O pós-rancor e o velho Estado: uma crítica amorosa à política do Fora do Eixo – Passa Palavra

Retirado de: http://passapalavra.info/?p=51886

2 de Fevereiro de 2012

É fácil perder-se diante de um emaranhado de conceitos desconexos que, através de retórica apocalíptica, almeja integração orgânica ao sistema, estabelecida a partir de um consenso de amplas bases no campo da produção cultural. Por Regis Argüelles [*]

A obra de arte reproduzida é cada vez mais a reprodução de uma obra de arte
criada para ser reproduzida. […] Mas, no momento em que o critério da autenticidade
deixa de aplicar-se à produção artística, toda a função social da arte se transforma.
Em vez de fundar-se no ritual, ela passa a fundar-se em outra práxis: a política.
Walter Benjamin, A Obra de Arte na Era da sua Reprodutibilidade Técnica

Não se passaram mais de três anos desde que soube da existência de certo coletivo de cultura que atuava especialmente na esfera da música independente. Naquela época, dizia-se que as ações de tal coletivo concentravam-se na realização de festivais pelo Brasil, de preferência em localidades que estivessem à margem do eixo cultural hegemônico. Assim, bandas e demais profissionais coletivamente divulgariam seus trabalhos, aproveitando-se do imenso vazio cultural a que estão submetidos aqueles que, por devido infortúnio, viviam desprovidos da produção musical independente do país.

roland-topor-6O “Circuito Fora do Eixo”, o coletivo em questão, define-se como uma “rede de trabalhos concebida por produtores culturais das regiões centro-oeste, norte e sul no final de 2005”, que, inicialmente, conectou produtores das cidades de Cuiabá (MT), Rio Branco (AC), Uberlândia (MG) e Londrina (PR). De lá para cá, entretanto, o coletivo ampliou sua área de atuação: está hoje em 25 dos 27 estados da federação — inclusive no “eixo” Rio-São Paulo, como faz questão de destacar em seu sítio — e busca conexões mais orgânicas com outros países da América Latina. [1] Ao que tudo indica, o Fora do Eixo (FdE) obteve êxito em relação à sua proposta inicial de fomentar o trabalho de artistas e produtores culturais de regiões diversas, que comumente estariam alijados de participar dos circuitos tradicionais de financiamento de cultura.

Uma das figuras-chave do FdE é Pablo Capilé, produtor cultural originário de Cuiabá. Segundo ele, [2] o coletivo começa a tomar forma por volta de 2000/2001, naquela cidade, a partir de uma casa alugada com o objetivo de agregar músicos, estudantes de publicidade e afins — futuros produtores culturais? — e de enfrentar os desafios da nova configuração do mercado de música. Servindo como espaço de ensaio para as bandas (e também, imagino, para o estudo compenetrado de textos de Baudrillard por parte da galera que não sabia tocar, os universitários), a convivência na casa estimulou a discussão entre músicos e demais “agitadores” sobre as leis de incentivo para que, de maneira colaborativa, conseguissem “ocupar mais espaço”. Em outras palavras, o coletivo se organizou no sentido de ganhar editais públicos e privados de financiamento, capazes de capitalizar vôos mais altos de bandas e produtores associados.

A coisa não para por aí. Capilé destaca que, recentemente, o FdE passou a atuar no aparelho de Estado stricto sensu, “trabalhando para a eleição de vereadores em alguns estados, posicionando secretários de cultura em outros”. [3] Trata-se, portanto, da efetiva transformação de mero concorrente de editais de financiamento em um aparelho orgânico de atuação no tecido político institucional, com todas as benesses e contradições que tal posição, necessariamente, engendra.

Um movimento com essas características precisou ampliar os processos de replicação de um discurso capaz de fornecer suporte necessário à agregação dos interesses diversos de produtores de cultura de todo país. Nesse sentido, o “conceituador” Capilé aponta para dois projetos ambiciosos: primeiro, a criação de uma Universidade, a UniFDE, responsável pela sistematização de todo o processo de formação do circuito; e a organização do Partido da Cultura (Pcult), “um núcleo de contaminação constante de um processo de organização das políticas públicas desenvolvidas por esses coletivos”. [4] Em outro lugar, o Pcult é definido como

“um fórum informal, ambiente supra-partidário permanente [que] trabalha para que a Cultura, tanto quanto educação e saúde, seja tema central dos debates políticos eleitorais, nas campanhas que acontecem a cada dois anos no país e no desenvolvimento do Sistema Nacional de Cultura, aglutinando diversas entidades, redes, movimentos e pessoas de todos os estados do país em torno de temas diversos, sempre na esfera cultural.” [5]

roland-topor-4Parece que estamos diante de um quadro no qual o FdE eleva-se à condição de portador de uma nova proposta de organização material da cultura, ainda que subordinada à organização partidária institucional e às leis mais amplas de reprodução do sistema do capital. Um dos indícios desta condição é a moeda Cubo Card, um sistema de créditos que funciona como forma de pagamento entre os participantes da rede de trabalhos: “O Sistema tornou-se referência para a replicação (leia-se remuneração?) nos coletivos do Circuito FdE, gerando a construção do Banco Fora do Eixo Card”, informa o sítio do coletivo.

Universidade, Banco, Partido… existem limites para o FdE? Um radiante Capilé constata que as adesões à rede são cada vez mais conscientes e voluntárias, evidenciando que hoje vive-se na era do “pós-rancor”, em contraposição à “sociedade do rancor, típica do século XX”. A profª Ivana Bentes (ECO-UFRJ) aponta que o FdE é uma das experiências coletivas mais capazes de influenciar políticas públicas, além de constituir (junto com outros movimentos, como as marchas)

“a base de um novo ativismo contemporâneo, a emergência do precariado cognitivo, […] da percepção que o sistema trabalhista fordista e previdenciário não dão mais conta da dinâmica de ocupações livres (mesmo que frágeis e sem segurança) no capitalismo de informação” [6].

Os modelos contemporâneos de circulação de valores monetários e de sociabilidade justificam a organização “solidária e em rede” do FdE e de demais lutas. Afinal, “não é só o capitalismo financeiro que funciona em fluxo e em rede, veloz e dinâmico. As novas lutas e resistências passam por essas mesmas estratégias”, afirma Ivana Bentes. [7] Para aderir às “novas” lutas é simples: basta ressignificar-se, ou seja, compreender que a sociedade da cognição (cognitariado, informação, multidão, pós-marca, etc.) impõe determinados fluxos — e que os movimentos sociais e de cultura devem adequar-se aos mesmos, sob pena de perderem o bonde da história.

roland-topor-2Abane a cabeça, leitor; faça todos os gestos de incredulidade. Afinal, diante de tal guerrilha semiótica, o chamado à realidade de Machado de Assis me parece mais que apropriado. É fácil perder-se diante de um emaranhado de conceitos aparentemente (propositalmente?) desconexos que, através de retórica apocalíptica (o fim da sociedade do rancor, que nada mais é que o fim da luta de classes, de acordo com a lúcida análise de José Arbex Jr [8]), almeja em verdade integração orgânica ao sistema, estabelecida a partir de um consenso de amplas bases no campo da produção cultural. Resta saber se o crescimento vertiginoso do FdE autoriza-o a figurar nas posições de intérprete vivaz do mundo contemporâneo e direcionador de políticas públicas de cultura. A seguir, procuro demonstrar que, nesses casos, recomenda-se máxima cautela.

As mais contundentes críticas à avalanche discursiva pós-ideológica produzida pelos intelectuais ligados ao FdE pousam, curiosamente, em questões materiais. China, músico pernambucano e VJ da MTV, um dos pivôs do dissenso, fulmina:

“Eu vivo da música e preciso receber os cachês dos shows para conseguir sobreviver. Ainda não estão aceitando cubo card na padaria e em nenhuma conta que eu tenho [sic] que pagar no fim do mês”. [9]

Vejam só, aqueles que produzem arte, ou ainda, aqueles que investem a maior parte de suas energias em objetos artísticos estão também inseridos em uma economia de mercado e, por isso, dependem de rendimentos para continuarem vivos e produzindo aqueles objetos. Até aí, nada de novo no front. A proposta de oferecer uma moeda qualquer como pagamento tenta inovar na remuneração e na circulação de formas artísticas, o que pode até soar interessante, mas esbarra em um problema material: “não estão aceitando cubo card na padaria”. [10]

Não é difícil compreender que a organização de um festival de música é custosa. Além do cachê dos artistas e demais profissionais, existe uma série de questões que precisam ser equacionadas, tais como alimentação, segurança, atendimento médico, transporte, etc. Custa grana, e não é pouca, o que torna incontornável o problema do financiamento de cultura. Os movimentos pós-ideológicos, a despeito da postura cínico-crítica em direção à sociedade do século XX, apelam sem maiores pudores para o velho Estado quando o assunto é capital para suas empreitadas culturais.

A posição de campeões dos editais públicos de cultura foi responsável por mais questionamentos às práticas do FdE. Na visão de Álvaro Pereira Jr., o Brasil virou a terra dos indies estatais, onde “o viés ideológico direciona os recursos estatais [e] estar aliado à política cultural do poder é crucial”, sendo o FdE apontado como expressão maior, a personificação do indie de Estado. [11] De acordo com um dissidente da Associação Brasileira de Festivais Independentes (ABRAFIN), a entidade, sob a gestão do FdE, vem concentrando seus esforços em direção aos incentivos estatais, não avançando no mesmo sentido quando o assunto é a iniciativa privada. [12] Um coletivo que recentemente saiu do FdE deu a entender que a atividade política tem consumido de tal forma alguns agentes, ao ponto de se tornar uma ameaça aos ideais fundantes do movimento. [13]

roland-topor-5Na verdade, relações orgânicas entre intelectuais e Estado stricto sensu não são novidade no Brasil. O peso específico do Estado na formação social brasileira foi um dos elementos determinantes da relação de “cooptação” de intelectuais que, a fim de efetuarem suas compras diárias na padaria e na botica, acabavam por ocupar algum cargo na burocracia civil ou militar. Uma vez à sombra do poder, não era imperativo que o homem de cultura do Império, da República Velha ou do Estado Novo flexionasse sua prática criadora rumo à ideologia dominante (embora muitas vezes o fizesse); em realidade, lhe era aberto todo um leque de modos de pensar não-apologéticos, conquanto que a discussão sobre a estrutura do Estado que permitia a criação “livre” e “intimista” prosseguisse intocada pelo nosso intrépido artista, tal qual se observa no culto à subjetividade promovido pelo romantismo e pela contracultura (COUTINHO, 2011, p. 49).

Apesar da perenidade observada nas relações entre intelectuais e Estado, elementos interessantes complexificaram o quadro esboçado acima, a partir de meados dos anos 70, em plena ditadura militar. A Política Nacional de Cultura, institucionalizada pelo governo do general Geisel, teve por objetivo o investimento direto do Estado em produção cultural, aproximando-a de moldes empresariais, cuja profissionalização e a conquista de mercado eram pontos essenciais. Nos anos Figueiredo, artistas e produtores culturais vivenciavam um momento de maior espaço para a produção, que, por sua vez, já se enquadrava dentro dos parâmetros de uma indústria cultural de massas. Desta feita, a associação entre produto cultural e mercadoria encontrava-se, naquele período, em bases suficientemente sólidas. A simbiose entre mídia e mercado, amplamente disseminada desde então pela TV, aumentou as possibilidades de associação entre mercadoria e produto cultural, ao colocar, por exemplo, a propaganda daquele sabão em pó no enredo de sua novela favorita. [14] Estava, portanto, pavimentado o caminho para a ampla atuação de um tipo de intelectual no cenário cultural brasileiro: o produtor cultural, responsável pela conexão entre os trabalhos de arte e os detentores dos meios de difusão das obras (monetários e materiais), e a consequente capitalização dessa relação para ambas as partes — e, é claro, a garantia de remuneração pelo próprio trabalho.

roland-topor-7Enquadrada dentro de uma indústria cultural convulsionada pela livre troca internetiana de arquivos digitais, restou à rede de trabalhos do FdE apelar ao porto seguro do Estado, o velho mecenas da cultura nacional. Decerto, o Estado que financia as ações do coletivo não tem mais aquela carranca associada à ditadura militar; repaginado pela Terceira Via, pelas teorias políticas pós-modernas, pelo “Lulinha paz e amor” — evidências da inversão ideológica ocorrida dentro do PT e de outros setores da esquerda brasileira — ostenta aparência de um “vovô garoto”, livre do ranço burocrático e ideológico da “sociedade do rancor”. Todavia, esse novo Estado investe em determinada produção cultural incapaz de colocar em questão a estrutura material de dominação assegurada pelo próprio Estado, cujo efeito é encapsular a produção artística aos condicionamentos objetivos das relações de poder.

A associação acrítica ao aparelho de Estado e à lógica empresarial são operações comuns em movimentos socioculturais alimentados por certos esquemas teóricos pós-marxistas e pós-modernos, como é o caso do FdE. E dificilmente poderia ser de outro modo, na medida em que boa parte daqueles esquemas prega a autonomização absoluta da cultura e do trabalho imaterial em relação às condições materiais de produção e ao trabalho material. Nesses termos, a dificuldade de negociação de cachês ficaria atribuída a um problema de cognição dos pernambucanos; a importância do FdE estar na cidade de São Paulo residiria no fato desta ser um “simulacro da Babilônia”. A própria noção de materialidade das teorias “pós” fica obscurecida pela subsunção da matéria a um significante, a uma contingência radical ou a pura heterogeneidade. Esse tipo de argumentação promove o colapso do mundo material em um tipo de exterioridade/meio que abre caminho para a produção abstrata de ideias (McLAREN e FARAHMANDPUR, 2002).

O projeto ambicioso do FdE parece agora refém de seu próprio nó conceitual, pois todo este aparato parece não responder satisfatoriamente aos questionamentos econômico-políticos promovidos por músicos que resistem à ideia de virarem “artistas pedreiro” (a profissão concreta de pedreiro, massificada pelo século do rancor, ainda oferece remuneração aceita na padaria) ou que veem com reservas tanto uma associação deveras orgânica ao Estado quanto o próprio método de atuação política do coletivo. Ou melhor, as respostas oferecidas até então apenas reforçam a circularidade do discurso do FdE, mesmo quando o assunto é a produção cultural de todo um estado da federação (“o problema de Pernambuco é cognitivo”).

Evitando estar tão certo da minha posição como estão, contraditoriamente, os intelectuais que pregam o fim das metanarrativas, penso que o problema da cena musical independente de Pernambuco passa por uma questão material. Negá-la — ou obscurecê-la com um conjunto de argumentos e conceitos — significa perder a proteção discursiva autorreferente e “revelar suas próprias afiliações de classe e a ideologia que faz sua lógica interna aparentar um sistema lógico universal” (EBERT e ZAVARZADEH, 2008, p. xxi). Talvez seja a própria negação da influência das relações materiais no plano sociocultural que permita a Capilé sugerir o apoio da Coca-Cola à “Marcha da Liberdade”, [15] argumentando que hoje as empresas buscam um contato direto com os movimentos sociais, sem que seja necessária a exposição de sua marca. Da mesma ordem foi posicionar-se contra a possibilidade da Marcha reivindicar ao poder legislativo um projeto de lei que obrigue a polícia a fazer uso de armas “menos letais”, quando se trata de reprimir manifestações — afinal, não era necessário, para o coletivo, pautar qualquer coisa além da “própria ideia de liberdade”. [16]

roland-topor-3Em suma, a posição política do FdE acaba por capitular diante da lógica totalizante e homogeneizante do capitalismo, e do papel do Estado na reprodução desta lógica. Como afirmou Ivana Bentes, “o FdE entendeu que o modelo da produção cultural é o modelo de funcionamento do próprio capitalismo” [17]. Tal argumentação chega a ser alarmante, dado que esse modelo de funcionamento vem convulsionando-se em larga escala nos últimos 20 anos e, mais recentemente, submeteu a economia global a uma crise sem precedentes, cujos efeitos ainda são sensíveis. O que pensar então da produção musical independente submetida a tal lógica autodestrutiva?

O mais curioso nisso tudo é que as manifestações mais inovadoras em resposta à crise do capital (e a consequente tendência em aumentar seu caráter predatório) vêm pautando o papel das grandes corporações, do Estado e da grande mídia na manutenção de um sistema de exclusão econômico-política real da maioria. Um exemplo é o Occupy Wall Street (OWS) e suas derivações por todos os EUA que, ao mesmo tempo que usam e abusam das novas possibilidades de conexão e distribuição de mídia disponíveis no mundo virtual, convocam greves gerais, boicotes às grandes empresas, realizam assembleias ao ar livre (com presença de movimentos sociais de todas as matizes) e apontam para uma democracia horizontal (“We are the 99% [Somos 99%]”). A resposta do Estado — atuando com apoio explícito das corporações — a esses movimentos tem sido dura, dadas as demonstrações violentas de desocupação pela polícia, as prisões em massa e demais arbitrariedades. [18]

Não podemos nos esquecer de que o “pós-modernismo”, hoje (ainda) considerado theoretical chic por boa parte da academia, já possui nada menos que 20 anos de disseminação na realidade cultural brasileira. Não é pouco tempo. Assim, cabe a pergunta: no mundo global volátil e randômico, dado a crises e mudanças repentinas, ao sabor do fluxo virtual de ideias, não seria a política de “esquerda nos eixos” que estaria perdendo o “bonde da história”?

Notas

[*] rarguelles@gmail.com. Baixista indie desempregado (ex Supercordas, The Cigarettes, Stellar, Superbug, A Lydie, 4-track valsa, Polystirene), professor de história e doutorando em educação pelo PPGE/UFRJ. O autor gostaria de agradecer a Kátia Abreu e Felipe Demier pela leitura e sugestões valiosas.
[1] Aqui.
[2] Aqui.
[3] Idem nota anterior.
[4] Ibid.
[5] Aqui.
[6] Aqui.
[7] Idem nota acima. A prof. Ivana Bentes desponta como uma das principais teóricas do modus operandi do FdE, defendendo posições claramente conservadoras que assemelham-se à ironia pós-moderna do “capitalismo plus outras opções”, recentemente verbalizada por um dos maiores expoentes do campo. Conforme veremos adiante, os limites das políticas da pós-modernidade residem justamente na impossibilidade do discurso criticar as relações sociais subordinadas ao modelo de reprodução binário do capital. Sua linguagem altamente complexa acaba por operar dentro dos limites do fluxo de capitais, que, por sua vez, é um dos fenômenos de maior relevância para a manutenção do status quo. Não criticá-lo (“não existe outro mundo”) significa, no mínimo, abster-se da possibilidade de uma atuação política emancipada.
[8] Devidamente replicada pelo artigo “A Esquerda nos Eixos e o novo ativismo” de… Ivana Bentes. (Aqui.)
[9] Aqui. De acordo com o próprio Pablo Capilé (aqui, em 20/12/2011), o FdE encontra-se em “crise diplomática” com Pernambuco, tendo retirado suas bases deste estado. Em uma fala extremamente rancorosa, o produtor cultural acusa Pernambuco de ser o estado da federação que personifica a “lógica do rancor” e, destarte, está hoje isolado e estacionado no plano cultural nacional. Em suma, Pernambuco não soube “ressignificar-se” e adequar-se aos novos tempos do mercado de cultura, que é protagonizado pela proposta organizativa do FdE.
[10] Fui alertado que a remuneração via cubo card hoje está restrita aos participantes efetivos da rede FdE. Assim, os artistas de maior público que se apresentam nos festivais do FdE recebem em reais, o que não deixa de ser uma contradição em termos, pois parece que a condição de “artista pedreiro” só serve para alguns. Uma boa discussão sobre o assunto encontra-se aqui.
[11] Aqui. Ver também aqui. O jornalista Álvaro Pereira Jr. foi agraciado com uma réplica de Pablo Capilé (“Adeus ao sr. Pereira”, aqui).
[12] Aqui.
[13] Aqui.
[14] Ver PELLEGRINI, T. Aspectos da produção cultural brasileira contemporânea. Aqui.
[15] Ocorrida em 28/05/2011, na cidade de São Paulo, que contou com a participação de milhares de pessoas.
[16] Aqui. Esse texto apresenta uma excelente análise dos pressupostos teóricos e contradições do FdE, definindo o coletivo como “uma classe de gestores que visa renovar a burocracia”.
[17] Ver nota 5.
[18] Aqui.

Bibliografia

BENJAMIM, W. Conceptos de Filosofía de la Historia. La Plata: Terramar, 2007.
COUTINHO, C. N. Cultura e sociedade no Brasil: ensaios sobre ideias e formas. São Paulo: Expressão Popular, 2011.
EBERT, T. & ZAVARZADEH, M. Class in culture. Boulder, CO: Paradigm Publishers, 2008.
McLAREN, P. & FARAHMANDPUR, R. Breaking significant chains: a marxist position on postmodernism. In: HILLet al. Marxism against postmodernism in educational theory. Lanham, MD: Lexington Books, 2002.
PELLEGRINI, T. Aspectos da produção cultural brasileira contemporânea. Aqui.

Desenhos de Roland Topor.

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Domingo na Marcha (5ª parte)

Retirado de http://passapalavra.info/?p=42544

15 de Julho de 2011

O trabalho na área cultural é estruturalmente instável e, por esta razão, o trabalhador é forçado a aceitar e não rejeitar projetos e condições de trabalho que profissionalmente não o satisfazem. Por Passa Palavra

Apertando os pontos da cadeia produtiva

Durante a gestão de Gilberto Gil e Juca Ferreira, no Ministério da Cultura, iniciou-se a fomentação de uma cadeia produtiva de uma indústria cultural nacional através do Programa Cultura Viva. Se num primeiro momento nos debruçamos no discurso oficial, nesta parte analisamos dados da pesquisa “Cultura Viva – avaliação do programa arte, educação e cidadania” (2009), realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).

mapapontosUma pequena nota metodológica. A pesquisa foi feita numa parceria com a Fundação Joaquim Nabuco (FUNDAJ), que fez a pesquisa de campo com 229 pontos nas regiões Norte e no Nordeste, enquanto o IPEA entrevistou 297 pontos nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. No total, o universo da pesquisa de campo foi de 526 pontos, que possuíam diferentes níveis: 457 pontos de cultura, 36 pontões conveniados ao Ministério da Cultura, 33 pontos de cultura ligados à rede municipal ou estadual.

Em 2009, o Ministério da Cultura apoiou 2.517 pontos e capacitou 7.407 agentes culturais, totalizando o gasto de R$ 119,6 milhões [1]. Segundo a pesquisa, os pontos foram precedidos anteriormente por associações (55%), grupos artísticos (14%), atividades comunitárias (8%) e por pessoas (5%). Os órgãos públicos também aparecem e representam 2,8% dos pontos. As atividades dos pontos de cultura destacam-se nas áreas de música (68%), manifestações populares (61%), audiovisual (58%), teatro (54%), literatura (52%) e artesanato (48%).

Sobre a origem dessas instituições, 28% delas foram criadas entre 1930 e 1980, 35% na década de 1990 e, nos anos 2000, 37%. A situação dos imóveis onde funcionam os pontos revela que 25% são alugados, 20% têm donos, 22% são cedidos por órgão público, 8% resultam de parceria com ONGs, 7% são espaços de instituição de educação básica, 7% são instituições de classe (sindicatos), 4% são cedidos por pessoas físicas e 3% são associados a instituições privadas.

As condições da instalação do ponto foram avaliadas pelo IPEA com a necessidade de “dotar os espaços de recursos com nível de qualidade aceitável em termos genéricos, a partir de padrões mínimos discutidos. Não se trata de ‘burocratizar’ o programa, e sim de criar parâmetros que permitam estabelecer dispêndios aceitáveis em termos de investimentos.”

O programa também foi responsável em iniciar as atividades e na fomentação de novas iniciativas culturais. Levando em conta o universo da pesquisa, em São Paulo, 15 pontos (23%) não realizavam atividades antes do Cultura Viva, em Minas Gerais, 21%, e no Rio de Janeiro, 15%.

A idade média dos coordenadores dos pontos ultrapassa os 40 anos, sendo apenas 21% jovens, e 76% possuem curso superior ou superior incompleto; apenas 17% possuem ensino médio. Ainda sobre a formação destes gestores culturais, 74% disseram ter capacitação na área. No entanto, essa formação incluía desde encontros e reuniões até mestrados. É interessante notar que 89% dos coordenadores ou gestores dos pontos moram no próprio local, sendo esta uma forma de abater o aluguel das contas pessoais.

Os pontos possuem em média 10 trabalhadores, sendo 60% remunerados e 40% voluntários. Na maioria dos pontos (85%) utiliza-se trabalho temporário de terceiros, como o de educadores em 55% dos pontos, serviços de contabilidade em 35%, suporte técnico em 33%, serviços gerais em 22%, consultoria jurídica em 19%, assessoria de imprensa (comunicação e divulgação) em 19% e apoio psicopedagógico em 11%.

O público atendido diretamente pelas atividades dos Pontos de Cultura foi de 124 mil pessoas, sendo 70% de público local. Indiretamente, o público atingido sobe para 1,2 milhão de pessoas. Para os coordenadores, grande parte do público encontrava-se em condição de vulnerabilidade social.

pontos-de-culturaNa dimensão econômica, os pontos dependem do recurso do Ministério da Cultura e, segundo a pesquisa, nenhum deles acessou crédito ou empréstimos de instituições financeiras. Mais da metade dos pontos afirmou que obtinha receitas com venda de artesanato, o resto vendia DVDs ou obtinha receitas através de apresentações musicais. E quando os pontos se articulam com outras instituições, 43% deles tornam-se parceiros de instituições privadas. Segundo o IPEA, isso “reflete suas possibilidades de adquirir autonomia em relação aos recursos de fundo perdido, advindos do ministério”. Diante dos atrasos nos repasses de recursos – apontado como a principal reclamação pela maioria dos coordenadores –, além da dificuldade no pagamento das despesas, os pontos atrasam suas atividades e o público evade, prejudicando a manutenção da programação [2]. Uma crítica recorrente dos coordenadores é à burocracia e nos atrasos do repasse dos pagamentos.

Em síntese, o programa Cultura Viva, determinado pelas ações e formulações da gestão do Ministério da Cultura de Gil e Juca Ferreira, estimulou a criação de uma cadeia produtiva a partir de agentes culturais previamente existentes, injetando recursos para “oxigenar” a produção cultural local. É a transformação do tecido cultural em chão de fábrica, sendo fundamental nesta fase inicial a utilização de subsídios. Segundo a pesquisa do IPEA trata-se de explorar e aprofundar “a capacidade de geração de renda pela própria atividade desenvolvida nos pontos de cultura, mediante remuneração da atividade realizada ou comercialização dos produtos e produções culturais”. Consolida-se e adota-se o discurso de incentivar a busca por outras fontes de recursos como, por exemplo, os novos modelos de negócios, representando assim a transformação da lógica das associações culturais em empresas culturais [3].

Por outro lado, a precariedade do trabalho nesta rede é vista em vários aspectos como a formação difusa dos agentes culturais, a mudança de prazos no repasse dos recursos, a subcontratação de oficineiros, os contratos temporários, a terceirização dos serviços, a ausência de direitos trabalhistas e a utilização de voluntários para cobrir as atividades. Trata-se de um programa de estímulo ao trabalho cultural; uma política pública de cultura que transformou diferentes agentes culturais em profissionais precários, sendo assim um programa de prospecção e profissionalização de iniciativas culturais. A precarização está ainda presente no discurso quando se aplica o termo de “sevirismo”, isto é, da população periférica estar acostumada a “se virar”, sendo esta mentalidade acolhida não como uma denúncia, mas como uma política de Estado.

A quantidade de atendidos e beneficiários no Cultura Viva deve-se à repartição dos recursos. Fez-se muito com pouco. É semelhante à mágica operada pelo Programa Bolsa Família, no qual, com um custo que jamais ultrapassou 1% do PIB, se atingiu 12,7 milhões de beneficiários.

Empreendedores culturais, o ativista dos negócios & o novo espírito do capitalismo

No Brasil e no mundo, nas últimas duas décadas o capitalismo, em sua versão neoliberal, impactou todas as esferas da vida social e, atualmente, passou a prospectar nichos exploráveis economicamente. No âmbito da política cultural testemunha-se essa herança através dos mecanismos de renúncia fiscal – como a Lei Rouanet [4] –, mas também na produção cultural esse percurso é trilhado dentro da “economia criativa”, enquanto uma tendência de um novo modelo de gestão do trabalho, na qual os empreendedores – sejam eles culturais, criativos ou sociais –, passam a ser elementos fundamentais para o crescimento econômico. Um impacto tardio do neoliberalismo, mas com um poder de capilaridade que se coloca diante dos movimentos sociais.

dartistA origem do tipo ideal de “empreendedor cultural” deriva da teorização da indústria cultural para as indústrias criativas. As indústrias criativas abrangem todo o trabalho que desfruta da criatividade, talento ou habilidade individual, o qual se vincula com a propriedade intelectual. Essa indústria é composta pela publicidade, marketing, design, moda, audiovisual, programação, games, etc. Incluem-se assim setores produtivos emergentes. Diversos autores e políticos superestimam a capacidade dessa indústria de serviços da cultura colocando-a como substituta da “indústria pesada”. Trata-se de uma adaptação do discurso de prosperidade econômica tendo em vista a realidade, a qual revela um processo de desindustrialização das economias centrais, e, assim, o crescimento econômico da “sociedade do conhecimento” e dos seus derivados teóricos (“Era da informação”, “pós-fordismo”, “Sociedade em rede”, etc.) dependeria agora cada vez mais dos serviços.

No Brasil, conforme descrito na 4ª parte desta série, destacamos o esforço do governo nas gestões de Gilberto Gil e Juca Ferreira em modernizar a política pública cultural para prospectar e fomentar as iniciativas de uma indústria criativa com a diferença referente à flexibilização da propriedade intelectual, mas que não chegou a concretizar um caminho dentro dos novos modelos de negócios.

O termo empreendedor, restrito em seu aspecto econômico, como o de agente inovador, foi conceituado pelo economista austríaco Joseph Schumpeter. Em sua teoria econômica, o empreendedor passa a ter a função de romper as crises cíclicas de estagnação econômica através da inovação. Torna-se assim uma peça chave para o desenvolvimento econômico: “A função de um empreendedor consiste em reformar ou revolucionar o sistema de produção” (1983:181), seja através de uma nova mercadoria, abertura de um novo mercado, nova fonte de fornecimento de matérias-primas e bens ou através de um método novo de organização da indústria.

workaholic-ladder3Nesta concepção, ser proprietário de uma empresa não significa necessariamente ser um empreendedor. Nem todo mundo pode ser um empreendedor, observou Schumpeter, mas apenas uma fração da população poderá sê-lo, pois “não consiste, essencialmente, em inventar algo nem em criar de outro modo as condições que a empresa explora. Consiste em obter êxitos” (1983:181). O empreendedor assume então um papel de ator econômico para o desenvolvimento, cujas tarefas exigem certas características como a de ser “valente”, “corajoso”, “independente”, isto é, ser alguém que não teme os riscos. Mas, ao contrário do que possa parecer, “a interpretação econômica da história não significa que os homens atuam, conscientes ou inconscientes, total ou primordialmente, por motivos econômicos. Pelo contrário, um elemento essencial da teoria e uma de suas mais importantes contribuições está na explicação do papel e da influência dos motivos não econômicos e na análise do modo em que a realidade social se reflete nas psiques individuais.”

Para o empreendedor agir, Schumpeter afirma que não é necessário capital acumulado, mas sim crédito: “diferentemente do referido, não pressupõe a existência de resultados acumulados do desenvolvimento anterior, e por isso pode ser considerado como o único disponível dentro de uma lógica estrita. Esse método de obter dinheiro é a criação de poder de compra pelos bancos […]. É sempre uma questão, não de transformar o poder de compra que já existe em propriedade de alguém, mas a criação de novo poder de compra a partir do nada” (Schumpeter, 1911, p. 53).

Na dimensão do ethos, o autor do best-seller O livro negro do empreendedor (2009), Fernando Trías de Bes, afirma que “empreender é uma forma de se enfrentar o mundo, é uma maneira de entender a vida como a que não todo o mundo se sente confortável.”. O empreendedor que acredita estar neste papel para ser livre, isto é, ele próprio determinar as regras do jogo, é um falso empreendedor, pois “O empreendedor poderia tirar qualquer dia livre. Poderia tirar dias de férias de vez em quando. Mas nunca o faz. O fato de saber que poderia fazer já passa certa sensação de controle e domínio sobre a própria vida, mas a verdade é que o verdadeiro empreendedor geralmente chega à conclusão de que no dia lhe faltam horas para trabalhar”. Desta forma, “um dos motivos mais lamentáveis para empreender que se dão com maior frequência é a busca de um equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional”. Assim, o verdadeiro empreendedor não divide sua vida com os negócios, a sua vida é os negócios. Uma visão instrumental que reflete exatamente o homo economicus do pensamento liberal e neoliberal, no qual o sujeito busca maximizar seus benefícios através de opções racionais dentro do mundo convertido em mercado.

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Há também, dentro do imaginário social, o tipo ideal dos empreendedores tecnológicos, os quais frequentemente são retratados como cientistas que investem em experimentos em sua própria garagem e, atualmente, estariam encarnados nos jovens geeks que se transformam nos novos mandarins do capitalismo global, com suas empresas de serviços online. Bastaria basicamente uma excepcional idéia na cabeça e trabalho árduo, mas há quem coloque outros ingredientes na receita para o sucesso: a ideologia da pequena e próspera empresa, gerida pelo empreendedor genial elevado ao patamar máximo da civilização como um herói espartano do reino dos negócios, convertida em modelo a ser seguido. Trata-se exatamente do tipo ideal do empresário schumpeteriano.

A transposição do empreendedorismo para a área cultural é assumida no cenário brasileiro através de um processo orientado pela valorização da cultura em seu aspecto econômico e como parte de “integração cidadã”, em que caberia dar acesso ao mercado de consumo das artes; um processo muito semelhante ao que ocorre com o Programa Bolsa Família e esta integração social pelo consumo. No livro Emprendizajes en cultura (2010), o autor e consultor Jaron Rowan descreve a passagem exata do discurso de subsídio para a cultura como recurso, uma lógica na Espanha que foi sendo paulatinamente implementada por um processo de introdução da economia na cultura, como afirmou a subsecretaria do Ministério da Cultura do país: “Nunca mais cultura versus economia. A partir de agora a cultura de mãos dadas com a economia”. Essa é mesma visão do gestor cultural do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) – Goiás, Décio Coutinho, “[…] a cultura pode trabalhar junto com a economia, agregando valor cultural a um produto não-cultural […]”, mas, na sua opinião, “ainda não há um entendimento dentro do próprio Ministério da Cultura, do governo do Brasil e dos governos estaduais e municipais, da indústria criativa, dos territórios criativos, das cidades criativas, como eixo central de desenvolvimento.”

Para Coutinho, “O empreendedorismo não está ligado só ao lado empresarial, do lucro financeiro, pode ser também social, ligado a ONGs, a empresas, a associações, a cooperativas, a coletivos” e deve ser entendido como “uma atitude de transformação positiva, de comportamento, de ousadia, de criatividade e de inovação. O empreendedorismo cultural é gente trazendo para a cultura esse tipo de atitude”, citando como exemplo “O modelo do Fora do Eixo é uma rede de referência, a Abrafin também […].”, uma vez que “A gente participou da criação da Associação Brasileira de Festivais Independentes (Abrafin). Estive também no dia da fundação do Sistema Fora do Eixo, que hoje é um dos coletivos mais interessantes do país. […] O desafio é conseguir fazer o encontro dessas pessoas, e fazer com que elas se engajem”. Do individual para o coletivo, o empreendedor schumpeteriano adapta-se a uma nova realidade.

Milton Friedman

Hoje, a disputa latente na indústria criativa é de saber se a extração de renda deve ser através da propriedade intelectual ou através das licenças abertas – como a Creative Commons e o open business (novos modelos de negócios). Ainda dentro desta última posição, oscila-se entre a adoção dos novos modelos de negócios pelos oligopólios das transnacionais da cultura e a abertura de portas para o reino dourado da economia social, da constituição de microempresas e trabalhadores autônomos. Neste caso, criar-se-ia um “ecossistema” de microempresas de “produtores independentes”, compostas por poucos trabalhadores, mas que unidas operariam como clusters, isto é, fornecedores de trabalho qualificado e fundamentalmente criativo para o mercado. Uma solução não diferente daquela proposta por Milton Friedman, para quem as pequenas unidades independentes sem acumulação oligopolística implicariam na formação de um livre mercado.

O trabalho na área cultural é estruturalmente instável e, por esta razão, o trabalhador é forçado a aceitar e não rejeitar projetos e condições de trabalho que profissionalmente não o satisfazem; a necessidade econômica muitas vezes não lhe dá outra opção. Neste ponto é que se revela a outra face da moeda, de um lado, a autonomia e uma suposta autogestão e, de outro, a dependência e a auto-exploração.

A disseminação de “coletivos culturais” com “projetos coletivos” que buscam “sustentabilidade” para atuar em “redes” de forma “orgânica” é a peça chave dos mecanismos de estruturação desta cadeia produtiva da economia criativa, mas não só, pois implica uma nova ética, um novo espírito do capitalismo. Para Coutinho, a “horizontalização da dinâmica cultural” traz “pavor” para as empresas tradicionais “fechadas, quadradas, brancas e elitistas”, as quais “tendem a sofrer muito com esse processo”, mas que “Com o tempo, elas não resistem. Ou mudam, ou mudam.”

A maior parte dos empreendedores culturais não o é por optar pela receita da ideologia liberal, mas sim por um resultado da reestruturação produtiva decorrente das lutas dos anos 60 e 70. Uma nova ética que restabelece os vínculos entre trabalhadores e empresa, abalados ao final do fordismo. As empresas passaram a sustentar a participação dos trabalhadores, o modelo toyotista, e, para falar em capital nacional, a Odebrecht mostra esse estímulo em sua dinâmica interna.

precariA horizontalização da produção não implica na autogestão da mesma, pelo contrário, é possível manter uma classe gestorial e dirigente do processo. Ainda que se liquidem as divisões internas, a competição no mercado capitalista irá impor o conflito entre trabalhadores de uma empresa contra outra. Na Bolívia os conflitos entre cooperativas de mineiros financiados por uma e outra empresa não são incomuns.

Neste modelo, a precarização torna-se a regra e o trabalhador é cercado pela incerteza, insegurança e, principalmente, a iminência do desemprego. A flexibilização das relações de trabalho atomiza o trabalhador, o qual passa a ser “empresário de si”, precisando constantemente investir em sua própria formação, colocando assim o capital humano no centro dos recursos da produção. Muitos destes “coletivos”, cujas funções revelam as aptidões e os talentos dos trabalhadores, reinventam um novo espírito do capitalismo, o qual incentiva a entrega total para o trabalho como realização pessoal, de ser feliz – ou pós-rancor – e, principalmente, de ser criativo. Uma época em que a criatividade é um mandamento moral.

Os iludidos e as ilusões

Afinal de contas, como é possível que um número tão grande de pessoas, inteligentes como as pessoas no geral são, se tivesse deixado iludir e mobilizar num enquadramento que tinha como finalidade exclusiva capitalizar a sua mobilização, no sentido literal da palavra — transformá-la em capital. Não se trata aqui de uma questão de idéias ou de linhas políticas com que estejamos ou possamos estar em desacordo. Com quaisquer idéias e quaisquer políticas, as pessoas não gostam de ser tomadas pelo que não são e de serem usadas para outros fins.

jobparceria

Por Arnaldo Branco

Como é possível que pessoas instruídas e experientes citem Foucault e Deleuze e Negri e outros tantos a propósito de um negócio? É certo que os citam a propósito de tudo, mas ainda assim…

É que em geral na vida, tanto na vida privada como na política, nós não somos enganados. Deixamo-nos enganar. O vigarista, o burlão, o mero mentiroso enganam-nos porque dizem algo em que nós queremos acreditar. Neste caso dizem a intelectuais e a profissionais das novas tecnologias eletrônicas:
– que basta a cabeça e já não são necessárias as mãos, quando muito as pontinhas dos dedos no teclado;
– que a realidade supletiva do virtual cobriu a outra a tal ponto que ela já não existe;
– que é possível brincar com o fogo e usar empresas de negócios para fins políticos sem ser usado por elas para finalidades empresariais.

O Fora do Eixo conseguiu capitalizar as Marchas — aquelas que hegemonizou — porque atuou num ambiente envolvido numa espessa teia de ilusões. O Fora do Eixo de pouco ou nada nos importa enquanto empresa singular, e esperamos que neste ponto os leitores já nos tenham compreendido. O problema é que se não for o Fora do Eixo, continuando os iludidos a iludir-se, outra empresa aparecerá para capitalizar e rentabilizar os movimentos.

Foi por termos rompido as ilusões que nos acusaram de tantas coisas, de termos orientações políticas que nenhum de nós partilha, de fazermos o que não fazemos e de não fazermos o que fazemos. Fomos acusados de tudo isto porque quem tem necessidade de ver o seu lado de uma dada maneira precisa também de acreditar que o outro lado é o retrato negativo do seu.

Por Pieter Bruegel, o Velho

Primeiro ficamos perplexos por nos acusarem de coisas que bastaria uma rápida passagem de olhos pelos artigos do site para constatar que são falsas. Mas depois entendemos. Para quê os críticos perderiam tempo com uma vista mínima se já antecipadamente julgavam saber o que nós éramos? Se não somos aquilo que eles mesmos julgam ser, então só podemos ser o inverso! Daí resultou o curioso ambiente de equívocos de que se rodearam os nossos opositores neste debate.

Nós, pelo nosso lado, não deixamos que se apodere de nós a mais nefasta das ilusões — a de que bastam as palavras para dissipar as ilusões dos outros. Quem quer — quer mesmo — deixar-se enganar tem necessidade dos enganos e não pode viver sem eles. Não está nas nossas possibilidades, usando meras palavras, romper aquela necessidade. Para isso é necessário romper o tecido social que torna os enganos imprescindíveis.

Notas

[1] Isso corresponde à utilização de 85,6% do orçamento, sendo o total de R$ 139,6 milhões autorizados. Em comparação entre 2005 e 2009, os recursos aumentaram em 72%.

[2] Por conta dos atrasos nos recursos houve conflito entre os jovens beneficiários de bolsas e gestores dos Pontos de Cultura, uma vez que as bolsas passaram a compor a renda familiar.

[3] Vide o exemplo do Tecnobrega no Pará, apresentado na 3ª parte desta série.

[4] Devido à análise existente a respeito da responsabilidade social e dos impactos da renúncia fiscal, sendo uma discussão que ocorre também internamente no Ministério da Cultura, optamos por analisar o caminho da economia criativa.

Bibliografia

Décio Coutinho, entrevista realizada por Fabio Maleronka Ferron e Sergio Cohn, no dia 14 de junho de 2010, em São Paulo, disponível em Produção Cultural.

IPEA, Cultura Viva – avaliação do programa arte, educação e cidadania, 2009.

ROWAN, Jaron. Emprendizaje en Cultura, Traficantes de Sueños, 2010.

SCHUMPETER, Joseph A. The Theory of Economic Development, Transaction Publishers, Londres, 1974.

SCHUMPETER, Joseph A. (1911). A Teoria do Desenvolvimento Econômico. São Paulo: Abril Cultural, 1982.

SCHUMPETER, Joseph A. Capitalismo, socialismo y democracia. Ediciones Folio, Barcelona, 1983.

TRIAS DE BES, F. O livro negro do empreendedor. Best Seller, São Paulo, 2009.

Domingo na Marcha (4ª parte)

Retirado de http://passapalavra.info/?p=42227

8 de Julho de 2011

Já era chegada a hora de, neste País, se ‘baratear o que é caro’ e ‘encarecer o que é barato’Por Passa Palavra

O negócio da cultura, a cultura como negócio: “A gente precisa entrar nessa também”

Ao ser convidado, durante a gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso, para compor o Ministério da Cultura, Gilberto Gil participou de uma reunião no Palácio da Alvorada para conhecer melhor a proposta. No entanto, descontente com a não negociação de uma exigência ambiental — a nomeação dos super-intendentes do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (IBAMA) –, rejeitou o cargo naquela ocasião. Já se vê pelo ocorrido que a preocupação de Gil com as questões ligadas ao meio ambiente — compartilhada por Juca Ferreira, seu sucessor ministerial — foi central na sua filiação ao Partido Verde, no estado da Bahia [1].

gilberto_gilA vida parlamentar de Gilberto Gil foi influenciada pela revisão política realizada por Mikhail Gorbachev, nos anos 80, “porque se por um lado havia toda uma crítica da esquerda ao capitalismo e às formas perversas de gestão capitalista da sociedade, por outro lado faltava às esquerdas a autocrítica sobre o lado difícil do socialismo real”. Desta forma, a sua ação política passaria por “novas formas de política, formas criativas de política, formas artísticas […]. Fazer política é fazer uma arte.” [2] Destacava-se a importância da autocrítica como um caminho fundamental para a possibilidade de desenvolvimento de uma “gestão criativa”, bem como para o enfraquecimento e desmantelamento de uma estrutura burocrática.

É então, com a chegada de Lula à Presidência da República, que Gil assume — ao contrário da opinião geral dos setores majoritários do Partido dos Trabalhadores (PT) — o Ministério da Cultura e Juca Ferreira assume como secretário-executivo. Se, por um lado, havia o “agente da contracultura”, como se autodefine Claudio Prado, é com a linha de Juca que se insere a proposta de economia criativa no âmbito das políticas públicas e se forma “a consciência de que tínhamos que ser arautos de um novo período, fundadores de um novo processo” [3]. Como motor de desenvolvimento nacional, a economia criativa devia ter a função de produzir valor agregado e transformar o país em produtor de um novo tipo de commodities. A diversidade não seria apenas um valor a ser buscado, mas uma matéria-prima necessária para sustentar essa economia e através do diálogo intercultural poder se realizar uma “democracia racial e cultural”.

As condições materiais passariam por atender não só uma classe econômica, mas por alargar o mercado consumidor interno integrando as classes C, D e E: “A inclusão social e econômica de milhões de brasileiros foi feita não só por solidariedade, mas também porque precisamos de consumidores. […] O mercado brasileiro precisa ter o tamanho da nação brasileira.” [4]

Ainda, para realizar tal transição, é necessário não só aprovar leis como o Plano Nacional de Cultura, da reforma da Lei de Direito Autoral e da modificação na Lei Rouanet, mas forjar um novo empresariado capaz de compreender as dimensões dessa nova economia. Como foi afirmado por Juca e reforçado por seu secretário-executivo (2008-2010), Alfredo Manevy, trata-se de uma política pública similar à dos Estados Unidos na década de 1930 com o New Deal, que incentivou a indústria nacional: “Essa [a economia criativa] é a segunda economia nos EUA desde meados do século passado. É a terceira economia inglesa. Não estamos inventando nada, só precisamos entrar em uma escala de valor agregado que até hoje está em segundo plano. E não nasce de geração espontânea. Nos EUA, foi fruto de uma ação pactuada entre o Estado, os empresários e os criadores. A gente precisa entrar nessa também.” [5]

Neste mesmo sentido fica mais fácil entender a ligação umbilical, desde o primeiro momento, da nova gestão cultural de Gil e Juca com a vanguarda do “open business” no Brasil. No papel que, por exemplo, entre tantas outras figuras, o antropólogo Hermano Vianna, fundador do Instituto Overmundo, passaria a desempenhar desde o momento em que Gil recebe o convite de Lula para assumir o Ministério [6].

jucaferreiraPara Juca, a orientação do Ministério da Cultura era um “projeto [que] não é dirigista, sufocante da iniciativa privada ou a sociedade. Pelo contrário, é empoderamento da sociedade e das empresas culturais, é desenvolvimento do acesso pleno à cultura e da economia da cultura” [7]. Assim, conforme anunciado pelo próprio ex-presidente Lula, o programa “Cultura Viva” foi o “carro-chefe” desta gestão presidencial, o qual foi estruturado em cinco eixos (Pontos de Cultura, Cultura Digital, Agentes Cultura Viva, Griôs – Mestres dos Saberes e Escola Viva), sendo os Pontos de Cultura o principal desse programa.

Na perspectiva da economia criativa, através do Estado, buscou-se a criação e constituição de uma cadeia produtiva independente das companhias transnacionais e dos oligopólios regionais da cultura. Como afirmamos no artigo A esquerda fora do eixo, planejou-se que se consumisse e produzisse a “autêntica” cultura brasileira cortando os antigos intermediadores. Por isso, a descentralização em forma de rede através dos Pontos de Cultura. Trata-se de uma nova forma não só de descentralizar o orçamento — cortando, assim, custos que seriam destinados para obras de infraestrutura como anfiteatros, centros culturais, entre outros e de recursos humanos –, mas também de prospectar as diversas manifestações culturais. Um verdadeiro mapeamento da diversidade cultural — fundamental para o desenvolvimento expansivo dos setores do capitalismo contemporâneo. “Hoje eu vejo campanhas publicitárias falando dessa diversidade cultural, tornou-se algo visível no Brasil, é motivo de orgulho. Isso é uma pequena contribuição que demos.” [8] A diversidade cultural “descoberta” é promovida através de um “Sistema de Propriedade Intelectual mais flexível, mais viável”, pois assim “seremos capazes de aumentar sua credibilidade e sua mais ampla aceitação como uma ferramenta fundamental para promover inovação, criatividade e desenvolvimento.” [9]

culturaviva-logoUm processo também denominado por Gilberto Gil de “do-in antropológico”, por meio do qual seria possível potencializar “as ‘sinergias intermináveis’ que podem acontecer a partir do momento que estes espaços massageados comecem a liberar a energia produtiva reprimida pelo esquecimento social (…) [Afinal] já era chegada a hora de, neste País, se ‘baratear o que é caro’ (subsidiar tecnologia de ponta — e livre — para produção cultural na periferia), e ‘encarecer o que é barato’ (potencializar, dar visibilidade e viabilidade à real cultura brasileira )”. [10]

Desse modo, o programa do Ministério da Cultura inseriu o país em diversos eventos internacionais que discutem a globalização, a cultura e os direitos autorais, tornando-se aí uma referência simbólica mundial. O objetivo é de utilizar a indústria criativa para acelerar o desenvolvimento nacional. Aliás, isso é uma das propostas da UNCTAD – Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento.

No entanto, Juca Ferreira confessa a necessidade da “consciência do empresariado”, dados os limites ideológicos, e ilustra o caso num encontro com Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), quando os empresários presentes zombavam do presidente: “Quando a atenção se voltou para mim, eu disse: ‘Sou doido para fazer uma pergunta. Vocês nunca ganharam tanto dinheiro como no governo Lula e por que existe tanta dificuldade em aceitar?’. Eles foram obrigados a dizer que é o período mais promissor que já viveram e não conseguiram me explicar porque o presidente Lula deu uma contribuição irreversível para o desenvolvimento brasileiro, inclusive beneficiando os mais pobres e as elites.” [11]

Mas, ainda, é necessário que os “agentes econômicos nacionais e a elite brasileira operem o Brasil com grandeza e não apenas como escravo do passado. […] É preciso que a economia da cultura se torne uma economia pungente no Brasil, não só no mercado brasileiro, mas no mercado internacional.” [12]

Outra iniciativa que evidencia a importância da produção cultural para os gestores estatais é a realização, no dia 14 de junho de 2010, do Seminário “Produção de Conteúdo Nacional para Mídias Digitais” — organizado pela Secretaria de Estudos Estratégicos (SAE), órgão diretamente vinculado à Presidência da República. Na abertura desse evento, Samuel Pinheiro Guimarães, Ministro do SAE, explicou aos presentes que o seminário em questão era parte de um dos temas centrais a serem desenvolvidos pelo “Plano Brasil 2022” — responsável por traçar diagnósticos e fixar metas a serem cumpridas pelo conjunto de todos os Ministérios do Estado brasileiro até o ano em que se comemora o Bicentenário de sua Independência.

img_eservicos1Nesse mesmo seminário, vários estudiosos e profissionais da área apresentaram e discutiram uma diversidade de temas e abordagens sobre a indústria cultural brasileira. Dentre as exposições realizadas, a palestra O Espetáculo do Crescimento: a Indústria Cultural como novo motor do desenvolvimento na atual fase do capitalismo mundial, de Marcos Dantas — professor de pós-graduação da Faculdade de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) — é emblemática, como seu próprio título indica, do assunto que estamos a desenvolver nos artigos dessa série. Através de uma interessante discussão teórica, fundamentada por análises empíricas da dimensão da produção cultural de hoje no Brasil, Dantas chama a atenção para as potencialidades da cultura nacional se transformar numa das principais commodities da economia do país em sua fase recente de internacionalização.

Nesse contexto, Marcos Dantas afirma com convicção a seguinte ideia: “A conclusão é uma só: o Brasil precisa tratar a indústria cultural com a mesma visão estratégica como tratou, no passado, a indústria siderúrgica, a petrolífera, a automobilística, a de bens de capital e outras. Apenas querendo ser didático, embora podendo suscitar compreensíveis sorrisos condescendentes, seria o caso de acrescentar o C de cultura após o S de BNDES. O objetivo será fortalecer, nacional e internacionalmente, o poder de barganha dos produtores e programadores brasileiros, logo das marcas culturais brasileiras. Nisso, o Estado tem papel fundamental a cumprir”.

Mas, então, qual seria esse “papel fundamental” que o Estado deve cumprir? Segundo a perspectiva de Marcos Dantas, o Estado deve agir “não como mecenas, mas como legislador (para o quê, tem a Constituição ao seu lado!), estimulador, fomentador, até mesmo ‘cobrador’ de atitudes e práticas industriais da parte dos muitos agentes envolvidos nas cadeias produtivas de cultura em nosso país”.

Os articuladores da cultura

nfmInspirados no festival holandês Next Five Minutes (N5M), coletivos brasileiros organizaram o Festival de Mídia Tática, o qual, realizado em 2003, incorporou diversos coletivos ativistas e “hacktivistas” das novas tecnologias [13]. O evento convidou o fundador da Eletronic Front Foundation (EFF), John Perry Barlow e contou com a presença do acadêmico Richard Barbrook, autor do livro Gift Economy, além do recém-empossado ministro Gilberto Gil. Sentado na plateia e observando o que acontecia ao seu redor, Cláudio Prado, ex-empresário dos Mutantes e dos Novos Baianos, teve a grande oportunidade de reencontrar o seu antigo amigo do movimento cultural tropicalista — justamente o ministro Gil.

Exilados pela ditadura civil-militar que iniciou no Brasil em 1964, o primeiro contato de Claudio Prado com os tropicalistas ocorreu em Londres, no final dos anos 60. Na época, Prado já havia feito bicos, como a experiência de guia turístico de uma empresa “mequetrefe” da Copa do Mundo de Futebol de 1966. Quando visitava o primeiro-secretário da Embaixada brasileira, Rubens Barbosa, ele conheceu Nelson Motta, o qual acompanhou para encontrar Caetano Veloso. Questionado por outros tropicalistas — “quem é esse cara?” –, desconfiou-se num primeiro momento que seria um policial para espionar os exilados. “Foi assim que os conheci”, mas, por intermédio da cena musical, Prado conseguiu estabelecer os laços com os novos no pedaço: “Eu estava começando a descobrir os porões, o underground. Eu já estava lá há algum tempo, fui me relacionando com eles, mas esse mergulho no mundo underground, que depois nos levou a começar a plugar isso nos festivais e descobrir porões onde estavam acontecendo coisas, foi o elo.” Sobre os festivais desta época, para Prado o objetivo e sentido era “de território liberado, o lugar onde você conquistava o direito de ficar pelado, viajar, tomar ácido, fumar, onde não tinha polícia”, isto, pois, era “um autogoverno, a política do êxtase” [14].

De volta a 2003, Cláudio Prado viu neste reencontro uma oportunidade real de realizar no Ministério da Cultura a sua ideia de articular música e tecnologia digital. Após uma tentativa inicial frustrada de obter a lista dos coletivos presentes, ele se viu obrigado a entrar em contato individualmente e convidou ativistas para conversas em sua casa. Seu principal objetivo com essa iniciativa era levantar um conjunto de pautas e iniciar um programa que seria apresentado ao Ministério da Cultura. Isso foi feito enquanto se aguardava a liberação do orçamento pelo governo federal.

marca-brasil-e-mincEnquanto isso, Gilberto Gil realizava um processo de reorganização do Ministério e formulava-se o esboço inicial do que seria uma política pública de cultura. Na visão de Gil essa era uma questão de grande complexidade e que precisava dar conta dos “novos problemas, com as novas tecnologias e a relação dessas novas tecnologias na vida cultural, tecnologias exaustivamente utilizadas pela produção cultural, como é o caso das tecnologias digitais” [15].

Dois meses depois do contato com Gil, Claudio Prado pressionava para o Ministério participar dos eventos relacionados ao Software Livre. Como não delegaram um representante, ele se passou como representante oficial do Ministério da Cultura no evento em Brasília de Software Livre, a Segunda Oficina de Inclusão Digital, em maio de 2003. A situação se repetiu no Fórum Internacional de Software Livre (FISL), e dessa forma começaram a enxergá-lo como alguém do governo, já que era ele quem o representava nos eventos. Sendo reconhecido como porta-voz e “cansado de esperar”, Prado se autonomeou “Coordenador de Políticas Digitais” e fabricou seu próprio cartão com um carimbo do Ministério. Segundo ele, de tanto entrar e sair, as pessoas do Ministério poderiam jurar de pé junto que ele trabalhava lá. Porém, como ele mesmo confirma, isso não é verdade; Claudio diz ter “hackeado” o Estado, isto é, “subverter” a lógica das políticas públicas, alterar por dentro uma “ideia careta”. E, através do jargão da contracultura, Prado falava em “conspirar” dentro do governo.

A ideia de “hackear” o Estado é muito presente dentro do campo político relacionado aos coletivos que circulam nas discussões e eventos da cultura digital. Em debates virtuais e encontros presenciais, foi questionado se isto não seria cooptação ou “domesticação” e, ainda, colocaram como “paradigma” a realização da política do próprio coletivo, autônoma ao Estado — mas não do mercado. Em parte, essa discussão levou a um “racha” interno criando discordâncias e acusações entre coletivos e indivíduos que participaram do Ministério da Cultura e em programas de outros Ministérios, como no de Comunicação.

Por 18 meses, além das reuniões em seu apartamento, Prado formou no Instituto de Matemática e Estatística (IME) da USP o grupo autodenominado “Articuladores” e numa wiki formulou-se de forma colaborativa a “política pública revolucionária” que, segundo ele, contou com a participação de mais de 80 pessoas. Nas reuniões discutiam-se propostas para sair do “gueto” e se tornar a “vanguarda do mundo da web 2.0”.

371758Nesse processo Prado passou a circular nas atividades de coletivos como no Encontro de Rádios Livres, na Unicamp. Assim possibilitou-se a atualização da contracultura hippie com o discurso pós-moderno e “era da informação” — oriundo das teorias midiocêntricas — presente em muitos dos coletivos como Mídia Tática, Rizoma.Net, Mídia Sana e Projeto Metáfora. Prado define-se hoje como um hippie digital, ou não.

O Ministério da Cultura passou a ser analisado por Prado como um “guarda-chuva” das políticas digitais, as quais foram divididas em duas grandes frentes: a primeira, de trazer as discussões das implicações do digital e do direito autoral; a segunda, da apropriação da tecnologia na prática, a qual foi traduzida no projeto dos Pontos de Cultura.

Sobre a flexibilização do direito autoral, Prado afirma que o primeiro mundo não consegue desconstruir essa ideia e isso afeta o desenvolvimento deles. Porém, nos países periféricos, onde a legislação trabalhista e o direito autoral “está longe”, já que a maioria dessas pessoas vive oficialmente desempregada e se sustenta através do trabalho informal e uma vez que nem sequer possui contato com essas ideias do “século XX”, fica muito mais fácil de se assimilar os modelos de novos negócios.

Para Prado, como a população periférica está acostumada a “se virar” para se sustentar, o programa Ponto de Cultura veio reforçar essa capacidade de “se virar”; “eu e o Gil chamamos de sevirismo”. Em documento do Cultura Digital, elabora-se a definição de “sevirismo” como de “articular uma compreensão cultural e política de viabilização de uma nova cidadania digital na qual o acesso democrático ao conhecimento, aos meios de produção e à difusão da criatividade se dá a partir da apropriação de tecnologias que propiciam soluções de economia criativa.” [16]

No final da gestão do ministro Juca Ferreira, e com o fim da Era Lula, como não se tinha certeza do que viria pela frente na gestão Dilma, esse campo que orbitava o ministério passou a se organizar e planejar um “governo paralelo”, capaz de influenciar a próxima gestão principalmente com os projetos dos quais eles são os gerentes e dominadores do discurso, pois são eles próprios que o formulam conceitualmente. Dessa forma, nasce a Casa de Cultura Digital, em São Paulo, denominada por alguns deles como um “bunker”, mas por outros como um espaço de co-work [17] das “empresas 2.0”.

O velho, o novo e o novíssimo

Há o novo e o velho. Há aqueles que, apavorados com o novo, proclamam que não passa de uma miragem. E há aqueles que, deslumbrados com o novo, esquecem que têm raízes. Não se trata aqui de recordar que além da ciberatividade existe o trabalho de mãos e pés e dorso vergado, porque o começo de uma tecnologia coexiste sempre com o fim de outra e pode argumentar-se que o importante é discorrer sobre as linhas de tendência que virão a hegemonizar o futuro. Pois bem, é o que vamos fazer.

Temos então uma atividade informática que surgiu no quadro do capitalismo e não resultou de nenhum movimento exterior a esse quadro, não foi uma nova tecnologia criada por um qualquer cataclismo social que tivesse inventado uma sociedade nova. Mas respondem-nos que por aí mesmo estamos a mostrar o nosso arcaísmo, que esta é uma maneira velha de encarar a questão, uma maneira pré-, e que agora se vive na maneira pós-, que agora já não é a sociedade a criar uma nova tecnologia mas a nova tecnologia a criar uma sociedade. Dizem-nos que enquanto andarmos com as nossas teimosias e participarmos nas lutas sociais estaremos a fazer as coisas no lugar errado, porque é na internet agora que se inventa a toda a hora, a todo o minuto, a sociedade nova e diferente e livre.

Mas argumentos assim deixam-nos imobilizados de espanto ou contorcidos de riso, depende do carácter de cada qual, porque não há nada mais vetusto do que esse tipo de teses. No capitalismo não surgiu até agora uma grande inovação tecnológica que não tivesse sido apresentada por muitos como constituindo a ultrapassagem de todos os constrangimentos sociais. A humanidade iria enfim libertar-se da servidão do trabalho e da exploração graças à eletricidade, graças à agricultura científica, graças à produção de massa, graças à automatização e aos robots. Todas as novas tecnologias, inclusivamente o taylorismo, tiveram os seus poetas líricos e os seus prosadores proféticos. E para que a série se repita agora basta uma coisa — ignorar a história.

Não é outro o motivo por que insistem com tanta persistência que a informática provocou uma ruptura tal que deixa a história sem valor no presente. Só ignorando a história, e com esta indispensável condição, é que alguém pode acreditar que uma tecnologia invente uma sociedade e que este seja um programa nascido agora pela primeira vez. Mas a ideia de que a aplicação da eletricidade aos meios de produção constituía o fundamento de uma sociedade nova e emancipadora foi o programa da tecnocracia nos alvores do século XX, tanto na área do socialismo como nas margens mais progressistas dos governos daquela época. E deu no que deu. O mesmo com o resto.

A felicidade pela tecnologia

A felicidade pela tecnologia

Se evocarmos o stalinismo todos pensam em muito goulag e pouco goulash, mas esquecem a outra face, que neste caso é o verdadeiramente importante. A partir da transição da década de 1920 para a década de 1930, com o lançamento dos Planos Quinquenais e a realização do Socialismo Num Só País, o stalinismo foi uma colossal operação de engenharia baseada no mito de que a novidade técnica haveria de criar uma sociedade nova. Leiam a literatura política e econômica do stalinismo, e quem não tiver paciência para tanto veja o cinema soviético daquela época, e quem não o encontrar procure no Google as imagens de propaganda, e quem tiver um gosto verdadeiramente perverso leia os romances escritos de acordo com as diretivas do Partido — os outros ficaram então na gaveta — e verão que se tratou de uma enorme apologia à novidade técnica e da promessa de que essa técnica abriria as portas de um paraíso povoado por operários musculosos, camponesas robustas e criancinhas bochechudas.

Mas nunca, até hoje, as inovações tecnológicas trouxeram uma novidade social que não consistisse na reestruturação do sistema de exploração. E é para isto mesmo que chamamos a atenção no artigo A esquerda fora do eixo e nesta série de artigos Domingo na Marcha. Resumido ao fundamental, pretendemos mostrar que a informática, assim como possibilitou novos utensílios de luta, abriu igualmente vastos espaços à ação empresarial. É isto que temos dito e que estamos agora a dizer.

Mas há quem aguarde nós chegarmos a este ponto do discurso para nos lançar outro argumento. É que, pretendem, as lutas e os confrontos estão agora ultrapassados. São pré-, e nós vivemos no pós-. A informática dispensaria as lutas, as lutas da velha toupeira e as da cacetada nas ruas, porque permitiria hackear o Estado. Em matéria de hackers, porém, não foi necessária a informática e há um século atrás, como este site recordou, Léo Taxil conseguiu penetrar no mais fechado e secreto dos Estados, o do Vaticano, na mais fechada das instituições, a Igreja Católica. Taxil já morreu, mas o Vaticano e a Igreja de Roma ainda aqui estão. Muito recentemente o WikiLeaks conseguiu penetrar não num Estado mas num grande número deles. Todos nós nos entusiasmamos com este feito, todos nós tentamos, na medida das nossas curtas possibilidades, colaborar na defesa de Assange quando ele foi vítima de uma armadilha policial. Mas o que sucedeu em seguida? Nada.

Não sucedeu nada porque os movimentos de luta contra o capitalismo não estavam e não estão preparados para se aproveitarem de algo com a dimensão do WikiLeaks, como não sucedeu nada há um século atrás porque os movimentos de luta contra a superstição e a opressão moral não estiveram à altura da subversão conseguida individualmente por Léo Taxil. Continuando a resumir-nos ao fundamental, é precisamente para isto que chamamos a atenção no artigo A esquerda fora do eixo e nesta série de artigos Domingo na Marcha. Transformar Marchas — todas ou algumas delas — de mobilizações de luta em espetáculos capitalizáveis por um empresário mostra a realidade subjacente à pretensão de hackear o Estado. Não se trata de um discurso vazio. Muito pior do que isso, trata-se de um discurso perverso.

O primeiro hackeador do Estado

A primeira pessoa que anunciou que tinha hackeado o Estado — com outras palavras, porque os hackers ainda estavam longe de existir — foi Alexandre Millerand, em França, em Junho de 1899, o primeiro socialista a entrar num governo burguês, como então se dizia. O caso criou um enorme escândalo, de um lado e do outro, e durante muito tempo foi esta a linha de clivagem dos socialistas, se podiam ou não participar em governos burgueses. Mas a argumentação com que Millerand e os seus incontáveis imitadores se defenderam é em tudo semelhante à que usam hoje os pretensos hackeadores do Estado, a tese de que por dentro é que se mudam as coisas.

Na realidade, porém, uma vez lá dentro são as pessoas que mudam. Como todos nós bem sabemos ao vermos o percurso de tantos antigos companheiros. Além de não libertar a sociedade, a informática não destrói também os mecanismos do poder.

Mas para quê toda esta discussão? Poderiam os empresários de negócios e os empresários de departamentos acadêmicos alguma vez estar interessados em destruir o fundamento último das relações de exploração? Poderiam os que se sentem embevecidos e atraídos pelas margens do poder político alguma vez estar interessados em destruir o fundamento último das relações de opressão?

(Continua aqui)

NOTAS

[1] Quando regressa do exílio, Juca Ferreira filia-se ao PV, sendo eleito vereador por duas vezes. Além disso, ele dirigiu a Fundação Ondazul, criada pelo Gilberto Gil, sendo conhecido regionalmente pela sua militância no movimento ambientalista.

[2] Gilberto Gil – Entrevista realizada por Produção Cultural no Brasil.

[3] Gilberto Gil – Entrevista realizada por Produção Cultural no Brasil.

[4] Juca Ferreira – Entrevista realizada por Produção Cultural no Brasil.

[5] Juca Ferreira – Entrevista realizada por Produção Cultural no Brasil.

[6] História remontada pela pesquisadora e co-partícipe deste processo, Eliane Costa, em sua dissertação “Com quantos gigabytes se faz uma jangada, um barco que veleje”: o Ministério da Cultura, na gestão Gilberto Gil, diante do cenário das redes e tecnologias digitais”.

[7] Juca Ferreira – Entrevista realizada por Produção Cultural no Brasil.

[8] ibidem.

[9] “Pronunciamento do ministro Gilberto Gil durante o Seminário sobre Economia Criativa organizado pelo Britsh Council”, 06/12/2005. Disponível aqui.

[10] Trecho extraído daqui.

[11] Juca Ferreira – Entrevista realizada por Produção Cultural no Brasil.

[12] ibidem.

[13] Hacktivistas preparam megaevento em SP.

[14] Claudio Prado – Entrevista realizada por Produção Cultural no Brasil.

[15] Gilberto Gil – Entrevista realizada por Produção Cultural no Brasil.

[16] Trecho extraído de “CULTURA DIGITAL 2007-2010 – UM PROGRAMA DO MINC”. Disponível aqui.

[17] A proposta de um espaço físico “colaborativo” é justamente para capturar as externalidades positivas dos envolvidos nessas iniciativas.

Domingo na Marcha (2ª parte)

Retirado de http://passapalavra.info/?p=41710

26 de Junho de 2011

A “geração 2.0″ não nos é estranha; é quando tiram dela o “rancor” que ela se transforma em estranha mercadoria. Por Passa Palavra

Pelo fato de reivindicarmos a herança de séculos de lutas e a criticarmos com liberdade, já fomos acusados de tudo. Certa esquerda tradicional, com as mesmas palavras-de-ordem do século XX, diz que não devemos puxar certos debates, que não podemos tratar de certos assuntos em público – exatamente os assuntos que dizem respeito às formas de dominação sobre aqueles à custa de quem constroem seu capital político. Por isto não nos espanta que críticas semelhantes nos sejam dirigidas não pelos jovens em luta, pelos jovens da rua, mas por aqueles que, tendo sido um dia jovens que localizaram muito rápido o caminho das pedras do poder político e econômico, e incapazes de refletir criticamente sobre aquilo que faz deles mesmos diferentes desta esquerda tradicional, ocupam nas lutas o mesmo lugar daqueles dinossauros, daqueles limitados a quem tanto criticam. Temos medo do novo e somos teoricamente limitados, é o que nos dizem. E isto que nos dizem, nos é dito tendo como base exatamente a mesma herança que reivindicamos – embora a vejamos de lugares diferentes, por sinal diametralmente opostos. Para sair desta geleia geral, é preciso que nos expliquemos, mais uma vez.

***

Contracultura pode parecer coisa nova, mas é velha como andar para a frente – tal como sua cooptação. O romantismo do final do século XVIII e início do século XIX; o dandismo dos primeiros anos do século XIX e a boemia do final deste século; os dadaístas e toda a “geração perdida” no início do século XX; os beats no final da década de 1940; no início da década de 1960, os opostos mods/rockers (Inglaterra), blousons noirs/blousons dorées (França), dijkers/pleiners (Holanda) e beatniks; todos são movimentos contraculturais. Alguns deles, mais especificamente, são movimentos contra o capitalismo, contra alguns de seus aspectos, mas que, em geral, tomam o caráter de movimentos arcaizantes, cultores de aspectos mitificados de um passado pré-capitalista deslocados de sua História. O dandismo, por exemplo: contemporâneo dos primeiros passos da industrialização, foi a apropriação estética por parte de jovens burgueses da Inglaterra e da França da vestimenta, dos trejeitos e do modo de vida dos aristocratas do Ancien Régime; mesmo as simpatias do lucidíssimo Oscar Wilde com o socialismo não foram outra coisa além de passos necessários para a constituição do Individualismo (com “I” maiúsculo). Os beats e beatniks cultuavam  não apenas o improvisado e o onírico, mas também o místico e o oculto, e alguns se tornaram verdadeiros reacionários; ao contrário do budista praticante Allen Ginsberg e de William Burroughs, imersos – cada qual a seu modo – em todo movimento cultural (e contracultural) posterior aos beats, o genial Jack Kerouac – depois de anos sentado no sofá da casa da mãe vendo programas de auditório na TV, barrigudo, alcoólatra e reacionário, afastado de seus companheiros de geração beat e odiando cada cabeludo que via pela frente – diria ser, em certo momento, “um estranho e solitário católico louco e místico” que não conhecia “nenhum hippie” pois “eles pensam que sou um motorista de caminhão”.
Roube este livro

Nenhum destes assemelha-se, de qualquer maneira, ao que vem a ser a geração que, a partir dos anos 1960, questionou radical e diretamente o modo de vida da sociedade fordista, em quase todos os domínios da vida social. Esta contracultura não se esquivou de certos confrontos e de certas alianças. Tomemos o exemplo de Abbie Hoffman. Não obstante a teatralidade e ludicidade típicas de sua política na fase do Youth International Party, publicou em 1971 Steal this book; além da incitação direta (“Roube este livro”), a obra continha conselhos sobre como plantar maconha, viver numa comunidade alternativa, roubar comida, furtar lojas, afanar cartões de crédito, fazer bombas e conseguir armas. Os ativistas da contracultura da época eram ao mesmo tempo teóricos, agitadores culturais e construtores de barricadas – como Rudi Dutschke, Alain Geismar e Dany Cohn-Bendit bem o demonstram. E sabiam muito bem que suas lutas estavam umbilicalmente ligadas não apenas às lutas de minorias, mas principalmente àquelas da mais ampla maioria. Não se tratava apenas, como analisaram certos pós-estruturalistas, de lutas travadas por grupos minoritários de trabalhadores, de mulheres, de expressões sexuais, de grupos étnicos etc., que não compartilhavam dos modos de expressão e dos valores da maioria e organizaram-se para fazer valer seus modos de expressão e valores e, a partir daí, colocar questões que alcançassem e interferissem nos modos de expressão e valores da maioria; tratava-se, sim, das lutas destas minorias, mais visíveis, e também das lutas invisíveis da mais ampla maioria pela transformação radical da sociedade – ou seja, de lutas revolucionárias, no mais forte sentido da expressão.

"O direito burguês é a vaselina..."

Não por acaso o Maio de 1968 na França tomou as proporções que tomou. Não houve apenas um Maio de 1968, mas um Maio-Junho de 1968, a maior greve geral da história da França, em cujo apoio os estudantes radicais se concentraram, deixando a Sorbonne aos situacionistas (e seus telegramas inócuos) e partindo para a periferia operária do norte de Paris onde, ao lado dos grevistas, se bateram com os policiais e contra os burocratas sindicais. Só depois começou a se falar do Maio, para apagar a memória do Maio-Junho. Mais radicais ainda foram os trabalhadores chineses durante a Revolução Cultural, que sequer precisaram destes agitadores para perceber a enorme contradição entre o projeto dos burocratas do Partido Comunista, de promover apenas uma renovação nos quadros da burocracia, e seu projeto de uma China construída a partir de uma federação de comunas nos moldes da Comuna de Paris, com dirigentes livremente eleitos e revogáveis. Vale o mesmo para os trabalhadores de Praga, para os estudantes mortos no Massacre de Tlatelolco, para os estudantes e trabalhadores italianos que ocuparam fábricas em 1969 e passaram toda a década seguinte em luta… Não é esta, por exemplo, a história do mesmo Cesare Battisti por cuja libertação tantos – entre os quais nos contamos desde o início – se bateram?

Jane Alpert procurada pelo FBI: o rancor na geração 68

Esta geração, embora contasse também com inegáveis elementos arcaizantes, foi a responsável pela mais profunda crítica prática à tecnocracia – influência tanto de seu próprio modo de vida quanto das leituras dos comunistas de conselhos, dos anarquistas, dos frankfurtianos, de marxistas críticos como aqueles agrupados na revista Socialisme ou Barbarie, dos primeiros representantes da new left etc. Foi também, infelizmente, a primeira cujos mais visíveis representantes converteram-se muito rapidamente em candidatos ao status quo, a fazer parte desta mesma tecnocracia que tanto criticaram. Dany Cohn-Bendit, ele próprio tornado parlamentar europeu décadas depois, fez em 1988 o balanço desta geração em Nous l’avons taint aimée, la révolution: Jerry Rubin transformado em executivo yuppie; Bobby Seale, ex-Pantera Negra, transformado em cozinheiro filantropo; Roel van Duyn e Rob Stolk, ex-Provos e ex-kabouters, transformados em políticos “verdes”; isto enquanto gente como Jane Alpert, Hans-Joachim Klein e tantos outros era obrigada a esconder-se como cães escorraçados por haverem lutado de armas em punho e bombas à mão contra o “sistema” – do contrário, seriam presos até sabe-se lá quando. Salvou-se Rudi, assassinado aos poucos.

Deleuze, Sartre e Foucault em conferência do Groupe dInformation sur les Prisons (GIP) de 1972

É a esta geração que se vinculam alguns de nós. Os muros das fábricas não caíram de velhos, não. Se ruíram, foi porque a luta dos trabalhadores, em especial de sua geração mais jovem, demonstrou na prática os limites da sociedade fordista, numa ponta, e da superexploração nos países do assim chamado “Terceiro Mundo”, de outro. Estes jovens trabalhadores mostraram também os limites de toda luta que não fosse internacionalizada, que não contasse com apoio e solidariedade ativos por toda a parte. Sabemos de onde viemos e não andamos por aí a esquecer nossa história – que, afinal, é a de nossas próprias vidas – em nome da mais recente moda intelectual. Para aqueles do PassaPalavra que estavam em Paris nos meses da agitação revolucionária – e podemos dizer “aqueles” no plural – Foucault, Deleuze, Guattari e tantos outros pós-estruturalistas não são representantes dos meses de Maio-Junho de 1968, mas representantes do fim destes meses: isto era tão evidente para todos que se alguém na altura pretendesse o contrário só receberia gargalhadas em troca. Esses teóricos geraram-se e proliferaram nas ruínas de uma sociedade possível que os radicais de pouco antes haviam pretendido construir, e serviram para erguer um biombo que escondesse a possibilidade desta alternativa.

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São Paulo, 20 de abril de 2001: Ah-ha, uh-hu, a Paulista é nossa!

A dita “geração 2.0” não nos é estranha, muito pelo contrário. Outros dentre nós que integramos o PassaPalavra foram despertados para a militância pelo chamado à solidariedade internacional feito em 1994 pelos zapatistas – estes que, mesmo apropriados pelos pós-modernos como ícones, não se esquecem que tomar os meios de produção é fundamental para avançar qualquer luta anticapitalista, “minoritária” ou não. Alguns dentre nós participaram ativamente dos movimentos antiglobalização que antecederam as lutas em Seattle (1999) e ultrapassaram os limites impostos pela brutal repressão em Gênova (2001).

Somos nós o cognitariado; somos nós os que produzem com base no saber sobre as “novas tecnologias comunicativas”. É ele, transmitido de boca a ouvido ou de tecla a tela, quem nos permitiu estar lado a lado com tantos condenados da terra e apoiá-los em suas lutas enquanto vivíamos as nossas próprias. Por outro lado, somos nós o precariado; por opção política ou por total falta de oportunidade, também somos nós os que pulam de emprego em emprego, de bolsa em bolsa, de ONG em ONG, de bico em bico, sem futuro, sem expectativas, sem chances, sem nada. Nós não somos, nem agimos, nem vivemos, nem nos vestimos mais como aqueles trabalhadores que conhecemos quando pequenos – estes que eram nossos próprios pais – mas nem por isto deixamos de ser explorados. De um lado do Atlântico somos a geração à rasca; do outro, somos os que sabem por experiência própria que as promessas do pleno emprego jamais se cumprirão outra vez. É isto o que nos impele a lutar.

Seattle, 1999: rancor 2.0?

Nossa geração, de certa forma, continua e aprofunda lutas que aquela geração dos anos 1960 iniciou. Squats, okupas, pequenos coletivos e organizações, antes isolados ou com baixa capacidade de integração além daquilo que seus integrantes poderiam alcançar com os meios de que dispunham, contaram a partir de meados da década de 1990 com uma poderosíssima ferramenta de luta: a internet, ainda em sua versão “1.0”. Através dela – mas não somente – integramos articulações como a Ação Global dos Povos, de cujos Dias de Ação Global participamos ativamente em São Paulo, Salvador, Fortaleza e tantas outras cidades do país. O contato com formas de ativismo e militância inauditas no Brasil da época – tutte bianchi, autonomen, adbusters, Reclaim the Streets, Earth First!, black block, Ruckus Society, Direct Action Network etc. – e com movimentos sociais de base mundo afora – zapatistas, CNT, Tinki Huasi, CONAIE, Federação Krishok, COBAS, CGT, as Seis Federações do Trópico, Tino Ragantirotanga etc. – nos deu experiência para tocar iniciativas de produção de mídia, a apoiar os movimentos sociais que, como hoje, viviam pesada repressão e dar início a formas de protesto e a movimentos sociais que expressassem tudo aquilo que vivíamos e desejávamos.

Jerry Rubin 1968/1985

Ocorre que a rebeldia de décadas atrás já havia sido transformada em valor positivo no seio do próprio capitalismo – que, não esqueçamos, é dentre os modos de produção aquele único que necessita de constante renovação e destruição de aspectos de si próprio para seguir existindo. Na medida em que muitos daqueles que nos antecederam e outros daqueles com quem convivemos já haviam passado para o outro lado da trincheira, surgiram profissionais especializados em perceber nosso “ser” e nosso “fazer” para transformá-los em mercadoria – os cool hunters, praga espalhada por todos os cantos com vários nomes, não raro agindo em segredo para captar para dentro da produção capitalista aquilo que antes se lhe opunha. Eles são o aspecto mais evidente de uma inversão que se dá hoje na velha indústria cultural. Se antigamente a mais-valia para ser realizada precisava da audiência e dos olhares, isto é, para vender aquele artista do catálogo eles precisavam do jabá e de toda essa estrutura, a tendência da indústria cultural hoje é justamente a inversa: monetizar a partir do produto cultural que atraiu os olhares, mesmo quando produzido fora de suas cadeias produtivas principais. Veja-se, por exemplo, como a própria noção de interatividade na internet – boa invenção da contracultura digital materializada, entre outros lugares, na rede Indymedia – serve hoje, extirpada de sua radicalidade, ao mercado: demonstra-o, mais banalmente, o sucesso que hoje fazem certos vídeos postados no YouTube quando incorporados nos programas de TV. Os cool hunters e seus congêneres de hoje não precisam mais ser profissionais; basta estar “antenado” e vender sua ideia. Como se vê, conversões como a de Jerry Rubin hoje são fichinha.

Do berço à cova

E assim bailamos a dança de São Vito conosco próprios. Como o capital é uma relação entre pessoas mediada por coisas, ao mesmo tempo em que lutamos contra tais relações, somos não raro obrigados a fazê-las funcionar; na medida em que agimos e criamos novas formas de viver, elas logo são incorporadas como mercadoria. Vivemos esta contradição em nossa própria carne com aquilo que produzimos, mas sabemos bem de que lado estamos e quem queremos ter ao nosso lado na luta contra o capitalismo, que não é outra coisa além de luta entre classes; é isto que nos orienta e nos leva a criar todas as dificuldades possíveis à apropriação e mercantilização daquilo que produzimos. A luta contra a propriedade privada dos meios de produção se dá também no campo da produção da cultura digital, e por isto mesmo estamos em constante alerta contra qualquer forma de concentração de meios de produção cultural digital nas mãos de poucos – mesmo quando estes parecem multidão. Alguns tentam, com a desculpa da “imanência”, de que “só existe este mundo aqui”, sair desta esquizofrenia em que todo movimento anticapitalista hoje se vê enfiado. Não veem que estas são exatamente as justificativas daqueles que querem quantos novos mundos possíveis criemos para transformá-los naquilo que não são nem nunca se quis que fossem? (Na verdade, talvez o vejam bem até demais; aí seríamos nós os ingênuos, mas já é outro papo, bem mais grave.)

Antonio Negri (na frente, à direita) nas ruas pelo Poder Operário

Por isto, aquilo de que falam Negri, Bifo, Virno, Lazzarato, Bologna, Marazzi e outros tantos pós-operaístas deslumbrados com os Grundrisse de Marx é exatamente o que vivemos, nós mesmos, em nossas carnes, bem antes que escrevessem sobre isto. Só viemos a conhecê-los fora de seus restritos âmbitos de atuação quando Império fez de Negri pop star do jet set intelectual internacional e levou-o a palestrar para o Ministério da Cultura em 2005. Quem mais precisa destes teóricos não somos nós, mas certos acadêmicos burocratizados e descolados das lutas, incapazes de ver o que se agita diante de si sem os óculos da teoria ou interessados nesta agitação para transformá-la em mais uma mercadoria; ou aqueles que, surgidos de nossa própria geração, pretendem encobrir com palavras difíceis sua conversão ao status quo. (Na verdade, quando Negri, exilado em Paris, apresentou em 1978 sua leitura dos Grundrisse em nove seminários na École Normal Supérieure da rue d’Ulm, falou para gente bem parecida conosco próprios e apresentou os rascunhos de Marx como um texto “dedicado à subjetividade revolucionária” que articula “uma apreciação das possibilidades revolucionárias criadas pela ‘crise iminente’ com a vontade teórica de sintetizar adequadamente as ações comunistas da classe trabalhadora frente à crise”. Isto posto, é bastante sintomático que alguns epígonos do operaísmo e do pós-operaísmo não retenham este conteúdo classista e prefiram as fugas linguísticas.)

***

Apoiar as lutas

Como se vê, para nós a prática antecede a teoria. Ou, melhor dizendo, para não colocarem palavras erradas em nossas bocas: não nos interessam os termos abstratos e irreais em que tal oposição tradicionalmente é apresentada, mas estes outros, mais duros porque concretos: não há teoria que não seja reflexão sobre lutas concretas, reais, vividas, sentidas na pele e narradas por aqueles que lutam, enquanto lutam. Por isto mesmo, dizemos estar aqui para “noticiar as lutas, apoiá-las, pensar sobre elas”. E é o que temos feito desde publicamos nosso primeiro artigo em 2 de fevereiro de 2009.

Os limites do fordismo colocam-se para nós não através de leituras do teórico A, B ou C, mas através da luta dos terceirizados, tidos como invisíveis – enquanto estiverem trabalhando, óbvio; da análise crítica das compensações para aqueles que jamais conseguirão retornar ao patamar de renda proposto pelos métodos fordistas clássicos de contenção dos conflitos sociais; da luta dos migrantes, que agora também estão no Brasil – país que hoje decola rumo a uma versão renovada do projeto “Brasil Potência” de décadas atrás, sobre o que pouco se tem refletido criticamente. Não reconhecemos tais limites desde hoje ou ontem, nem tampouco o fazemos apenas pela perspectiva da crítica às novas formas de exploração, mas também pela das críticas às velhas formas de luta, que mantemos desde muito tempo e não abandonamos. As velhas formas de exploração, que também criticamos, não morreram, muito pelo contrário; não há “tradição inventada” que nos faça esquecê-las, mesmo quando se dão nos lugares mais inusitados.

passeata-periferia-luta2E para nós não se trata apenas de acompanhar as lutas quando rebentam, mas também de conhecer e divulgar as expressões culturais que nelas surgem; o cotidiano dos que lutam e dos que, entediados e angustiados, ainda não o fazem; o fazer artístico do dia a dia e as plataformas políticas que só a intuição poética pode oferecer… É só a partir disto, e não de qualquer leitura abstrata ou diálogo afável, que nos é possível conhecer a mercantilização da cultura e sua crítica, feita por todos os meios necessários. Para nós, “periferias” não são sujeito das lutas, mas sim o território onde trabalhadores, qualquer que seja o adjetivo que se lhes dê, lutam contra a paz dos cemitérios que as classes dominantes lhes querem impor, de armas em punho, sobre os cadáveres de inocentes. Lá onde também se luta contra o autoritarismo nas escolas e contra as tarifas abusivas dos transportes, é lá onde preferimos estar.

movimentos-61

Nossa própria história de militância demonstra que acampamentos e “revoluções 2.0” não nos são estranhos – embora sobre eles nos demos o direito de divergir em um aspecto ou outro. Acompanhamos a “Primavera Árabe” e outras formas de manifestação na África (Marrocos, Angola, Tunísia, Egito, Bahrein etc. e mesmo lutas esquecidas como as que ocorrem na Costa do Marfim). Vimos nestas lutas o grande potencial das mídias interativas sempre que usadas para garantir a mais ampla autonomia e horizontalidade no seio das lutas. Isto nada mais é que a retomada de práticas que alguns de nós viveram sob outras formas no passado, e que outros de nós viveram há poucos anos e vivem ainda em outras situações.

Amarração 2.0?

É esta experiência que nos leva a ter os dois pés atrás com certo “ativismo 2.0” – da qual o coletivo Fora do Eixo é apenas um exemplo pontual, pois nele se incluem também inúmeros coletivos “artivistas” locais enredados na malha dos Pontos de Cultura, organizações como o Partido da Cultura (PCult) e ONGs como a Casa da Cultura Digital e Instituto Overmundo – que concentra saber e poder e, sob a desculpa de produzir novos modos de “viver” e “fazer”, cria nichos de mercado, domina técnicas de acesso a recursos públicos e pretende agora ter legitimidade social usando as Marchas da Liberdade como meio. Isto, evidentemente, desde que consigam antes esvaziá-las de qualquer conteúdo potencialmente conflituoso como a luta contra a repressão policial e a luta pela tarifa zero para enfim transformá-las nas “ilhas dos rancores proibidos” de um “arquipélago Gulag do pós-rancor”. Guardadas as devidas proporções e os diferentes tipos de capital que mobilizam, agem como certos sindicalistas que usam manifestações de trabalhadores e convenções coletivas tanto para rentabilizar certas operações financeiras que realizam através dos sindicatos quanto para viabilizar novas formas de arrecadação (contribuição confederativa, seguros de vida coletivos intermediados pelo sindicato, comissões de conciliação prévia etc.). Enquanto para os sindicatos vale o capital na forma de dinheiro antes de qualquer coisa – afinal, são “analógicos” – no caso das Marchas o que se mobiliza também é o capital simbólico, ou seja, o prestígio de terem sido organizadores de tal movimento e de terem-lhe dado tal ou qual rumo, ou mesmo nenhum; isto lhes será útil nas futuras disputas com uma gestão do Ministério da Cultura que agora, circunstancialmente, lhes é hostil e ameaça quebrar o novo modelo de “mercado da cultura” em cuja instituição trabalham ativamente. Justo eles, os “modernos”, os “digitais”, a guardar tantas semelhanças com estes ultrapassados trambolhos “analógicos”!

O tom com que iniciamos o debate foi, como se viu e como se vê, tão duro quanto duro precisou ser o próprio debate; do contrário, lá estaríamos nós, diante destes adversários, dizendo como poderiam fazer para apagar exatamente aqueles aspectos que fazem deles exatamente o que são – e, por tabela, servindo-nos de bandeja não à antropofagia, mas à fagocitose que lhes assegura a sobrevivência ameboide no “mercado das ideias”. E é neste mesmo tom que seguiremos debatendo. Como se vê, não negamos a produção cultural digital e o uso de novas tecnologias em favor das lutas sociais. Do contrário, nós que fechássemos o PassaPalavra em nome da coerência, pois dizemos em nossos Pontos de Partida: “é urgente a criação de uma rede que ligue as diversas formas de contestação, um espaço comunicacional que favoreça o contacto entre as diferentes correntes anticapitalistas, independente tanto do poder económico como das tutelas políticas e ideológicas. Igualmente, apoiamos e estamos dispostos a cooperar com outros projectos neste sentido”. Por isto mesmo, somos, sim, contra, rancorosamente contra, toda e qualquer forma de mercantilização da cultura disfarçada de “ativismo” “cidadão” “pós-rancor”, e quanto a isto – não custa dizê-lo mais uma vez – não há diálogo possível.

(Continua aqui)

Domingo na Marcha (1ª parte) – Passa Palavra

Retirado de Passa Palavra: http://passapalavra.info/?p=41431

22 de Junho de 2011

Os limites das fábricas foram rompidos não para libertarem os trabalhadores do trabalho e da vigilância dos inspetores, mas para incorporar todas as dimensões da vida na mesma lógica da produtividade. Por Passa Palavra

O coletivo Passa Palavra recebeu a seguinte mensagem de Pablo Capilé, do Fora do Eixo:

«Olá,
Gostaria de convidar o coletivo Passa Palavra para um debate público sobre a “Esquerda Fora do Eixo” e a Marcha da Liberdade, que foi tema de artigo do site na semana passada. Acredito que o objetivo de vocês ao escrever a referida reportagem tenha sido o de ampliar o debate, portanto gostaria de dar sequência a essa iniciativa com um debate aberto, público e com transmissão ao vivo, na data que escolherem e no local que escolherem. Estaremos a disposição. Fico no aguardo.
abs!»

Enquanto espaço de debates do campo anticapitalista, não participamos de eventos organizados por entidades do “ativismo empresarial”, já que para nós as classes existem e são bem definidas. Porém, nos preocupamos com o caminho que seguirão daqui para a frente as lutas sociais. Por isso, a continuidade da reflexão – pública e ampla – segue aqui, em forma de uma série de artigos, e não numa atividade a ser protagonizada por aqueles que se colocam como os novos gestores das redes.

O tropicalismo fora do eixo

— Escrever sobre o tropicalismo? Ai! Ai! Mas vamos ser atropelados por este e por aquele exatamente aqui, porque um é o teórico do tropicalismo e o outro é mais tropicalista ainda.

— Mas o tropicalismo não é teoria, é puro blablabla, ele não tem nada a dizer além daquilo que já está dito.

— O tropicalismo foi vazio enquanto movimento político, não teve tempo, só se realizou no plano estético, por isso não deveríamos embarcar nele.

— Mas precisamente por isso devemos embarcar, porque é vazio, é o discurso do presente, a antropofagia do que está aí. Enfim, casa-se perfeitamente com a nova tendência do capital.

— Olhem, eu não entendo nada disso, a minha música é outra.

“Você não está entendendo
Quase nada do que eu digo
Eu quero ir-me embora
Eu quero é dar o fora
E quero que você venha comigo”

— Paciência, venha com a gente que a gente explica, ou não.

marcha-71Quando Gilberto Gil subiu ao palco para disputar a final do III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, no já longínquo ano de 1967, não era apenas o lançamento do grupo “Os Mutantes” que estava acontecendo. “Domingo no Parque”, a música que não saiu vencedora, conseguiu fazer no plano estético-cultural o que não se podia fazer pela política: abrir o país para o mundo. Estava ali um baiano a contar uma história nordestina ao som do que viria ser a mais importante banda de rock do Brasil. O nacionalismo que dominava tanto a esquerda quanto a direita não entendeu bem aquilo e tudo o mais que viria a acontecer em volta de [Gilberto] Gil e de seus companheiros e os isolou.

É verdade que, como fala Caetano Veloso no documentário “Uma noite em 1967”, Gil estava um tanto ou quanto inseguro aquela noite, era algo muito ousado a se fazer e as consequências não estavam claras. Caetano, que também foi finalista neste mesmo festival com a música “Alegria, alegria”, em outra já havia declarado o que pretendia fazer desde lá. “Eu organizo o movimento / Eu oriento o carnaval” era umas das frases mais fortes da música “Tropicália”, de 1968, que daria nome ao que estava acontecendo.

Rejeitados tanto pela esquerda (http://www.youtube.com/watch?v=mCM2MvnMt3c) quanto pela direita, inclusive pelos representantes destes dois lados da cena artística e cultural brasileira, seguiram a mando da Ditadura rumo ao exílio, e os representantes do tropicalismo não conseguiram consolidar o seu movimento, se diluíram naquilo que hoje se chama de MPB, mas não sem antes deixar em toda a música brasileira algo de irreversível. O Brasil estava no mundo e o mundo deveria também estar no Brasil.

Ora, havia outra coisa em comum entre a esquerda e a direita do período da ditadura. Ambos eram, além de nacionalistas, extremamente autoritários. E o tropicalismo, independentemente de ser liberal ou libertário, não caberia em nenhum dos dois extremos. Como no mesmo período havia um movimento cultural ainda mais forte que agradava à esquerda, não se chegou a configurar uma cisão entre a política e a cultura, mas os ressentimentos surgidos daí parece nunca terem sido remediados.

Quarenta anos depois o tropicalismo volta a encontrar-se com a política, mas como a esquerda mudou menos do que a direita — pior, aquela esquerda de lá é o Estado de hoje — não fica difícil adivinhar para qual lado o tropicalismo, ou pelo menos seus símbolos, foram ganhos. Chegou a hora, finalmente, de organizar o movimento?

Como a juventude sempre mudou o mundo

A cada novo ciclo de lutas impulsionado pelos trabalhadores, os capitalistas se colocam diante de um dilema: como aceitar as reivindicações sem perder o poder. Se as classes dominantes não respondem rapidamente à insatisfação geral, então esta transforma-se em revolta e, de revolta em revolta, pode se chegar a uma revolução. Mas se eles aceitam o que é reivindicado em sua totalidade, então as taxas de lucro e o poder das instituições que os sustentam podem ruir, e perde-se tudo da mesma forma.

marcha-61Na maior parte dos momentos críticos da história destes dois últimos séculos o impasse foi resolvido de uma forma que não poderia ser melhor: o capitalismo conseguiu assimilar boa parte das reivindicações dos trabalhadores e ainda por cima elevar as taxas de lucro. Os trabalhadores exigiram o direito de se organizar, e assim foram permitidos partidos e sindicatos que, ao longo do tempo, se transformaram mais em capatazes da força de trabalho do que em instrumentos dos trabalhadores para conduzir as próprias lutas. Exigiram melhores condições de trabalho, direito à educação e ao lazer, previdência e tudo mais e, em troca, se tornaram mais produtivos. Por fim, disseram que pensam, que sentem, que têm desejos e ganharam em troca o direito de se “auto-explorar”. Nem por isso esse processo aconteceu sem tensões e incertezas e houve quem duvidasse que seria impossível assimilar mais uma vez as exigências colocadas em pauta.

Se fizermos as contas, veremos que a juventude de hoje está tão longe de 1968 quanto a de 1968 estava das revoluções da década de 20. Mas esta distância não se mede pela soma dos anos e sim pela forma como cada uma questionou o mundo e o seu passado, decretando o novo. Na década de 20 os trabalhadores, mesmo morando nas cidades, eram em sua grande maioria camponeses, e muitos ainda estavam a trabalhar na atividade agrícola. Em 1968 as formas de se construir as lutas já não poderiam ser as mesmas para uma geração que nasceu e se formou nos grandes centros urbanos e a fábrica era o destino certo da grande maioria. Nos primeiros anos do século XXI nem o campo nem as fábricas existem mais no imaginário da juventude, a forma de se relacionar com o trabalho é outra e é esta outra forma que explica como se dão, ou não se dão, as lutas atuais.

Hoje, vive-se num momento da história no qual a formação para o trabalho acontece desde o nascimento de uma criança. Não se trata somente de inculcar no pequeno ser alguma “ética protestante” que dome o seu espírito para o trabalho dócil ou uma visão fatalista do seu papel no mundo. As coisas vão além e desde cedo, cada brincadeira já é em si um treinamento, uma “formação” ou “capacitação”. Qualquer um espanta-se ao ver uma criança antes de aprender a ler e a escrever operar um computador ou um celular, esses que serão, qualquer que seja a sua profissão, se é que terão uma, os seus principais instrumentos de trabalho.

marcha-8Daí para a frente, a cada inovação tecnológica, novos aprendizados são incorporados à formação dos sujeitos. Os que, por outro lado, não tiveram acesso a esta formação estão automaticamente excluídos do novo mundo do trabalho, vão viver sob as relações de produção mais arcaicas e opressoras, e das forças produtivas mais obsoletas. Reparem na mudança que aconteceu em um século: no início os trabalhadores não precisavam saber nada do seu próprio trabalho, bastava apertar um parafuso, bater o martelo em alguma lâmina ou acionar alavancas. De meados do século passado até o seu final as fábricas e o sistema educacional se encarregaram de preparar os trabalhadores para atividades mais complexas, chegando a explorar a criatividade e as emoções dos mesmos no estágio mais avançado deste processo. Hoje os pais se encarregam desta formação, as mídias, as redes sociais virtuais e, na maior parte do tempo, é o trabalhador que está a se autoeducar, quando não a criar as ferramentas da sua própria exploração. Cada um é um trabalhador desde que nasce, continua sendo-o nas suas horas de lazer e não deixa de ser quando na inatividade.

Uma das características, portanto, desta nova forma do mundo do trabalho já está clara. Os limites das fábricas foram rompidos não para libertarem os trabalhadores dos rígidos turnos de trabalho e da vigilância permanente dos inspetores, mas para incorporar todas as dimensões da vida na mesma lógica da produtividade, desta vez ainda mais intensa. Outras características, entretanto, só começam a ficar nítidas agora, com a emergência das primeiras lutas organizadas por essa nova geração.

O segmento do proletariado que mais produz valor para o capitalismo e, por isso, é a fração mais poderosa em termos de negociação, está dissipado. É esta nova geração de trabalhadores, ainda jovem, que opera as novas tecnologias da produção e está encarregada de manter em pleno funcionamento os centros mais lucrativos do capitalismo moderno. O que produzem, em muitos casos, não está sujeito à lei da gravidade, são produtos intangíveis, mas nem por isso fugiram da lei do valor. Pela infinidade de formas que o trabalho ganhou e pela infinidade de produtos que se cria cotidianamente, além, é claro, da proximidade que mantêm dos gestores do próprio trabalho, a identificação entre eles como pertencentes a um mesmo grupo social, ou uma fração da classe trabalhadora, é prematura, se tivermos uma concepção otimista do processo, ou extremamente difícil, se quisermos ser mais realistas.

marcha-5Entretanto, não é por não se articularem para as lutas, que não se articulam para produzirem seus próprios símbolos e espaços de convivência. Esta articulação não acontece nas praças ou nos refeitórios, mas principalmente pela internet, nas redes sociais e outras ferramentas virtuais. O espaço do encontro físico, “presencial” como se costuma falar nestes meios, para que cada um possa se reconhecer enquanto parte de uma totalidade, ainda não estava dado. É uma geração de trabalhadores que consegue interagir numa velocidade e numa dimensão nunca antes imaginada por nenhum outro movimento do proletariado, mas em compensação têm uma dificuldade nunca antes vista de se organizar, de sistematizar seus anseios e construir uma pauta que movimente todos numa direção comum. A interatividade, portanto, por mais colaborativa que chegue a ser em alguns momentos, não leva a uma organização de classe.

Por último, e talvez o mais fundamental porque o mais contraditório. Desde que a época dos artesãos foi superada para se instituir o trabalhador moderno que não tem nada além da sua força de trabalho, é a primeira vez que os trabalhadores também criam suas próprias ferramentas de trabalho, ou pelo menos modificam profundamente aquelas criadas pelas empresas. Essa adaptação das ferramentas de trabalho, geralmente softwares mas não só, dá aos trabalhadores um profundo conhecimento sobre os processos produtivos. E é esse conhecimento apropriado e ressignificado pelos trabalhadores que permite em alguns espaços criar produtos e serviços sob uma lógica distinta da imposta pelo capitalismo e, em outros tantos, construir até produtos do anticapitalismo.

Permitir que os muros das fábricas fossem rompidos elevou a produtividade e manteve vivo o capitalismo por mais um ciclo, mas ao mesmo tempo deu à questão do controle sobre os trabalhadores o tamanho do planeta.

(Continua aqui)

A esquerda fora do eixo – Passa Palavra

Retirado de Passa Palavra: http://passapalavra.info/?p=41221

17 de Junho de 2011 

As últimas mobilizações em São Paulo demonstram a fragilidade prática e teórica da esquerda num cenário de ascensão e transformação econômica. Por Passa Palavra

Os leitores interessados por este artigo gostarão decerto de conhecer também uma série de artigos posterior sobre o mesmo tema:

Domingo na Marcha 1ª parte, 2ª parte, 3ª parte4ª parte e 5ª parte.

I. 2011, São Paulo em cinco mobilizações

Do início do ano até abril houve grandes manifestações da luta contra o aumento da tarifa de ônibus em São Paulo. Diferentemente do que ocorreu em 2010 e nos anos anteriores, o público mobilizado passou de 4 mil pessoas e, ao invés de esvaziarem, os atos mantiveram-se cheios e permitiram realizar ações que antigamente chamaríamos de radicais, ou mesmo de ousadas, como a ocupação de um terminal de ônibus na região central e a paralisação de um dos sentidos da Avenida 23 de Maio – uma das maiores da capital do estado. A análise informal de alguns militantes sobre esse “fenômeno” baseava-se nos seguintes elementos: Facebook (com a confirmação de milhares de pessoas nos eventos que chamavam para as manifestações), repressão policial, o próprio valor da passagem (R$ 3,00) e a reunião das forças político-partidárias de oposição na cidade aos governos estadual e municipal. O ciclo de 2011 de lutas contra o aumento da tarifa foi encerrado pelo Movimento Passe Livre-SP, por acreditar que seria a hora de impulsionar uma luta mais abrangente que criticasse estruturalmente o sistema de transporte, com a bandeira da tarifa zero. Desse episódio, os militantes refletiram que havia uma “nova juventude” mobilizada: de classe média, estudantil, ligada nas mídias sociais.

antifascistaEm abril, após uma entrevista para programa de TV, “Custe o Que Custar”, o CQC, do jornalista Marcelo Tas, levantou-se a polêmica com o deputado federal e militar da reserva Jair Bolsonaro e seu discurso pró-ditadura e moralmente conservador. Durante aquela semana, a polêmica matéria repercutiu pelas mídias sociais, que pressionaram uma cassação por quebra de decoro parlamentar. Em apoio, grupúsculos da extrema-direita marcaram um ato em defesa ao deputado e, espontaneamente, indivíduos atomizados da esquerda convocaram um ato antifascista com o objetivo de impedir a realização da manifestação. O que foi testemunhado pelos que compareceram nada mais foi que um grupo numericamente insignificante de valentões fantasiados de fascistas. Reencenando a Batalha da Praça da Sé, em que os integralistas foram confrontados nas ruas do centro paulista pelos anarquistas, colocou-se em ação um teatro da luta antifascista: palavras de ordem de um lado e de outro. O ato reuniu cerca de duas centenas de pessoas. Quem de fato protagonizou alguma coisa foi o próprio Estado de Direito, o qual deteve alguns membros dos skinheads por serem procurados pela Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi).

Em maio o transporte voltou a ser pauta na cidade. Moradores de Higienópolis [1] organizaram um abaixo-assinado com menos de 5 mil assinaturas para impedir a construção de uma estação da linha amarela do metrô no bairro. Segundo os moradores, a estação faria com que “gente diferenciada” passasse a frequentar a região. Espontaneamente, indivíduos atomizados e blogs “antielitismo” divulgaram o “Churrascão da gente diferenciada”, a ser realizado nas ruas de Higienópolis. Ao menos virtualmente, o evento marcado no Facebook teve mais de 60 mil pessoas com a presença confirmada. No sábado, dia do “churrascão”, cerca de mil pessoas compareceram e, segundo alguns manifestantes, ao todo 2 mil passaram pelo local.

churrascaoO campo social presente ultrapassou os limites daquele ativista-militante e político-partidário, isto é, se expandiu com pessoas que não participavam das lutas pelo transporte público. No entanto, o caráter pouco contestatório era evidente. Devido à pressão dos manifestantes, o governo estadual voltou atrás e decidiu construir a estação na rica região da cidade, a qual já possui acesso a três outras estações. Assim, o grande mote de revolta dessa manifestação lúdica foi o próprio diagnóstico de quão arcaica e antiquada é a elite de Higienópolis, mas, no limite, não se colocou a questão – essa sim crucial – da própria lógica elitista da construção do metrô em São Paulo, que prioriza o atendimento às regiões centrais e exclui as regiões periféricas. Tornou-se assim não uma manifestação “antielite” ou por transporte público para todos, mas contra essa elite arcaica.

Ainda em maio ocorreu uma nova mobilização. Desde 2004, indivíduos e coletivos pró-descriminalização das drogas – ou ainda antiproibicionistas – convocaram a “Marcha da Maconha” e, de modo análogo aos anos anteriores, a marcha foi proibida pela Justiça por apologia ao uso de drogas e a Polícia Militar reprimiu os manifestantes. Por conta disso, no mesmo dia convocou-se na porta da delegacia [esquadra] uma nova marcha, agora contra a violência sofrida. Logo após esse anúncio, o coletivo Fora do Eixo (FdE) entrou em contato com os organizadores para integrar a articulação da próxima marcha.

Entre 21 e 27 de maio ocorreram duas reuniões presenciais. Na primeira lançou-se o nome do ato, que passou a se chamar “Marcha da Liberdade” e não mais “Contra a repressão policial”. Na segunda reunião, no Studio SP – uma casa de show administrada por Alexandre Youssef [2] –, Pablo Capilé, articulador do FdE, assumiu as tarefas relacionadas à comunicação da manifestação, como transmissão online, e seu coletivo também arcou com os custos das flores que seriam distribuídas no dia. Capilé ainda mencionou a possibilidade de patrocínio da Coca-Cola à marcha; segundo seu argumento, hoje em dia as empresas buscam contato direto com os grupos e movimentos sem que seja necessário expor as suas marcas. De imediato os presentes ligados ao coletivo Desentorpecendo a Razão (DAR) e Movimento Passe Livre discordaram de tal patrocínio.

Uma das pautas impulsionada a partir da repressão pelos movimentos e coletivos de esquerda foi a promoção de um projeto de lei para proibir o uso de armas “menos letais” em manifestações. Pretende-se que seja aprovado um projeto semelhante ao da Argentina. O coletivo FdE, Cláudio Prado (da Casa de Cultura Digital), e membros da rede MobilizaCultura discordaram que fosse necessário pautar qualquer coisa que não fosse a “própria ideia de liberdade”. Esta foi a maneira encontrada para neutralizar politicamente a Marcha.

marcha-liberdade-11-hg-350x248No dia 28 de maio, a Marcha da Liberdade agregou movimentos como GLBT, Movimento Passe Livre, Marcha da Maconha, organizações políticas e milhares de indivíduos. Os otimistas estimam 10 mil pessoas, já a polícia calculou a presença de 4 mil manifestantes e na transmissão online a cobertura feita por Bruno Torturra, jornalista da Trip, foi acompanhada por cerca de 2 mil pessoas. Um novo ato da Marcha da Liberdade foi convocado para 18 de junho, dessa vez de caráter nacional e, no dia 15 de junho, o Supremo Tribunal Federal julgou e autorizou a realização da “Marcha da Maconha”.

Dessa série de manifestações e atos, extrai-se que as mídias sociais – principalmente o Facebook e o Twitter – mobilizaram conjunturalmente novos setores da classe média, mas, por outro lado, houve também um caráter diferenciado da pauta tradicional dos movimentos sociais e da esquerda em geral. A pauta genérica de algumas delas (e mesmo neutra) ou de grande relação com os direitos individuais – como explicitamente no caso da descriminalização das drogas e da liberdade de expressão – tem possibilitado a aproximação de elementos da classe política – tanto de esquerda como de direita [3] – e também de novas empresas e ONGs com foco no marketing virtual, na publicidade e na cultura.

II. O coletivo Fora do Eixo

A experiência precursora ao Fora do Eixo ocorreu em 2000 com o Espaço Cubo – “a cultura que você não vê na TV” –, fundado por Pablo Santiago Capilé, 31 anos. Na época estudante de publicidade e marketing da Universidade de Cuiabá, Capilé incentivava as bandas da cidade organizando festivais e, assim, formando um mercado cultural independente [4]. Com o crescimento da organização alugaram uma casa de show e, inspirados no conceito de economia solidária de Paul Singer, criaram uma moeda baseada no trabalho envolvido na produção dos eventos, o Cubo Card.

Pontos do CfE – Trip 2011

Num novo fôlego para ampliar a rede, no final de 2005, Capilé formou o Fora do Eixo, um coletivo de gestores da produção cultural independente com o objetivo de promover festivais com intercâmbio de bandas e outras expressões artísticas e contando com a articulação de quatro cidades: Cuiabá, Rio Branco, Uberlândia e Londrina. Diferentemente da produção cultural mainstream, o coletivo estimula a cultura fora do eixo Rio-São Paulo. Hoje o Fora do Eixo possui 57 coletivos espalhados pelo país. Segundo a organização, eles possuem a capacidade de realizar 5 mil shows por ano e em mais de 100 cidades. Em seu catálogo figuram algumas estrelas da música independente da atualidade como o rapper Emicida e as bandas Macaco Bong, Mombojó e Vanguart. O organograma interno do Circuito Fora do Eixo pode ser visto aqui.

Desde o início de 2011, membros do coletivo de Cuiabá e Uberlândia se mudaram para São Paulo e inauguraram uma casa no Cambuci como sede do Fora do Eixo – a CAFESP (Casa Fora do Eixo – SP). O aluguel de R$ 4 mil sustenta um espaço para shows, estúdio, salas de reunião e a hospedagem de 18 membros “liberados” que trabalham 24 horas por dia para o coletivo, não recebem salário, mas em troca têm suas despesas pessoais pagas pelos cartões do coletivo; esse investimento individual e comportamental é denominado de se “entregar para a causa” [5].

Atualmente a CAFESP realiza shows todos os domingos com churrasco e cerveja “na faixa”. Mas o principal deste projeto não se trata de festas, conversas e diversão. A sede do coletivo no “eixo” (e não fora dele), como se poderia supor, trata-se de uma estratégia para alcançar o mainstream cultural:

Agora, com a trama bem costurada em 112 cidades, a estratégia é ganhar o mainstream, atrair artistas com carreiras mais consolidadas e criar um pólo para atrair gente, dinheiro e oportunidades. Em parceria com o Studio SP, principal palco da cidade para novos músicos, já ganharam as noites de terça-feira para agendar bandas do Brasil e da América Latina.” [6]

Casa Fora do Eixo – SP: em breve, no Distrito Federal

Para sustentar todo esse recurso material e projeto político-cultural, há uma constante pesquisa de editais para financiamentos públicos e privados combinada com a elaboração e envio de projetos para captação dos recursos neles disponibilizados. Em 2010 inscreveram-se em cerca de 125 editais e, com mais de 30 aprovados, captaram aproximadamente R$ 2 milhões para os projetos (festivais de música, de cinema, de economia solidária, etc.) e R$ 300 mil para as despesas do “institucional” [7]. Um outro aspecto interessante é que eles possuem diversos tipos de cadastro jurídico: associações culturais, empresas, ONGs, casas noturnas. No total são 57 CNPJs [número fiscal] a serviço do FdE, uma fluidez que permite um amplo leque de atuação dentro dos negócios. Além dos editais há também propostas comerciais para emissoras de rádio como a OI FM.

O Fora do Eixo se constituiu e articulou através do programa Cultura Viva do Ministério da Cultura, na gestão do ex-ministro-cantor Gilberto Gil e Juca Ferreira. E fora do governo encontrou o suporte das organizações, empresas e indivíduos que orbitam a “cultura digital” [8].

III. Os embates no Ministério da Cultura

O programa Cultura Viva realizou a distribuição de recursos pelos Pontos e Pontões de Cultura [9], numa parceria direta organizações-governo para fazer cultura. A mudança nas gestões Gil e Juca transformou um Ministério de pequeno orçamento em algo relevante no cenário cultural, com a possibilidade de alteração da Lei do Direito Autoral. No artigo “A economia criativa e a economia social da cultura“, Pablo Ortellado descreve quatro grandes mudanças que ocorreram no Ministério durante esse período: reconhecimento das mudanças das novas tecnologias, política cultural para todos os atores da cadeia produtiva, direito autoral como uma garantia de acesso aos bens culturais e o investimento nos novos modelos de negócios.

Longe de ser uma política de integração nacional através da cultura para forjar a identidade do povo brasileiro presente em outros momentos da história brasileira, o objetivo dos Pontos de Cultura foi estimular uma cadeia de produtores culturais a se intercomunicarem via novas tecnologias para estimular a diversidade cultural brasileira. Ao invés da repetição e massificação da indústria cultural denunciada pelos frankfurtianos, dessa forma haveria a produção “genuína” de cultura, nos quatro cantos do país, isto é, em tese, novos mercados e mais produtores que não precisariam da infra-estrutura produtiva das transnacionais da cultura e dos oligopólios culturais regionais. A prospecção de cultura num primeiro momento abriria a oportunidade para um segundo em que ela entraria na esteira da exportação internacional inserindo a produção cultural brasileira no mercado sul-sul, o que de fato não chegou a ocorrer mas alia-se assim ao pensamento de desenvolvimento nacional do governo Lula.

Campanha pelo Creative Commons no Ministério da Cultura

No entanto, com a mudança no Ministério da Cultura, a ministra Ana Buarque de Hollanda tem confrontado as decisões das últimas gestões, como a retirada do logo do Creative Commons, a paralisação dos editais e premiações, e a reforma da Lei do Direito Autoral. Desta forma, acena para os gestores das transnacionais da cultura e dos oligopólios culturais regionais.

A mudança política tem fechado a porta para os recursos dos pontos de cultura [10] e para as mudanças na Lei do Direito Autoral, as quais beneficiariam o modelo de negócios adotado pelas organizações parceiras e o próprio Fora do Eixo. Em resposta foi fundado o “Partido da Cultura”, o PCult, uma organização suprapartidária contra a ministra Ana Buarque, pela retomada e “continuidade das políticas do Gilberto Gil” e também o MobilizaCultura, uma “rede das redes” para “propor políticas no campo da cultura que radicalizem a democracia” [11].

Para essas organizações do campo da cultura digital, a gestão de Ana Buarque, e num aspecto geral o governo Dilma, estão sendo um “retrocesso das conquistas”. Por outro lado, a prática realizada anteriormente por algumas organizações e coletivos reencena o patrimonialismo, que um entrevistado nos descreve:

Apesar do discurso e da estética anarquistas de muitos, e da adoção de organizações horizontais, como redes e coletivos enquanto forma de organização, a apropriação do Estado – seus recursos e estruturas – é umas das principais práticas do Fora do Eixo. Já enraizados no aparelho do Estado, principalmente no MinC [Ministério da Cultura] mas não só, participam da elaboração dos editais para projetos culturais e de novos tipos de políticas públicas, como os de promoção do uso de softwares livres e da consolidação da Economia Solidária, cuja articulação entre essas tecnologias e o Estado é de criação e exclusividade deles. Assim, ao incorporarem ao Estado (e não só aos governos) a necessidade de políticas nestas áreas, garantem também a exclusividade na apropriação dos recursos destinados a estas mesmas políticas. O interessante é que por fazerem tudo isso usando de estruturas informais e completamente diferentes das que as organizações político-partidárias e tradicionais grupos empresariais adotam para os mesmo propósitos, é praticamente impossível para um observador desatento ou viciado nas velhas estruturas identificar e combater o novo sujeito formado por este coletivo (ou rede). Outra característica é para a maioria dos membros deste coletivo/rede aumentar o próprio poder já é o mais importante, por mais que para um ou para outro o discurso propalado ainda seja o que os movem, e ao invés de executarem os projetos financiados pelos editais que eles mesmos criaram, usam dos recursos e da estrutura do Estado para se articularem por todo o país e garantirem o tempo livre necessário para o desenvolvimento de novos editais, novos discursos, consolidação de práticas e de tecnologias que os mantêm.”

Nessa perspectiva, para estes grupos como Fora do Eixo e Cultura Digital, o embate se dá numa disputa por quem ficará com aquele quinhão do orçamento do Ministério da Cultura, não que o acesso a ele seja para fins diferentes num caso ou em outro.

IV. Cultura livre e os novos modelos de negócios

Os novos modelos de negócios partem da inovação tecnológica e jurídica realizada pelo Software Livre que, quando transportados para o campo da cultura, criam uma produção com a ausência ou flexibilidade do direito autoral, permitindo assim novas formas de geração de valor. Incentivado pelo Fora do Eixo e pelas organizações que compõem a Cultura Digital, o modelo é conceituado como “open business” (negócios abertos ou novos modelos de negócios, em português). A pesquisadora da Fundação Getúlio Vargas, Oona Castro, define dois tipos de open business: um é fruto do uso do instrumento legal (licenciamento em Creative Commons, por exemplo) – e o outro, uma situação social, na qual há produção em rede com flexibilização da propriedade intelectual como o mercado tecnobrega do Pará. A cultura resultante desse processo é denominada cultura livre.

online-businessO open business é a transformação do modelo de negócios de um mercado monopolista em concorrencial, ou seja, dada a natureza não rival do bem digital e a cópia a custo próximo de zero, o lucro passa a depender da produção material (camisetas, adesivos, etc.) e, principalmente, dos shows; caminha-se assim da renda para os serviços. Para as transnacionais da cultura e os oligopólios culturais regionais, isso significa a modificação do seu papel de intermediador entre mercado e consumidor, e, na dimensão econômica, a extração de lucro por renda é ameaçada.

Advogado e fundador da Creative Commons, Lawrence Lessig afirmou em seus artigos e livros que o termo “cultura livre” (free culture) é análogo ao “livre mercado” (free market). Em seu livro “Free Culture“, Lessig afirma que “a cultura livre que eu defendo nesse livro é um equilíbrio entre anarquia e controle. Uma cultura livre, como um mercado livre, e composta de propriedades. Ela é composta por regras de propriedade e contratos que são garantidos pelo Estado. Porém, da mesma forma que um mercado livre é corrompido se sua propriedade se torna feudal, da mesma forma uma cultura livre pode ser deturpada pelo extremismo nos direitos à propriedade que a definem. Isso é o que eu temo sobre a nossa cultura atual. Foi por causa desse extremismo que esse livro foi escrito.” [12]

Os autores de “Copyright, Copyleft and the Creative Anti-Commons”, Joanne Richardson e Dmytri Kleiner, analisam essa noção de liberdade: “Uma obra é livre na medida em que pode ser comercialmente apropriada, uma vez que a liberdade é definida como a circulação ilimitada de informação e não como algo livre de exploração.” [13]

A ideologia da cultura livre baseia-se na ideia de que a flexibilização da propriedade intelectual com a concorrência proporcionada pelo livre mercado pode estimular a criação e, nesse processo, democratizar a informação e assim as nações caminharem ao progresso. De fato, quanto maior a flexibilização da propriedade intelectual, maior a produtividade dos trabalhadores e, por isso, maior a produção de riqueza a ser apropriada e transformada em mercadoria. Em síntese, a cultura livre é a própria regra do jogo do capitalismo, a apropriação de algo que a classe capitalista não produz.

Dessa forma, a aliança política tática formada por um programa de oposição às transnacionais da cultura e os oligopólios culturais regionais acabou por ocultar a reflexão crítica sobre o que há de surgir em seu lugar.

V. Gestores e a política Fora do Eixo

A principal atividade econômica do Fora do Eixo não é a produção de um produto, mas a comercialização de seus serviços, os quais se especializam através da gerência dos processos da cooperação social, os tais festivais. É por essa razão que se posicionam contra a existência da figura do “intermediador”, isto é, das transnacionais da cultura e os oligopólios culturais regionais e sua relação entre produtores e mercado. No caso da cultura livre trata-se de um conflito no interior da classe capitalista: de um lado, rentistas da cultura e gestores da produção cultural [14] e, do outro lado, gestores da cultura digital e os artesãos da cultura, em que trabalhadores por conta própria na produção de consumo de luxo – de forma a maximizar seus ganhos – posicionam-se ao lado dos segundos sob o embate de produtivos versus improdutivos. Fora desse debate, há artistas que de certa forma preferem manter-se ao lado da “velha” indústria autoral, talvez não ideologicamente, mas pelo privilégio do circuito de apresentação mainstream exclusivo para os artistas das majors; uma típica situação de rentista que quer manter o monopólio sobre determinado bem do qual aufere renda. Resta ainda saber onde ficam os proletários que fabricam as mídias na Zona Franca, os que operam o som, os que produzem equipamentos, os que vendem os ingressos etc.

A Teoria da Cauda Longa de Chris Anderson

A Teoria da Cauda Longa de Chris Anderson

Os artistas do catálogo do circuito do Fora do Eixo representam um nicho de mercado em crescimento, mas que são consumidos como novidade, o diferente, e da mesma forma que outro produto, o risco da estagnação do mercado também existe. Mas, com a vinda do coletivo para São Paulo, trata-se de expandir o mercado divulgando a marca “Fora do Eixo” em mobilizações de jovens com o perfil consumidor de seus produtos [15].

O trabalho do FdE é fazer serviços para outros. Fazem realmente como um coletivo e não como proprietários de algo. Mas isso é justamente o que os identifica como gestores: possuir o know-how, o trabalho baseado no conhecimento e na gerência dos processos. Um tipo de trabalho que é possível vender e não ficar sem ele, já que conhecimento é um bem não rival.

Mas além dessas implicações econômicas, na esfera política há outras sobre as quais é necessário refletir. Para o Fora do Eixo a cultura é apenas um pretexto e, atualmente, passaram a buscar meios para chegar na política. Segundo Capilé, o coletivo conseguiu nesses 5 anos “musculatura e capilaridade nacional” e no dia 18, na Marcha da Liberdade, vão mostrar a força da organização.

Em entrevista para a coletânea “Produção Cultural no Brasil”, Capilé responde o que pretendem na política formal:

“Pretendemos criar um ambiente favorável para que daqui há trinta anos o presidente da República possa sair de uma perspectiva ligada a isso que nós estamos construindo. Há trinta anos, ele saiu do sindicato, então podemos tentar criar uma plataforma onde a cultura consiga ganhar mais espaço na agenda.”

Não por acaso, o Fora do Eixo possui instituições semelhantes às do governo como o “Diário Oficial FDE”, “Congresso FDE”, “Casa Civil”, etc. Na análise de Capilé, o momento atual com a ministra Ana Buarque de Hollanda é de enfrentamento e, de uma forma geral, isso é possível graças à construção desse (novo) meio de produção. Além da raiz econômica, a projeção na burocracia os configura politicamente enquanto uma classe gestora, classe que em outros momentos históricos possuiu como projeto a renovação das elites. Mas enquanto dispersos em organizações e instituições, os gestores confundem-se com os trabalhadores na sua oposição à burguesia.

Em caráter elogioso, Alexandre Youssef fez recentemente uma análise sobre o FdE:

“Imaginem um liquidificador em que se possa colocar as ramificações da esquerda, com estratégias e lógicas de mercado das agências de publicidade, misturando rock, rap, artes visuais, teatro, um bando de sonhadores e outro de pragmáticos, o artista, o produtor, o empresário e o público. Tudo junto e misturado. O caldo dessa batida é uma nova tecnologia de participação e engajamento que funciona de forma exemplar para a circulação e produção musical, mas que acima de tudo é um grande projeto de formação política.

O Fora do Eixo cria, portanto, uma geração que se utiliza sem a menor preocupação ideológica de aspectos positivos da organização dos movimentos de esquerda e de ações de marketing típicas dos liberais. É, como disse o teórico da contracultura Cláudio Prado, a construção da geração pós-rancor, que não fica presa à questões filosóficas e mergulha radicalmente na utilização da cultura digital para fazer o que tem que ser feito.” [grifos nossos] [16]

Podem utilizar os meios militantes e ativistas para ampliar sua influência política e até para expandir seu mercado consumidor de cultura independente, mas não deixarão de ser o que são – uma classe de gestores que visa renovar a burocracia.

VI. A esquerda fora do eixo

Desde a ascensão do PT ao governo e o processo da oposição virar a ordem, forjou-se um pacto social entre as classes que configura-se através da pacificação dos movimentos sociais [17] e diminuição do desemprego por um novo ciclo econômico; além disso, o acesso ao crédito fácil e o Bolsa Família permitiram às classes mais baixas adentrarem no mercado de consumo básico. E, de forma arrebatadora, a promessa de um futuro dourado estaria garantida com a exploração petrolífera da camada pré-sal que permitirá o ingresso do país na OPEP. O brado retumbante do ex-presidente Lula de que “Nunca antes na história desse país…” expôs que, de fato, não se pode mais designar o Brasil como um país “atrasado” na economia global [18].

A conjuntura econômica liquidou o programa de oposição ao governo, seja de direita ou de esquerda, e suas críticas aos programas do governo transmutam-se de acordo com a maré eleitoral: ora dobrar-se-ia o Bolsa Família, ora o mesmo não passaria de um novo clientelismo. O que restou da generalidade dos críticos de esquerda é a sustentação do “socialismo da miséria” [19] e, sem saber responder à social-democracia brasileira, na melhor das hipóteses formulam-se propostas que não ultrapassam a sua própria lógica, como a crítica às consequências da realpolitik governista, isto é, ao enriquecimento a partir dos cargos públicos.

antielistaNesse cenário de transformação global que elevou a imagem do Brasil a hype – sintetizado na capa da The Economist que apresenta a ignição do Cristo Redentor rumo ao espaço –, o “Churrascão da gente diferenciada” revela o seu caráter politicamente ambíguo, em que a incorporação do discurso “antielitista” passou a ser um recado para a nobre elite de Higienópolis: o futuro dos negócios chegou, não ignorem as novas classes médias, pois, mesmo morando na periferia, a sua empregada também pode consumir uma TV de plasma e ter um carro na garagem. O “churrascão” pode, sim, ser compreendido como um ritual lúdico para profanar – sem deixar de estigmatizar – uma elite deslocada do seu tempo, dando boas-vindas aos mais novos consumidores do mercado brasileiro. Um processo que limita-se à modernização da mentalidade e renovação das elites, e que, por isso, foi incapaz de revelar a incoerência de destinar mais recurso público para a ampliação da oferta de transporte público na região mais rica da cidade.

Sem o teatrinho de luta de classes ou antifascista, o que representa a onda anti-Bolsonaro é a recusa em aceitar uma elite arcaica no poder. Antes, a bola da vez foi o senador José Sarney com a hashtag #forasarney no Twitter. Da espontaneidade das mídias sociais não saiu outra pauta política que não fosse a renovação ou rejeição da elite política e econômica.

Os elementos da composição dessa nova elite passam pelo consumo e sustentação de novos habitus, como se deslocar para o trabalho de bicicleta ou a pé – algo inimaginável para um morador da periferia –, reciclar seu lixo, cuidar de pequenas hortas em casa, consumo de orgânicos, baixar músicas e minutar os momentos do dia numa mídia social. As preocupações políticas passam principalmente pela legalização das drogas e pelo meio-ambiente. Uma geração “pós-rancor” que não se apega a discussões “filosóficas”, como define, de forma elogiosa, Cláudio Prado.

Esse descontentamento com o “Brasil potência” tem sido abarcado pelo movimento liderado pela ex-petista Marina Silva. Se ao adentrar o poder o PT implementou um pacto social e tirou de cena os movimentos sociais, é também através da conciliação de classes que os ambientalistas buscam fazer oposição, seja eleitoralmente, nas manifestações ou na criação de um novo habitus. O clímax desse discurso será ano que vem no Rio +20 [20], evento para o qual diversas organizações já preparam as suas ações.

Juntam-se ao campo de “oposição” os grupos que anteriormente hegemonizavam o Ministério da Cultura, como o Fora do Eixo e as ONGs e empresas da Cultura Digital. Essa coletividade ambiental, “antielitista” e “alternativa” é uma das redes que permeiam a Marcha da Liberdade; um nome neutro que pode tanto servir para a Coca-Cola quanto para ativistas inseridos num projeto de classe.

Profissão repórter da Globo entrevista Capilé sobre a Marcha da Liberdade

Profissão repórter da Globo entrevista Capilé sobre a Marcha da Liberdade

Mas, o que o Fora do Eixo apropria da manifestação? Eles se apropriam da comunicação para se projetarem, capturar o “status” de organizadores e depois capitalizar esse público em seu circuito comercial. Esse método difere, por exemplo, de uma campanha do PT ou PSDB, pois não utiliza força de trabalho assalariada para construir sua base social. As ações do Fora do Eixo são a propaganda da organização para o alargamento do mercado e a manutenção de atividades gratuitas para angariarem simpatizantes.

Numa manifestação onde a quantidade de pessoas é consequência da divulgação nas mídias (corporativas e sociais) e não uma causa “real” relacionada ao trabalho cotidiano de formação, construção e mobilização, o refluxo de uma hora para outra é iminente. Um processo semelhante a Marcha da Liberdade são os acampamentos em Portugal e Espanha [21].

Nos limites da renovação e modernização das elites, com esta “geração em rede” mascara-se o conteúdo político das ações de um setor ascendente de uma classe dominante para evitar que se perceba isto que é e jamais poderá deixar de ser um confronto político.

NOTAS

[1] Higienópolis é um bairro de classes média-alta e alta de São Paulo. A sua origem histórica remete ao estabelecimento das famílias aristocratas, mas no decorrer do século XX passou a receber migrantes de origem judaica. Consultado aqui.

[2] Alexandre Youssef é um dos fundadores do site Overmundo, que tem em seu staff Ronaldo Lemos e Hermano Viana. Durante a gestão Marta Suplicy foi coordenador da juventude. Hoje é filiado ao Partido Verde e colunista da revista Trip.

[3] Como a ex-petista Soninha Francine (PPS), coordenadora da campanha virtual do candidato à presidência José Serra, que participou da Marcha da Maconha e da Marcha da Liberdade.

[4] “Independente” e “alternativo” são os termos vagos que as empresas encontraram para ocultar que trata-se de um nicho de mercado para o público universitário e similar.

[5] O jornalista Bruno Torturra categorizou a disciplina do coletivo como “espartana”.

[6] Ministério da Cultura, Revista Trip, 12/05/2011, disponível aqui.

[7] A lista dos editais é pública e pode ser acessada aqui.

[8] Cultura digital é a produção baseada nas novas mídias, mas também é o nome da ONG fundada por Cláudio Prado para gerir o programa Cultura Viva, do Ministério da Cultura. O conceito desenvolvido por essas organizações pode ser lido aqui.

[9] Segundo Gilberto Gil, ex-ministro da Cultura, o Ponto de Cultura é “uma espécie de ‘do-in’ antropológico, massageando pontos vitais, mas momentaneamente desprezados ou adormecidos, do corpo cultural do País”.  Ver aqui.

[10] Artista considera cancelamento de editais do Minc preocupante.

[11] http://www.mobilizacultura.org/site-em-construcao-2/mobilizacultura/

[12] LESSIG, Lawrence. “Cultura livre: como a grande mídia usa a tecnologia e a lei para bloquear a cultura e controlar a criatividade”. São Paulo: Trama, 2005.

[13] RICHARDSON, Joanne e KLEINER, Dmytri. “Copyright, Copyleft and the Creative Anti-Commons”. Berlin, 2006. Disponível aqui.

[14] Sobre a discussão dos gestores enquanto classe, leia a nota 2 do artigo “Extrema-esquerda e desenvolvimentismo (2)”, publicado aqui.

[15] Não será necessária uma análise quantitativa para saber o quanto da esquerda presente nessa série de manifestações corresponde como um potencial público-alvo para os serviços do Circuito do Fora do Eixo.

[16] Ministério da Cultura, Revista Trip, 12/05/2011, disponível aqui.

[17] De fora para dentro, os movimentos sociais passam por um processo de cooptação e pacificação pelo governo, e, de dentro para fora, a burocratização das lutas impede a generalização das relações horizontais e solidárias entre os movimentos. Ver o artigo “Entre o fogo e a panela: movimentos sociais e burocratização“.

[18] O Passa Palavra investiga numa série de artigos as mudanças profundas que o Brasil tem passado, ver aqui.

[19] Ver “Socialismo da abundância, socialismo da miséria“, de João Bernardo.

[20] http://www.uncsd2012.org/rio20/

[21] “A mobilização assembleiária não se inventa de cima para baixo. Ou nasce de baixo, ou não acontece. Ou corresponde a interesses de classe mais definidos, exprimindo contradições reais da sociedade e medindo forças no terreno, ou se ficará sempre pelos limites – estreitos e efémeros – de uma espécie de festa dionisíaca politizada.” Trecho do artigo “Acampados“.