidade desta alternativa.

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São Paulo, 20 de abril de 2001: Ah-ha, uh-hu, a Paulista é nossa!

A dita “geração 2.0” não nos é estranha, muito pelo contrário. Outros dentre nós que integramos o PassaPalavra foram despertados para a militância pelo chamado à solidariedade internacional feito em 1994 pelos zapatistas – estes que, mesmo apropriados pelos pós-modernos como ícones, não se esquecem que tomar os meios de produção é fundamental para avançar qualquer luta anticapitalista, “minoritária” ou não. Alguns dentre nós participaram ativamente dos movimentos antiglobalização que antecederam as lutas em Seattle (1999) e ultrapassaram os limites impostos pela brutal repressão em Gênova (2001).

Somos nós o cognitariado; somos nós os que produzem com base no saber sobre as “novas tecnologias comunicativas”. É ele, transmitido de boca a ouvido ou de tecla a tela, quem nos permitiu estar lado a lado com tantos condenados da terra e apoiá-los em suas lutas enquanto vivíamos as nossas próprias. Por outro lado, somos nós o precariado; por opção política ou por total falta de oportunidade, também somos nós os que pulam de emprego em emprego, de bolsa em bolsa, de ONG em ONG, de bico em bico, sem futuro, sem expectativas, sem chances, sem nada. Nós não somos, nem agimos, nem vivemos, nem nos vestimos mais como aqueles trabalhadores que conhecemos quando pequenos – estes que eram nossos próprios pais – mas nem por isto deixamos de ser explorados. De um lado do Atlântico somos a geração à rasca; do outro, somos os que sabem por experiência própria que as promessas do pleno emprego jamais se cumprirão outra vez. É isto o que nos impele a lutar.

Seattle, 1999: rancor 2.0?

Nossa geração, de certa forma, continua e aprofunda lutas que aquela geração dos anos 1960 iniciou. Squats, okupas, pequenos coletivos e organizações, antes isolados ou com baixa capacidade de integração além daquilo que seus integrantes poderiam alcançar com os meios de que dispunham, contaram a partir de meados da década de 1990 com uma poderosíssima ferramenta de luta: a internet, ainda em sua versão “1.0”. Através dela – mas não somente – integramos articulações como a Ação Global dos Povos, de cujos Dias de Ação Global participamos ativamente em São Paulo, Salvador, Fortaleza e tantas outras cidades do país. O contato com formas de ativismo e militância inauditas no Brasil da época – tutte bianchi, autonomen, adbusters, Reclaim the Streets, Earth First!, black block, Ruckus Society, Direct Action Network etc. – e com movimentos sociais de base mundo afora – zapatistas, CNT, Tinki Huasi, CONAIE, Federação Krishok, COBAS, CGT, as Seis Federações do Trópico, Tino Ragantirotanga etc. – nos deu experiência para tocar iniciativas de produção de mídia, a apoiar os movimentos sociais que, como hoje, viviam pesada repressão e dar início a formas de protesto e a movimentos sociais que expressassem tudo aquilo que vivíamos e desejávamos.

Jerry Rubin 1968/1985

Ocorre que a rebeldia de décadas atrás já havia sido transformada em valor positivo no seio do próprio capitalismo – que, não esqueçamos, é dentre os modos de produção aquele único que necessita de constante renovação e destruição de aspectos de si próprio para seguir existindo. Na medida em que muitos daqueles que nos antecederam e outros daqueles com quem convivemos já haviam passado para o outro lado da trincheira, surgiram profissionais especializados em perceber nosso “ser” e nosso “fazer” para transformá-los em mercadoria – os cool hunters, praga espalhada por todos os cantos com vários nomes, não raro agindo em segredo para captar para dentro da produção capitalista aquilo que antes se lhe opunha. Eles são o aspecto mais evidente de uma inversão que se dá hoje na velha indústria cultural. Se antigamente a mais-valia para ser realizada precisava da audiência e dos olhares, isto é, para vender aquele artista do catálogo eles precisavam do jabá e de toda essa estrutura, a tendência da indústria cultural hoje é justamente a inversa: monetizar a partir do produto cultural que atraiu os olhares, mesmo quando produzido fora de suas cadeias produtivas principais. Veja-se, por exemplo, como a própria noção de interatividade na internet – boa invenção da contracultura digital materializada, entre outros lugares, na rede Indymedia – serve hoje, extirpada de sua radicalidade, ao mercado: demonstra-o, mais banalmente, o sucesso que hoje fazem certos vídeos postados no YouTube quando incorporados nos programas de TV. Os cool hunters e seus congêneres de hoje não precisam mais ser profissionais; basta estar “antenado” e vender sua ideia. Como se vê, conversões como a de Jerry Rubin hoje são fichinha.

Do berço à cova

E assim bailamos a dança de São Vito conosco próprios. Como o capital é uma relação entre pessoas mediada por coisas, ao mesmo tempo em que lutamos contra tais relações, somos não raro obrigados a fazê-las funcionar; na medida em que agimos e criamos novas formas de viver, elas logo são incorporadas como mercadoria. Vivemos esta contradição em nossa própria carne com aquilo que produzimos, mas sabemos bem de que lado estamos e quem queremos ter ao nosso lado na luta contra o capitalismo, que não é outra coisa além de luta entre classes; é isto que nos orienta e nos leva a criar todas as dificuldades possíveis à apropriação e mercantilização daquilo que produzimos. A luta contra a propriedade privada dos meios de produção se dá também no campo da produção da cultura digital, e por isto mesmo estamos em constante alerta contra qualquer forma de concentração de meios de produção cultural digital nas mãos de poucos – mesmo quando estes parecem multidão. Alguns tentam, com a desculpa da “imanência”, de que “só existe este mundo aqui”, sair desta esquizofrenia em que todo movimento anticapitalista hoje se vê enfiado. Não veem que estas são exatamente as justificativas daqueles que querem quantos novos mundos possíveis criemos para transformá-los naquilo que não são nem nunca se quis que fossem? (Na verdade, talvez o vejam bem até demais; aí seríamos nós os ingênuos, mas já é outro papo, bem mais grave.)

Antonio Negri (na frente, à direita) nas ruas pelo Poder Operário

Por isto, aquilo de que falam Negri, Bifo, Virno, Lazzarato, Bologna, Marazzi e outros tantos pós-operaístas deslumbrados com os Grundrisse de Marx é exatamente o que vivemos, nós mesmos, em nossas carnes, bem antes que escrevessem sobre isto. Só viemos a conhecê-los fora de seus restritos âmbitos de atuação quando Império fez de Negri pop star do jet set intelectual internacional e levou-o a palestrar para o Ministério da Cultura em 2005. Quem mais precisa destes teóricos não somos nós, mas certos acadêmicos burocratizados e descolados das lutas, incapazes de ver o que se agita diante de si sem os óculos da teoria ou interessados nesta agitação para transformá-la em mais uma mercadoria; ou aqueles que, surgidos de nossa própria geração, pretendem encobrir com palavras difíceis sua conversão ao status quo. (Na verdade, quando Negri, exilado em Paris, apresentou em 1978 sua leitura dos Grundrisse em nove seminários na École Normal Supérieure da rue d’Ulm, falou para gente bem parecida conosco próprios e apresentou os rascunhos de Marx como um texto “dedicado à subjetividade revolucionária” que articula “uma apreciação das possibilidades revolucionárias criadas pela ‘crise iminente’ com a vontade teórica de sintetizar adequadamente as ações comunistas da classe trabalhadora frente à crise”. Isto posto, é bastante sintomático que alguns epígonos do operaísmo e do pós-operaísmo não retenham este conteúdo classista e prefiram as fugas linguísticas.)

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Apoiar as lutas

Como se vê, para nós a prática antecede a teoria. Ou, melhor dizendo, para não colocarem palavras erradas em nossas bocas: não nos interessam os termos abstratos e irreais em que tal oposição tradicionalmente é apresentada, mas estes outros, mais duros porque concretos: não há teoria que não seja reflexão sobre lutas concretas, reais, vividas, sentidas na pele e narradas por aqueles que lutam, enquanto lutam. Por isto mesmo, dizemos estar aqui para “noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas”. E é o que temos feito desde publicamos nosso primeiro artigo em 2 de fevereiro de 2009.

Os limites do fordismo colocam-se para nós não através de leituras do teórico A, B ou C, mas através da luta dos terceirizados, tidos como invisíveis – enquanto estiverem trabalhando, óbvio; da análise crítica das compensações para aqueles que jamais conseguirão retornar ao patamar de renda proposto pelos métodos fordistas clássicos de contenção dos conflitos sociais; da luta dos migrantes, que agora também estão no Brasil – país que hoje decola rumo a uma versão renovada do projeto “Brasil Potência” de décadas atrás, sobre o que pouco se tem refletido criticamente. Não reconhecemos tais limites desde hoje ou ontem, nem tampouco o fazemos apenas pela perspectiva da crítica às novas formas de exploração, mas também pela das críticas às velhas formas de luta, que mantemos desde muito tempo e não abandonamos. As velhas formas de exploração, que também criticamos, não morreram, muito pelo contrário; não há “tradição inventada” que nos faça esquecê-las, mesmo quando se dão nos lugares mais inusitados.

passeata-periferia-luta2E para nós não se trata apenas de acompanhar as lutas quando rebentam, mas também de conhecer e divulgar as expressões culturais que nelas surgem; o cotidiano dos que lutam e dos que, entediados e angustiados, ainda não o fazem; o fazer artístico do dia a dia e as plataformas políticas que só a intuição poética pode oferecer… É só a partir disto, e não de qualquer leitura abstrata ou diálogo afável, que nos é possível conhecer a mercantilização da cultura e sua crítica, feita por todos os meios necessários. Para nós, “periferias” não são sujeito das lutas, mas sim o território onde trabalhadores, qualquer que seja o adjetivo que se lhes dê, lutam contra a paz dos cemitérios que as classes dominantes lhes querem impor, de armas em punho, sobre os cadáveres de inocentes. Lá onde também se luta contra o autoritarismo nas escolas e contra as tarifas abusivas dos transportes, é lá onde preferimos estar.

movimentos-61

Nossa própria história de militância demonstra que acampamentos e “revoluções 2.0” não nos são estranhos – embora sobre eles nos demos o direito de divergir em um aspecto ou outro. Acompanhamos a “Primavera Árabe” e outras formas de manifestação na África (Marrocos, Angola, Tunísia, Egito, Bahrein etc. e mesmo lutas esquecidas como as que ocorrem na Costa do Marfim). Vimos nestas lutas o grande potencial das mídias interativas sempre que usadas para garantir a mais ampla autonomia e horizontalidade no seio das lutas. Isto nada mais é que a retomada de práticas que alguns de nós viveram sob outras formas no passado, e que outros de nós viveram há poucos anos e vivem ainda em outras situações.

Amarração 2.0?

É esta experiência que nos leva a ter os dois pés atrás com certo “ativismo 2.0” – da qual o coletivo Fora do Eixo é apenas um exemplo pontual, pois nele se incluem também inúmeros coletivos “artivistas” locais enredados na malha dos Pontos de Cultura, organizações como o Partido da Cultura (PCult) e ONGs como a Casa da Cultura Digital e Instituto Overmundo – que concentra saber e poder e, sob a desculpa de produzir novos modos de “viver” e “fazer”, cria nichos de mercado, domina técnicas de acesso a recursos públicos e pretende agora ter legitimidade social usando as Marchas da Liberdade como meio. Isto, evidentemente, desde que consigam antes esvaziá-las de qualquer conteúdo potencialmente conflituoso como a luta contra a repressão policial e a luta pela tarifa zero para enfim transformá-las nas “ilhas dos rancores proibidos” de um “arquipélago Gulag do pós-rancor”. Guardadas as devidas proporções e os diferentes tipos de capital que mobilizam, agem como certos sindicalistas que usam manifestações de trabalhadores e convenções coletivas tanto para rentabilizar certas operações financeiras que realizam através dos sindicatos quanto para viabilizar novas formas de arrecadação (contribuição confederativa, seguros de vida coletivos intermediados pelo sindicato, comissões de conciliação prévia etc.). Enquanto para os sindicatos vale o capital na forma de dinheiro antes de qualquer coisa – afinal, são “analógicos” – no caso das Marchas o que se mobiliza também é o capital simbólico, ou seja, o prestígio de terem sido organizadores de tal movimento e de terem-lhe dado tal ou qual rumo, ou mesmo nenhum; isto lhes será útil nas futuras disputas com uma gestão do Ministério da Cultura que agora, circunstancialmente, lhes é hostil e ameaça quebrar o novo modelo de “mercado da cultura” em cuja instituição trabalham ativamente. Justo eles, os “modernos”, os “digitais”, a guardar tantas semelhanças com estes ultrapassados trambolhos “analógicos”!

O tom com que iniciamos o debate foi, como se viu e como se vê, tão duro quanto duro precisou ser o próprio debate; do contrário, lá estaríamos nós, diante destes adversários, dizendo como poderiam fazer para apagar exatamente aqueles aspectos que fazem deles exatamente o que são – e, por tabela, servindo-nos de bandeja não à antropofagia, mas à fagocitose que lhes assegura a sobrevivência ameboide no “mercado das ideias”. E é neste mesmo tom que seguiremos debatendo. Como se vê, não negamos a produção cultural digital e o uso de novas tecnologias em favor das lutas sociais. Do contrário, nós que fechássemos o PassaPalavra em nome da coerência, pois dizemos em nossos Pontos de Partida: “é urgente a criação de uma rede que ligue as diversas formas de contestação, um espaço comunicacional que favoreça o contacto entre as diferentes correntes anticapitalistas, independente tanto do poder económico como das tutelas políticas e ideológicas. Igualmente, apoiamos e estamos dispostos a cooperar com outros projectos neste sentido”. Por isto mesmo, somos, sim, contra, rancorosamente contra, toda e qualquer forma de mercantilização da cultura disfarçada de “ativismo” “cidadão” “pós-rancor”, e quanto a isto – não custa dizê-lo mais uma vez – não há diálogo possível.

(Continua aqui)